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3. CONECTANDO GÊNERO E VIOLÊNCIA: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS OFICIAIS

3.3 Investigando, reconstruindo e classificando práticas violentas

A revisão da literatura sobre a morte de mulheres demonstrou que os estudos mais recentes focaram, principalmente, nos argumentos utilizados dentro da própria dinâmica do Tribunal do Júri. Neste projeto, por outro lado, busco analisar as investigações policiais, visto que o inquérito policial aparece como uma peça fundamental do processo de incriminação no Brasil, sendo onipresente ao longo do processo (MISSE, 2011). Sua onipresença advém da “força persuasiva transcrita no inquérito” (MISSE, 2011, p. 24). Essa força do inquérito21, nos termos de Misse (2010), é uma peculiaridade brasileira:

No Brasil, e apenas no Brasil, encontramos uma solução não somente mista, mas ambivalente na persecução criminal: cabe à Polícia a investigação preliminar como também o aprofundamento das investigações e um relatório juridicamente orientado do resultado dessas investigações. Esse relatório, chamado “inquérito policial”, não deve ser confundido com a mera investigação policial, pois inclui depoimentos transcritos em cartório, além das necessárias peças periciais. É, assim, a “forma jurídica” que a investigação policial deve adquirir para chegar às demais instâncias judiciárias. É, portanto, uma forma de “instrução criminal”. (2010, p. 35 – 36)

21 O fluxo do sistema de justiça criminal no Brasil possui outras peculiaridades que, conforme estudos, demonstram como a denúncia vai sendo incorporada no processo de forma longitudinal cf. COELHO, 1986; VARGAS, 2004, MISSE; VARGAS, 2009; RIBEIRO, 2009. Ainda, também se discute a movimentação cartorial de um processo entre delegacias e judiciário no livro “O Inquérito Policial no Brasil: uma pesquisa empírica”, organizado por Michel Misse (2010).

55 Por essa perspectiva, compreende–se que o inquérito policial na conjuntura brasileira é regido por uma ideia da verdade real que deve traduzir o fato real em fato jurídico (KANT DE LIMA, 2014). Ocorre que essa tradução é determinada pelo conhecimento de senso comum dos policiais. Ainda que se tenha uma classificação dos crimes – o Código Penal, por exemplo –, essa classificação não existe fora do processo social que a aplica, que a interpreta, que a contextualiza ou que a despreza (MISSE, 2010b). Assim, práticas violentas tipificadas como crime – ou, neste trabalho, feminicídios – são definidas primeiramente no plano do inquérito policial.

O conhecimento produzido sobre as polícias parte, muitas vezes, de um lugar predeterminado. Lugar esse descrito como pendular, no qual as polícias ora são produtoras de violência institucional, ora garantidoras de direitos humanos (MUNIZ; CARUS; FREITAS, 2018, p. 154). Essa perspectiva do pêndulo, ainda que não seja a questão central desta pesquisa, é relevante por evidenciar as ambiguidades e as contradições das atividades policiais. A análise dessas atividades permite aferir alguns padrões.

A partir da microssociologia e os estudos organizacionais, Antônio Luiz Paixão (1982), buscou entender a relação entre as regras e as práticas policiais e suas articulações. O autor argumenta que há, na prática policial, a “lógica em uso” em que normas legais são esquecidas em detrimento de tipificações cristalizadas no entendimento dos agentes, culminando na relação formal de coexistência entre normas legais e tipificações próprias dos agentes.

No trabalho realizado por Vargas (1997), a autora analisou a dinâmica realizada pela polícia de interpretar situações e, com isso, categorizar e descrever na forma de narrativa jurídica os casos de crimes sexuais. Em tal estudo, a autora percebeu que a narrativa jurídica era perpassada pelo conhecimento de senso comum dos policiais. Nos casos em que inexistia relação das partes (réu e vítima não se conheciam antes do fato), o aparato policial atribuía maior credibilidade à narrativa da vítima por exemplo (p. 131). Nos casos de relações de parentesco, a produção da verdade era mais facilmente reconhecida como algo dependente das versões e mais negociável (p. 132).

O trabalho etnográfico de Vieira (2007) também lidou com a construção de categorias jurídicas nos atendimentos policiais e da elaboração de seus registros, na delegacia da mulher e, posteriormente, em um processo jurídico. A autora concluiu que foi possível dimensionar o processo criativo em torno das tipificações penais e das partes implicadas nas queixas registradas na Delegacia, especialmente em relação ao papel desempenhado pelas agentes policiais (p. 169). Não obstante, a autora aponta que a questão racial pode ser usada como um

56 qualificativo para a violência, revelando que não apenas questões relacionadas ao fato ou ao que está previsto em lei são utilizadas na construção das narrativas jurídicas.

Em trabalho etnográfico mais recente que trata sobre as linhas de investigação policial nos casos de homicídio, Medeiros (2016) aponta que os agentes se empreendem moralmente na investigação de um homicídio, sendo o inquérito policial o produto final desse empenho. Neste sentido, ainda que o trabalho policial possa ser compreendido dentro da lógica burocrática da repetição, ele exige de seus agentes uma significação – um sentido dado por trás do ato de matar – para que os fatos possam ser investigados.

