CAPÍTULO 2: A INVESTIGAÇÃO-AÇÃO PARTICIPATIVA COMO MEIO DE ESTUDAR E QUEBRAR
2.2 Investigar para Conhecer, Pensar e Transformar a Realidade
A produção de conhecimento “implica a participação activa nas práticas das
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(Silva, 2007, p. 235). É neste processo de permanente aprendizagem, de partilha e de engajamento, que as propostas de mudanças surgem, redefinindo paradigmas. Os cidadãos, autores, protagonistas e construtores do seu trajeto, são agentes essenciais para a condução de investigações, estudos e transformações sociais e culturais (Bogdan & Biklen, 2013).
O processo de construção de conhecimento e de mudança relaciona-se não só com a participação ativa e consciente dos sujeitos, mas simultaneamente com a colaboração e a generosidade destes, com a capacidade de refletir e questionar sobre a realidade, com a partilha de ideias, de propostas e soluções criativas. O empoderamento dos grupos encabeça “um processo de capacitação das pessoas e comunidades” (Silva, 2007, p.236), que fortalece e consente o seu direito de participação e de tomarem decisões sobre assuntos relevantes nas suas vidas.
“A capacitação implica o desenvolvimento consciente de uma atitude crítica e argumentativa das pessoas e comunidades, de uma mudança de perspectivas, através de uma aprendizagem que lhes permita analisar, compreender e modificar-se a si e ao mundo que as rodeia.” (Silva, 2007, p. 236).
É, e já Paulo Freire o dizia, no processo de conscientização da realidades e dos seus problemas, que as pessoas compreendem que têm valor e são competentes para desencadear ações capazes de ultrapassar e romper com os problemas que as rodeiam. Participando em união e comprometimento, as populações ganham força, poder, voz, visibilidade e tornam os seus problemas e as suas realidades públicas, denunciando-as e renunciando-as. E ao descortinar este quadro, constatamos que as aprendizagens não se fazem apenas nas Escolas e/ou outras Instituições, mas nas ruas junto dos pares, nos locais de luta popular, nos espaços públicos, nas conversas, nos debates, nos movimentos sociais e políticos.
Assim, enquanto instrumento incitador e produtor de mudanças, a investigação- ação participativa permite estimular as potencialidades dos indivíduos enquanto pensadores, criativos e promotores de iniciativas e dinâmicas coletivas de desbloqueio e
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resistência. Não há progresso nem desenvolvimento humano e comunitário sem políticas sociais justas, que protejam os direitos humanos e a participação ativa dos cidadãos.
O diálogo aberto, o contributo e o envolvimento dos vários grupos populacionais nas sociedades, facilitam o reforço dos laços sociais e identitários e o alargamento do conhecimento e das consciências (Silva, 2007). Assim, estas dinâmicas sociais abrem portas para a produção coletiva – através da reflexão crítica, da observação atenta da realidade, da sua problematização e conscientização –, que gera conhecimento e, logo, competências, para o engrandecimento da cidadania, da ação e da transformação social.
As sinergias geradas na investigação colaborativa alargam horizontes para uma liberdade mais plena das populações que, para além de fortalecerem a sua expressão e autonomia, despertam para a sua capacidade de formar espontaneamente organizações autogestionadas de caráter crítico, colaborativo, solidário e emancipatório.
Todos estes processos coletivos apresentam “o potencial de capacitar os
participantes para desempenharem um papel activo na sociedade e nas suas instituições, constituindo-se num motor para o avanço social e humano, consolidando e enriquecendo a cidadania” (Silva, 2007, p. 237).
A observação e o estudo da realidade social com a finalidade de identificar e compreender as suas problemáticas, levantam interrogações/questões, que por sua vez podem levar a uma rutura com o paradigma vigente e daí a uma mudança. A ação para a mudança presume a implementação de uma nova política, novos projetos, novas expetativas, ligações a trocas de papéis. Para facilitar todo este ciclo, é necessária uma persistência e capacidade criativa da equipa de investigação (Pardal & Lopes, 2011).
A investigação orientada para a ação é, portanto, uma espiral cíclica, que envolve a geração de possibilidade de mudança, que, por sua vez, são implementadas, avaliadas e que dão lugar ao início de um novo ciclo.
A investigação-ação participativa é uma dialética entre os factos objetivos e os factos subjetivos, que resultam numa constante interatividade entre os investigadores participantes e o contexto. O estudo e a pesquisa enriquecem à medida que se constrói informação e se produz mudança, valorizando sempre a experiência dos atores sociais, neste caso, as vivências das crianças.
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Hall (2001), um dos principais autores envolvidos no percurso de consolidação da metodologia investigação-ação, afirma que ela foi “em grande parte teorizada e
disseminada a partir de uma base de movimentos sociais ou da sociedade civil.” (p. 176). O
que confirma a necessidade de novos planos teóricos capazes de articular os aspetos epistemológicos com a prática, de modo a incorporar a causa social, em parceria e proximidade com os sujeitos, encarando a realidade como objeto de análise e de ação, objetivando a sua transformação.
A mudança para uma vida melhor e mais justa para as pessoas, pressupõe uma rutura com crenças, doutrinas e paradigmas antigos, responsáveis pelas debilidades e problemáticas sociais. A necessidade da perceção, do entendimento e da adaptação ao novo modelo é, portanto, fundamental para que os atores comprometidos com a mudança tenham noção do que ela implica, uma vez que também serão eles que terão de viver e lidar com ela (Sanches, 2005).
A identificação de um problema presume uma observação crítica da realidade e uma procura de novos modelos através de dinâmicas e práticas multidisciplinares que envolvam um processo educativo e transformador. A avaliação permanente destes processos é essencial para o enquadramento de novas perspetivas, eventuais ajustes ao ambiente, novos questionamentos e produção de conhecimentos (Sanches, 2005). Observar, questionar, compreender, propor novas práticas, reformular, intervir/atuar, avaliar, são etapas que integram percursos de vivência e aprendizagem social, que dão caráter e sentido aos métodos desenvolvidos e implementados.
O caráter crítico e emancipatório da investigação-ação procura facilitar a execução de soluções transformadoras do próprio sistema, de modo a promover o aperfeiçoamento dos procedimentos e das ações (Sanches, 2005).
Do ponto de vista metodológico, a investigação-ação participativa “é considerada
como um espaço intersubjectivo, para onde confluem múltiplas formas práticas, conceptuais, imaginárias e empáticas de conhecimento, através de processos partilhados de produção de conhecimento, entre investigadores e investigados” (Soares, 2006, p. 29).
De uma forma holística, o método procura contribuir para a criação de vínculos, para a interlocução livre, a visibilidade dos sujeitos, a intervenção no terreno e a tradução de
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códigos linguísticos concetuais, na busca da compreensão da realidade e de possíveis soluções.
As metodologias qualitativas “privilegiam, de modo geral, a análise de
microprocessos, através do estudo das ações sociais individuais e grupais” (Martins, 2004,
p. 292). Deparando-se com desafios constantes e inesperados, neste tipo de metodologias, o investigador social, adotando uma postura flexível e dinâmica, preocupa-se primeiramente por apreender e compreender a realidade social de uma forma mais próxima, completa e imparcial possível, respeitando sempre os valores, a ética e a dignidade de todos os envolvidos. Só desta forma é possível criar ciência, gerar conhecimento, abrir novos caminhos para o bem-estar coletivo e contribuir para um mundo mais consciente, humano e livre.