3.5 Abordagem metodológica
3.5.3 Inventário documental e familiaridade com os dados
76 Na atualidade da estrutura administrativa da UFPel, a extinta Coordenação de Processos de Seleção
e Ingresso (CPSI), atrelada ao Gabinete da Vice-Reitor, corresponde à Coordenação de Desenvolvimento de Concurso, vinculada à PROGEP/UFPel. Considerando que os dados examinados nos editais indicaram a agência das duas coordenações durante o período pesquisado, ambos os coordenadores dessas estruturas foram entrevistados.
compilação dos achados da pesquisa, o que demandou, além de articulação frente a aportes teóricos, no mergulho analítico de um vasto conjunto de documentações que se interseciona com elementos trazidos pelo conteúdo dos editais e das entrevistas.
Evidentemente, o propósito desta seção não é descrever um roteiro, enfadonho, que elenca, item por item, todos os atos administrativos (resoluções, pareceres, despachos, entre outros) e decisões judiciais examinados a partir das informações registradas nos editais e nas entrevistas. Bem distante disso, a proposta se resume em apresentar os movimentos realizados pela pesquisadora para rastrear a trilha daquelas informações.
O estrutural de informações levantadas acionou a necessidade de colher a perspectiva do MPF nas cidades de Rio Grande e Pelotas, à medida em que as entrevistas traziam declarações no sentido de que tais órgãos teriam atuado, tanto na FURG quanto na UFPel, em demandas relativas ao cumprimento das cotas raciais previstas na Lei nº 12.990/2014.
Após trocas de correspondências eletrônicas, as respostas daqueles órgãos foram encaminhadas através de ambientes virtuais institucionais (serviço de atendimento ao cidadão), indicando que no âmbito da FURG não foi instaurado procedimento pelo MPF no que diz respeito ao modo como aquela universidade executa a Lei nº 12.990/2014. A resposta que aportou, em e-mail datado de 19/12/2019, faz referência ao Instituto Federal de educação, Ciência e Tecnologia de do Rio Grande do Sul (IFRS), instituição, portanto, diversa da FURG.
No que diz respeito à UFPel, a resposta do MPF de Pelotas se traduziu pela remessa eletrônica de dois procedimentos administrativo: Notícia de Fato nº 1.29.005.000472/2014-52 e o Inquérito Civil nº 1.29.005.000194/2016-0377, relativos,
respectivamente, à reserva de vagas para pessoas com deficiência (PCD) nos concursos e fraudes nas autodeclarações raciais na área do ensino (e-mail datado de 06/11/2019). Esses expedientes, segundo o MPF de Pelotas, foram instaurados a partir de representações de partes interessadas. Aqui é relevante destacar que a Notícia de Fato nº 1.29.005.000472/2014-5, em sua origem, fazia referência às cotas para PCD no concursos da UFPel, sendo que no bojo dos encaminhamentos relativos
77 Tais processos não são públicos, sendo as suas cópias remetidas pelo MPF a partir da solicitação desta pesquisa, motivo pelo qual não é possível disponibilizar o link de acesso aos mesmos.
a esse expediente, a posteriori, também foi abordada a questão relativa às cotas para candidatos(as) negros(as).
Também é necessário mencionar que a ciência sobre alguns documentos parte da imersão funcional da pesquisadora, que trabalha em uma das instituições pesquisadas (a UFPel). Tal circunstância propiciou um “ir a campo” (BEAUD; WEBER, 2007) guiado pelo conhecimento de elementos de difícil acesso ou, até mesmo, que não seriam conhecidos se não fosse a prévia e profunda presença da pesquisadora no campo.
Por exemplo, uma das categorias analíticas examinadas nos editais se refere ao comportamento das instituições pesquisadas em relação à efetivação da Lei nº 12.990/2014 no que concerne à prova de títulos. O fato de a pesquisadora trabalhar durante todo o período de produção desta pesquisa, Março/2018 a Março/2020, no órgão de assessoria jurídica da UFPel confere um status privilegiado de conhecimento sobre as argumentações utilizadas nas rotineiras disputas jurídicas travadas frente a questionamentos sobre a discricionariedade na etapa de títulos nos concursos públicos.
E nesse aspecto tal conhecimento prévio foi importante no momento de debruçar o olhar sobre as resoluções que regulamentam na FURG e na UFPel os concursos para docentes e técnicos-administrativos. Esses documentos se fizeram presentes nos textos dos editais e foram mencionados, mesmo de modo indireto, nas argumentações dos(as) entrevistados(as) para justificar e/ou contextualizar a ausência de previsão nas duas instituições de reserva de vagas para cotas raciais na prova de títulos. Nesse aspecto, também se insere a ciência sobre demandas judiciais que foram ajuizadas em relação ao tema da prova de títulos, uma evidência que foi articulada com os demais dados da pesquisa a fim de compreender os posicionamentos institucionais para além do que se extrai apenas na narrativas das entrevistas.