Eilbaum (2010) aponta, no seu trabalho etnográfico sobre investigação policial, que o depoimento oral e presencial das testemunhas vai se compondo por meio da combinação do relato e das perguntas que vão direcionando-o para a hipótese dos agentes sobre o fato violento (p. 176). Dessa forma, a escolha sobre quais pessoas devem depor, a condução desses depoimentos, e as próprias perguntas realizadas possibilitam reconstruir as representações que estão sendo utilizadas pelos policiais.

Além dessas reflexões sobre o trabalho investigativo, os trabalhos etnográficos nesses espaços propõem importantes reflexões sobre a não homogeneidade das organizações policiais e de seus agentes estatais, suas práticas e percepções (PAIXÃO, 1982; VARGAS; RODRIGUES, 2011). Primeiro, aponta-se a disjunção entre a atividade policial e a estrutura burocrática na medida em que não há uma sistematização racional entre o trabalho policial e o trabalho do órgão acusador. Da mesma forma, não há uma uniformidade no próprio trabalho policial, sendo que trabalho realizado por um agente pode diferir do realizado por seu companheiro de trabalho.

Ainda, quando se fala do trabalho policial, discute-se as delegacias da mulher no contexto brasileiro, visto sua especialização e singularidade. As delegacias especializadas em defesa dos direitos das mulheres foram resultado do movimento feminista brasileiro dos anos 80. Os estudos que observaram as dinâmicas de funcionamento dessas delegacias desvendaram que há uma tensão entre as categorias de “atividades policiais” e de “atividades extra-policiais” (MACHADO, 2002). Muitas mulheres recorrem ao atendimento nesses espaços com demandas que não são atendidas por uma visão restrita do conceito de violência, resultando em um descompasso entre a vida real e o saber jurídico (STUKER, 2016). Esse desafio de demandas resulta em uma dinâmica específica das delegacias especializadas, exigindo de seus agentes mais criatividade (DEBERT; GREGORI, 2008).

57 Diante desse cenário, os policiais ficam entre cumprir estritamente atribuições “típicas” do exercício policial e a iminência de um atendimento não estritamente policial; um atendimento que demanda uma atividade de escuta, para a qual não se sentem preparados (BRANDÃO, 2006). Há como uma ideia de trabalho social que se realiza na Delegacia da Mulher, visto que os profissionais reconhecem o trabalho de prevenção, de orientação e de divulgação dos direitos das mulheres ali realizado (VIEIRA, 2007). Entretanto, se o atendimento às mulheres vítimas de violência é considerado relevante por uma perspectiva social, dentro da corporação policial esse atendimento é visto com menos prestígio que as outras atividades policiais (MACHADO, 2002).

Há uma diminuição das atividades realizadas nessas delegacias, pois, na maioria das vezes, não envolvem atividades de investigação e de intervenção direta armada. Não obstante essa diminuição, a própria preparação dos profissionais entra em tensão com a dinâmica da delegacia da mulher. A lógica investigativa, considerada essencial ao trabalho policial, é baseada na busca pela distinção entre o falso e o verdadeiro; isto é, pela busca de uma verdade real (BRANDÃO, 2006). Nesse sentido, os profissionais precisam aprender uma nova lógica de atendimento diante das demandas que as mulheres trazem a esses espaços.

Importa apontar que não existe um modelo único de delegacia da mulher no país22, havendo uma razoável variação quanto ao tipo de serviços; o público atendido; e os tipos de crime definidos como sendo de sua competência (PASINATO; SANTOS, 2008). Assim como os primeiros estudos sobre gênero e sistema de justiça datados da década de 1980 ocorreram nos espaços das Delegacias, eu retomo esse espaço como local privilegiado para a observação de representações generificadas da violência.

O que esses primeiros estudos revelaram é a necessidade de compreender os diferentes usos e significados das normas jurídicas imbricados nos processos de valoração de práticas violentas (DEBERT; GREGORI, 2008, p. 167). Ainda, esses estudos revelaram como investigações policiais são altamente moldadas pelos agentes policiais, o que retoma a centralidade de entender como os agentes lidaram com a nova categoria e quais as divergências que eles possuem sobre ela e seu poder simbólico (LOVEMAN, 2005). O que se depreende, portanto, é que, diante de um fato caracterizado como criminoso, o aparato policial precisa interpretá-lo e categorizá-lo, tornando–o uma narrativa de segunda mão a partir de ideias e de

22 No Estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, prevalece a competência das delegacias da mulher em detrimento das delegacias de homicídios, onde houver, para a apuração do crime de feminicídio conforme disposto no Decreto n 53.331 de Dezembro de 2016 (Anexo A). Nesse caso, é possível apontar uma primeira questão para a própria pesquisa que é o deslocamento de competência da investigação. Isso será melhor discutido no próximo capítulo.

58 valores familiares. Com isso, a abordagem com o marco teórico das representações sociais permite acessar essas ideias e esses valores utilizados pelo aparato policial em seu trabalho – investigar, reconstruir e classificar – de tornar oficialmente uma prática violenta em um feminicídio.