A maneira tradicional que psicólogos extraem os traços humanos – baseados nos cinco traços de personalidade do modelo BigFive – é geralmente por meio de instrumentos de mensuração de personalidade, como por exemplo, os testes psicológicos também chamados de inventários.
Segundo Pasquali (2001) um teste psicológico pode ser definido como um conjunto de tarefas determinadas antecipadamente, que um indivíduo precisa executar em uma situação normalmente artificializada ou sistematizada, tendo seu comportamento observado, descrito e julgado, sendo que essa descrição geralmente é feita utilizando-se números.
Os inventários apoiados em estudos empíricos são capazes de descrever as diferenças psicológicas entre as pessoas (NUNES, 2012). Como referido anteriormente, a abordagem dos traços que consiste em identificar características que melhor descrevem uma pessoa e quanto elas diferem das outras, influenciou o desenvolvimento de inventários para inferir a personalidade. Dessa maneira, existem vários testes psicológicos baseados no modelo BigFive: TIPI (Ten-Item Personality Inventory) (GOSLING et al., 2003); FFPI (Five Factor Personality Inventory) (HENDRIKS, 1997); ); NEO-IPIP 120 (Neo-International Personality
Item Pool) (JOHNSON, 2014); BFQ (Big Five Questionnaire) (CAPRARA, et al., 1993); NEO-PI-R (Revised NEO Personality Inventory) (MCCRAE; COSTA, 1999); NEO-IPIP 300 (Neo-International Personality Item Pool) (JOHNSON, 2000); GPI (Global Personality Inventory) (SCHIMIT et al., 2002); dentre outros.
Para cada um dos inventários citados acima, as quantidades de questões são diferentes entre si. A quantidade de perguntas acaba influenciando a precisão das características mensuradas, isto é, quanto maior a quantidade de itens a serem avaliados, mais precisas serão as extrações do traço. Todavia, cada um dos instrumentos possuem particularidades e influências na metodologia de extração da personalidade. Para elucidar o tema, a Tabela 2.4 apresenta o número de questões relacionadas a cada inventário citado.
Tabela 2.4: Quantidade de questões dos inventários baseados no modelo BigFive.
Inventário Número de Questões
TIPI (Ten-Item Personality Inventory) 10
FFPI (Five Factor Personality Inventory) 100
NEO-IPIP 120 (Neo-International Personality Item Pool) 120
BFQ (Big Five Questionnaire) 132
NEO-PI-R (Revised NEO Personality Inventory) 240
NEO-IPIP 300(Neo-International Personality Item Pool) 300
GPI (Global Personality Inventory) 504
Destaca-se com maior número de questões o inventário GPI (Global Personality Inventory). De acordo com DeRaad e Perugini (2002) o GPI é o maior inventário de personalidade baseado no modelo BigFive, contemplando 504 itens e categorizando 32 facetas de personalidade. Entretanto, a aplicação desse tipo de questionário em um ambiente computacional muitas vezes se torna inviável, devido ao grande número de questões a serem preenchidas pelo usuário e o tempo necessário para o preenchimento, o que pode levar a desistência da conclusão do teste, deixando o processo de avaliação do comportamento vulnerável.
Em decorrência disso, uma alternativa encontrada pelos pesquisadores (NUNES; TELES; DE SOUZA, 2013; QIU et al., 2012) que utilizam o preenchimento de inventários de maneira computacional e online, é a utilização de inventários com menos questões sem perder
a precisão nas representações dos traços de personalidade, como por exemplo NEO-IPIP 300 (Neo-International Personality Item Pool).
O inventário NEO-IPIP 300 foi criado e validado por Johnson (2000), com o objetivo de gerar uma versão gratuita do inventário Neo Personality Inventory (NEO-PI-R), o qual é descrito como um dos inventários comerciais mais robustos, conhecidos e validados no âmbito científico (JOHNSON, 2000). As questões do NEO-IPIP 300 estão divididas uniformemente entre cincos fatores do BigFive, cada fator é representado por um conjunto de 60 perguntas, totalizando 300 questões. Ainda, para cada fator são fornecidas seis facetas de personalidade, que representam dez questões para cada faceta. Todas as perguntas do NEO- IPIP 300 estão pontuadas em uma escala numérica de 1 a 5, que é associada à resposta do usuário. A Tabela 2.5, ilustra uma amostra de questões do inventário NEO-IPIP 300 e a relação com os fatores.
Tabela 2.5: Questões do inventário NEO-IPIP 300 baseados no modelo BigFive, adaptado de (NUNES, 2008). Número da Questão Fator do BigFive1 Faceta Questão
1 N1 Ansiedade Preocupo-me com as coisas
2 E1 Amigabilidade Faço amigos facilmente
3 A1 Imaginação Tenho uma imaginação vívida
4 S1 Confiança Confio nos outros
5 R1 Auto-eficácia Completo tarefas com sucesso
6 N2 Raiva Fico com raiva facilmente
7 E2 Gregarismo Adoro festas com muitas pessoas
8 A2 Interesses artísticos Acredito na importância da arte
9 S2 Moralidade Nunca sonegaria impostos
10 R2 Ordem Gosto de ordem
1 Dimensões do BigFive (N = Neuroticismo; E = Extroversão; S = Socialização; R = Realização;
Recentemente, Johnson (2014) desenvolveu uma nova versão do NEO-IPIP 300 com exatamente as mesmas características do original (30 facetas), mas de forma mais eficiente, com menos itens no questionário, cerca de 120 questões, sendo intitulado de NEO-IPIP 120. Segundo o autor, no inventário NEO-IPIP contendo 300 questões, a maioria das pessoas
demora entre 20 a 40 minutos para a conclusão do questionário, para a nova versão de 120 questões o tempo de preenchimento é de 10 a 20 minutos.
A curta versão do NEO-IPIP fornece uma alternativa para as pessoas que não possuem tempo para concluir o inventário original. Embora a versão mais longa possua maior confiabilidade, por questões óbvias em relação ao tamanho do questionário, a versão curta, segundo Johnson (2014), atende aos padrões profissionais de confiabilidade e possui segurança de medição aceitável.
O modelo Big Five nos últimos anos tem sido um amplo suporte no âmbito científico, demonstrando que método tem replicabilidade a partir de diferentes sistemas teóricos, culturas e línguas conforme apresentado na pesquisa de (BARRICK et al., 2001). Para McCrae e Costa (MCCRAE; COSTA, 1999) a generalização da estrutura dos Cinco Fatores é uma classificação muito adequada e frequentemente confiável, ainda que não haja uma concordância universal.
Diante disto, a comunidade científica da área da Computação Afetiva (ramo da Inteligência Artificial) tem utilizado métodos e teorias da personalidade para que máquinas e sistemas computacionais reconheçam e classifiquem a personalidade de pessoas, visto que o uso do computador para comunicação e interação entre os indivíduos têm sido intensos nos últimos anos. Na próxima seção serão aduzidos os grandes diferenciais da área para tal inferência.