Dessa forma, percebe-se que a familiaridade da pesquisadora com os dados acabou assumindo um papel peculiar nesta pesquisa, pois ao mesmo tempo em que observou pela primeira vez certas circunstâncias do campo pesquisado, também sabia “onde olhar”. É claro que esse processo também envolveu uma distanciamento e estranhamento, a fim de pesquisar o familiar (VELHO, 1978), numa perspectiva de “[...] confrontar intelectualmente, e mesmo emocionalmente, diferentes versões e interpretações existentes a respeito de fatos e situações” (VELHO, 1978, p. 131).
manuseio das descobertas da pesquisa. Nesse aspecto, Beaud e Weber (2007, p. 193) referem que a reflexividade direciona o(a) observador(a)-pesquisador(a) a um patamar em que deve [...] analisar o que se passa relacionando-o ao que se faz [...]”, sob uma perspectiva de desambientação e distanciamento, frente a uma postura de situar-se, observar e descrever o campo pesquisado (SILVA, 2009).
Assim, no contexto de esses todos elementos, a partir do próximo capítulo, ingressa-se efetivamente na análise e discussão dos dados desta pesquisa.
4 CARTOGRAFIA DAS PERSPECTIVAS INSTITUCIONAIS
O objetivo deste capítulo se insere na expectativa de comparar a influência da perspectiva institucional na execução das cotas raciais nos concursos públicos promovidos pela FURG e UFPel durante o período de 10/06/2014 a 31/12/2018. Assim, aqui são evidenciados os achados da pesquisa, de modo a interseccioná-los com as questões problematizadoras, as quais constituem categorias de apresentação dos dados.
Esse itinerário abre caminho, a partir da lente cartográfica da Teoria Ator-Rede, para o debate sobre o comportamento institucional das universidades pesquisadas no que se refere à execução da Lei nº 12.990/2014. Tal percurso de discussão dos achados da pesquisa demanda aportar, preliminarmente, algumas considerações sobre o histórico de produção da Lei nº 12.990/2014, a fim de circunstanciar a parcialidade da narrativa meritocrata que orienta o serviço público e torna esse espaço um lugar de seletividade racializada.
Observar esse contexto dentro da proposta de problematização desta dissertação, que é focalizada na ótica do plano institucional, conduz o olhar para os aspectos relativos aos processos de mudança institucional. Nesse sentido, são traçadas algumas linhas que permitem situar em qual dimensão esta pesquisa concebe as instituições e, principalmente, os actantes através dos quais elas interagem com o mundo racializado do trabalho. Para além disso, também se registra algumas considerações sobre a etimologia da palavra cartografia e suas diferentes concepções de abordagem, evidenciando que na Teoria Ator-Rede ela recebe uma ressignificação.
Depois desta discussão, realiza-se a articulação entre as categorias analíticas dos editais dos concursos públicos e as entrevistas com gestores, de tal forma que cada categorização aqui apresentada corresponde, respectivamente, aos questionamentos orientadores da pesquisa delineados no capítulo anterior (item 3.1), extraídos do corpo da problematização central desta pesquisa, que questiona: a perspectiva institucional repercute na execução da Lei Federal nº 12.990/2014 no âmbito das duas instituições pesquisadas?
“decriptando” (LEMOS, 2013) as posturas institucionais da FURG e UFPel de modo comparativo, identifica-se aproximações e afastamentos nas duas universidades no que se refere à operacionalização da política afirmativa em análise, o que reforça a proposição da TAR/ANT de “[...] que as redes constituem a vida social, não como estrutura que a enquadra, mas como relação que a inaugura” (LEMOS; RODRIGUES, 2014, p. 1018).
Diante desse contexto, estrutura-se a problematização da dissertação na forma do seguinte enunciado: “A perspectiva institucional repercute no modo de execução da Lei n° 12.990/2014 na FURG e UFPel”. Essa sentença nasce da interpretação dos dados, os quais evidenciam a existência de duas formas distintas de agir institucional frente ao texto da legislação que instituiu as cotas raciais no serviço público federal. Uma vertente identificada na concepção de uma execução “neutra” da política, portanto, contrária ao enunciado. A outra, relacionada ao reconhecimento da interferência discricionária dos gestores na execução da política, uma percepção que pode ser “favorável/contrária” ao enunciado da controvérsia. Contudo, não é possível compartimentar as universidades pesquisadas em cada um desse polos, pois não está isolado e tudo se relaciona.
Frente a essas premissas, efetiva-se, nas considerações expostas seguir, a discussão dos achados da pesquisa, refletindo as percepções extraídas do âmbito de FURG e UFPel, conforme a tendência dessas instituições de aproximarem-se e/ou afastaram-se das perspectivas de neutralidade e discricionariedade na execução das cotas raciais destinadas a candidatos(as) negros(as) instituídas pela Lei nº 12.9990/2014.