V. DO PETRÓLEO AO ETANOL
1. Potencialidades do setor canavieiro na região
Apesar das dificuldades do setor canavieiro em Campos dos Goytacazes mencionadas até agora, sobretudo nos capítulos III e IV, esse município possui algumas potencialidades em relação à referida atividade econômica, que devem ser consideradas, pois, se o Brasil pretende considerar o etanol, a partir de cana, como um produto energético de importância estratégica para o desenvolvimento do país, é importante que esta atividade esteja localizada em vários pólos do território nacional.
A região, devido à sua longa trajetória com experiência em atividades produtivas da cadeia da cana-de-açúcar, já possui algumas estruturas propícias ao desenvolvimento de um pólo produtor de etanol, ainda que, com algumas dificuldades conforme explicitado
107 Companhia Açucareira Paraíso LTDA, Santa Cruz Açúcar e Álcool LTDA e Usina Sapucaia SA, em Campos dos Goytacazes; Companhia Açucareira Usina Barcelos LTDA, em São João da Barra; Usina Pureza Indústria e Comércio, em São Fidélis. Ver mapa sobre a relação de usinas de 1970 a 2005 em anexo no final do texto.
108 A HC-Sucroquímica está acoplada a Usina Paraíso e pertence a mesma família: Hayem Coutinho.
anteriormente, e outros atributos com potencial para serem desenvolvidos. Essas “bases”, que serão apresentadas a seguir, se nelas forem investidos recursos de forma planejada e ordenada, podem transformar o norte fluminense em uma região potencialmente apta a atender eficazmente demandas da produção de etanol a partir de cana.
No que se refere à Região Norte Fluminense, da qual costuma-se dizer que tem
“vocação109 natural” para a monocultura da cana-de-açúcar, grande parte de sua área agricultável é ocupada com o plantio desta gramínea, que demarca grande presença na história nacional e principalmente na história do Município.
Segundo dados da Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (ASFLUCAN), o setor sucroalcooleiro movimenta cerca de R$ 300 milhões por ano na região Norte Fluminense110. Esse dado tende a aumentar, uma vez que nos últimos anos tem se investido mais nessa área.
De um modo geral, várias seriam as “vantagens” que Campos-RJ possui em relação à produção de derivados de cana-de-açúcar que encontram-se destacadas a seguir.
A primeira, diz respeito à trajetória do próprio Município, que possui uma experiência de mais de 400 anos no cultivo deste gênero agrícola e na produção de seus derivados. Esse lugar é freqüentemente apontado como terra “vocacionada”111, como se fosse “naturalmente”
propício à monocultura da cana-de-açúcar. Questão que, se é bastante discutível do ponto de vista das Ciências Sociais, por um lado, visto que o espaço não é senão ele próprio produzido socialmente pelo homem, ela nos diz algo sobre o local a ser estudado. Dessa forma, vale a pena destacar o termo “vocação natural”, mesmo não estando de acordo que um dado espaço social possa possuir tal qualificação para esta ou aquela atividade, para apontar a tamanha identificação desta cultura com a região em destaque.
A segunda “vantagem” de Campos-RJ em relação às demais regiões canavieiras, refere-se à sua localização estratégica para escoamento da produção, ou seja, possui áreas produtoras localizadas próximas a dois Portos: o do Espírito Santo (Tubarão) e o Porto do Açu, esse último, devido ao fato de que ainda encontra-se em construção em São João da
109 Sobre a “opinião” de que a Região Norte Fluminense teria uma vocação natural para atividades agrícolas, sobretudo a produção monocultora da cana-de-açúcar, consultar Pedro Paulo Barbosa (2003). Esse autor, a partir de conceitos elaborados pelo geógrafo Milton Santos, apresenta uma crítica à visão de muitos autores que
“inadvertidamente insistem em chamar de ‘vocação regional’, termo que ‘naturaliza’ os elementos de uma formação sócioespacial, como se o espaço, ele próprio, não fosse produzido pelos homens” (BARBOSA, 2003:
21).
