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INVESTIGAÇÃO ENTRE PROFESSORE E O TRABALHO

Tardif e Lessard (2005) abordam o trabalho docente como uma atividade profissional influenciada pelas interações humanas. Diferentemente do trabalho com e/ou em máquinas, a docência requer o desenvolvimento de competências e habilidades interativas junto a seres humanos. Estas relações, por sua vez, são constituídas por valores, visões de mundo, interações com o saber e atitudes contribuintes ou dificultadoras do trabalho.

Logo, a relação entre quem produz e o que é produzido não pode ser facil- mente compreendida, e muito menos expressa no âmbito do trabalho educa- cional. Tanto quem trabalha (professores) como quem é trabalhado (alunos) apresentam similitudes, tais como: subjetividades, interesses, motivações e valores. Essa dimensão interativa acaba por ser elemento marcante da natureza externa e interna dos trabalhadores, que laboram em uma dimensão imaterial da atividade produtiva. Estsa se apresenta enquanto “ofício do cuidado”. Portanto, a concretização do trabalho de cunho imaterial apresenta características dis- tintas em relação ao material, já que, ao fim da atividade, o sujeito-trabalhador não contempla visualmente uma coisa. Sua finalidade é o aperfeiçoamento de sujeitos-aprendizes no que se refere ao campo educativo, contribuindo também para seu próprio amadurecimento e do outro, ambas as realidades progressiva e dialeticamente articuladas.

Dubet (1997) apresenta algumas reflexões relevantes sobre o trabalho na educação básica, mais especificamente no que tange ao ensino voltado a ado- lescentes. Provocado por uma docente, participante em suas pesquisas sobre o trabalho em sala de aula, acaba por estimular-se a assumir as aulas de his- tória e geografia em uma instituição escolar periférica, de modalidade básica, na França.

A primeira reflexão a que chega o autor francês é a limitação do que ele denomina perspectiva de pesquisa baseada em uma observação participante. Com pouco tempo de trabalho na escola, já estava completamente envolvido – do ponto de vista emocional – com a turma. Demonstrando de modo cabal as

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limitações de seus registros “neutros” sobre o cotidiano de seu trabalho, mesmo tendo feito, habitualmente, anotações longas em seu caderno de campo.

A partir da vivência como docente de uma turma de adolescentes, matricu- lados no segundo ano colegial, o autor elenca os principais problemas das escolas francesas: os alunos empreendem resistência ao trabalho dos professores por não estarem dispostos naturalmente à atividade da aprendizagem. Assim, uma das primeiras dificuldades enfrentadas pelos professores é a pouca disposição do educando em querer aprender. O professor deve ter como tática, para desen- volver seu trabalho, ocupar os alunos com tarefas escolares. Abandonando, dentro dessa perspectiva, metodologias de ensino-aprendizagem baseadas em aulas expositivas e com pouca participação efetiva dos adolescentes.

No campo disciplinar, com objetivo de negociar um clima organizacional favorável ao ensino, o docente deve dar, segundo Dubet, um “golpe de estado”, pois os estudantes não costumam respeitar professores sem capacidade de impor regras de convívio. Os alunos são sensíveis à autoridade docente. Portanto, em sua reflexão sobre a experiência com o magistério, o autor francês enfatiza a necessidade de se fomentar, inicialmente, um “clima de receio” na relação com os alunos.

No cotejamento entre sua experiência docente e as entrevistas com profes- sores sobre a realidade escolar, o autor francês acabou por se convencer que os relatos dos entrevistados sobre o cotidiano profissional eram reais. Foi per- ceptível, para este autor, a desregulação da relação escolar. Esta realidade inter- penetra-se, segundo o autor, nas seguintes constatações que podemos acompa- nhar abaixo.

A escola não tem conseguido transformar os adolescentes em alunos. Expressando essa realidade, uma dificuldade dos docentes e das equipes peda- gógicas em relacionarem-se com a heterogeneidade dos alunos. Estes se dis- tinguem quanto ao desempenho escolar, aos anseios, aos valores, bem como frente aos momentos existenciais pouco afeitos às regras. Portanto, a escola se apresenta, para o aluno adolescente, como um mundo hostil.

Em outra dimensão, os programas curriculares escolares se apresentam notadamente idealizados, uma vez que estes conteúdos não são construídos

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dentro de uma dinâmica realista. Ademais, a escola encontra-se, também, des- conectada no que se refere aos conhecimentos necessários e reais que estes jovens buscam. Esta situação contribui para o que este autor denomina de ficcionalização do julgamento escolar, visto que mais do que ensinar para alunos reais, educa tendo como parâmetro uma visão idealista dos alunos, dos currículos e da própria adolescência. A escola se apresenta, então, como uma agência promotora de violências pedagógicas individuais, já que deveria ensinar menos coisas de forma mais aprofundada.

Outra questão abordada por Dubet refere-se à temática da cidadania escolar, pouco valorizada no cotidiano dos estabelecimentos. Essa situação aprofunda as desigualdades entre docentes e alunos ao não instituir direitos e deveres para todos os agentes escolares. A ausência de cidadania nas escolas acabar por produzir, nos adolescentes da periferia, uma descrença no diploma e no próprio processo educativo. Os jovens percebem que os professores estimulam as desi- gualdades nos acessos aos direitos e até mesmo no cumprimento de deveres.

Ademais, o autor apresenta outras dificuldades vivenciadas no que intitula como a desregulação escolar: os professores não são estimulados a ganhar por produtividade, mas a partir de uma carreira biológica, expressa no aumento do salário em decorrência do “passar” da idade. Por outro lado, os docentes não são membros comunitários dos territórios escolares em que atuam, sendo escolhidos, na maior parte das vezes, por meio de sorteios eletrônicos. Dubet argumenta que a situação ideal seria estimular a atuação docente dentro de um território que fosse fruto de uma escolha consciente.

Por fim, o autor enfatiza que a escola secundária deveria adotar o modelo da escola voltada para a infância, já que nesta se encontram profissionais que possuem uma formação profissional adequada à faixa etária. Nesse sentido, o docente deveria compreender o efeito professor no sucesso escolar. Para Dubet, o professor pigmaleão é aquele que, afastado de visões idealistas destes edu- candos, consegue desenvolver seu ofício com base na perspectiva de progressão dos alunos. Estes, por sua vez, confiam em seu potencial. Por fim, os professores desenvolveriam suas práticas docentes inspirados numa relação escolar intera- tiva, democrática, cidadã e distante de todo tipo de violência.

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