110 Jornal Folha da Manhã, Campos-RJ, quarta-feira, 12 de maio de 2004.
111 Cf. “Royalties para moldar o futuro: Programa usou parte do dinheiro do petróleo para impulsionar a vocação sucroalcooleira da região”. Disponível em:
<http://odia.terra.com.br/especial/comercial/seminario_etanol07/noticia8.asp>. Acesso em: 24 Fev 2008.
Barra-RJ, município vizinho a Campos, representa mais uma “possibilidade” do que uma
“vantagem” de fato para a região.
Há, ainda, possibilidades de expansão da atividade canavieira caso seja instalado na Região o Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (PEPRO), comentado anteriormente, que visa incentivar o produtor rural dando-lhe um garantia a mais em sua produção.
E, por sua vez, conforme matéria publicada no Jornal Globo Online, o Governo do Estado do Rio de Janeiro pretende estimular o crescimento da produção de cana de açúcar, oferecendo crédito rural e investindo em obras que visem a desobstrução dos canais de drenagens para evitar os alagamentos e voltar a plantar 200 mil hectares112 de cana conforme o era nos anos de apogeu da cana que foi a década de 1970113.
Destacam-se também outros investimentos neste setor como o planejamento “Decisão Rio para 2008-2010” elaborado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, a FIRJAN. Segundo este documento os grupos Alcana Agroenergética e Elcana Agroenergética, incentivados pelo aumento da demanda de biocombustíveis, serão investidos primeiramente 300 (trezentos) milhões de reais e posteriormente 180 (cento e oitenta) milhões de reais em atividade referentes ao plantio de cana-de-açúcar e também em projetos industriais voltados para a produção de álcool114 (SILVA NETO et al., 2008).
Obviamente, trata-se aqui, nesta seção, de apenas apontamentos sobre as potencialidades que a região possui em relação a produção de cana-de-açúcar e seus derivados e não propriamente da indicação de que esta encontra-se em uma situação de vantagem em comparação à outras regiões do país que também promovem esta atividade produtiva. Pelo contrário, a economia canavieira de Campos e região apresenta uma série de ineficiências, conforme destacado em capítulos anteriores, que precisam ser superadas caso se almeje que sua produção de etanol, por exemplo, que não chega a suprir 10% da demanda do próprio Estado do Rio de Janeiro, possa atingir patamares que possibilitem falar em exportação.
De todas as medidas mencionadas, a ação prioritária é o investimentos nas lavouras canavieiras de forma a aumentar a oferta de matéria-prima, a cana-de-açúcar, conforme o destaca Hamilton Jorge de Azevedo (2004). Para este autor, no que se refere a dinamização
112 Isso equivaleria a praticamente um aumento de 90% da produção canavieira do Estado do Rio.
113 Ver declarações do secretário estadual de Agricultura, Christino Áureo na matéria “Governo do Rio quer voltar a apogeu da produção de cana”, In: Jornal O Globo Online, 05 de novembro de 2007.
114 Segundo a FIRJAN os investimentos em plantações canavieiras já haviam sido iniciados em 2005 e continuarão até 2009. No segundo semestre de 2009 será dado início a implementação de uma Usina para a produção de álcool a partir de cana-de-açúcar, projeto que está programado para ser concluído em 2011 quando começará então a operar. Cf. www.firjan.org.br/decisionrio.asp. Acesso em 17 de abril de 2008.
do setor sucroalcooleiro campista a “forma mais rápida e racional de fazê-lo seria a implantação de um grande projeto de irrigação, tendo em vista a natural insuficiência e a má distribuição da precipitação pluviométrica da Região Norte Fluminense, apontada como a principal causa da baixa produtividade” (AZEVEDO, 2004: 166).
Feitas essas considerações sobre as potencialidades da produção de derivados de cana-de-açúcar no município de Campos dos Goytacazes-RJ, expõe-se a seguir uma discussão mais ampla sobre a produção canavieira inserida em um cenário global.