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65 ipea boletim regional, urbano e ambiental | 14 | jun

O PAPEL DAS MUDANÇAS RESIDENCIAIS NA EVOLUÇÃO DOS PERFIS SOCIODEMOGRÁFICOS

65 ipea boletim regional, urbano e ambiental | 14 | jun

da cidade central habita casas maiores do que aqueles que se alojam na cidade e, em geral, é proprietária da nova residência. Pelo contrário, as pessoas que iniciam um movimento no resto da área metropolitana em direção ao centro da cidade mudam-se para moradias que são menores do que as da população que permanece no entorno metropolitano e possuem uma maior propensão ao pagamento de aluguel. Fica evidente que há um efeito das características diversas do mercado de moradias em cada uma dessas áreas, mas é necessário destacar que o crescimento do aluguel nos espaços centrais tem ocorrido devido à forte pressão exercida sobre o mercado habitacional durante os últimos anos.

Vejamos alguns exemplos ilustrativos: 80% dos adultos que se deslocam para fora das cidades centrais de Barcelona, Madri e Sevilha residem em moradias de sua pro- priedade no local de destino. Em Bilbao e Sevilha, esse percentual atinge cerca de 90%. Contudo, somente 60% dos adultos que se deslocam dentro da cidade central são proprietários de sua nova residência em Barcelona e Madri; no caso de outras cidades, esse percentual é de 70%. Apesar dessas diferenças, a propriedade é, todavia, a estratégia residencial mais comum para os que mudam de moradia dentro da cidade central. Contudo, é certo que, para uma parte considerável dessas pessoas, o aluguel aparece como alternativa para satisfazer sua preferência local. Os recém-chegados às cidades centrais reproduzem e, em muitos casos intensificam, os comportamentos da população local.

As diferenças no tamanho da moradia são ainda mais intensas. Os adultos que saem do

centro da cidade residem em moradias com uma superfície média de 110 m2 em Barcelona,

Sevilha e Valência, e 130 m2 em Madri. Em alguns casos, as moradias são ainda maiores

do que as das pessoas que realizam um movimento no interior da área metropolitana.8

Contudo, as pessoas que se deslocam no interior do município central ou se dirigem para

o centro da cidade habitam moradias com uma área média de 75 a 85 m2.

Entretanto, a idade e o ciclo de vida têm um efeito sobre as características da nova moradia. Como é de se esperar, em todos os tipos de movimento os adultos mais jovens ocupam moradias menores e pagam aluguel com mais frequência do que os adultos de mais idade. O resto dos municípios da área metropolitana é claramente o destino dos adultos jovens procedentes das cidades centrais e que querem ser proprietários da moradia.

5 CONCLUSÕES: SELETIVIDADE MIGRATÓRIA NAS CIDADES CENTRAIS ESPANHOLAS

Os processos de seletividade residencial definem a localização definitiva das pessoas que mudam de moradia ou residência nas grandes áreas metropolitanas espanholas em função de suas características sociodemográficas. O contexto demográfico e o mercado habitacional das duas últimas décadas têm intensificado esses processos nas principais áreas metropolitanas espanholas. A impossibilidade dos núcleos centrais em adicionar novas unidades à oferta de moradias principais é uma característica comum no caso espanhol, já que seu tecido urbano satu- rou-se intensivamente em períodos anteriores. A partir de uma perspectiva demográfica, a estrutura etária da população contribuiu para o crescimento urbano experimentado nas últimas décadas. A criação de domicílios nas cidades centrais como consequência da chegada dos baby boomers à idade de emancipação residencial tem sido muito mais rápida do que a destruição de domicílios devido aos efeitos da mortalidade. Os baby boomers espanhóis

8. A cidade de Bilbao é uma exceção, já que o centro da cidade é especialmente pequeno e a primeira coroa da área metropolitana contém muitas moradias pequenas que foram construídas na década de 1960 como resultado da chegada de migrantes das zonas rurais espanholas.

cruzaram as idades adultas jovens, as de máxima mobilidade residencial, durante a década dos anos 1990 e os primeiros anos do século XXI. Como consequência do intenso aumento das taxas de mobilidade residencial na idade adulta, e em um contexto de uma notável preferência local na escolha residencial, a relação entre a oferta e a demanda no mercado imobiliário das cidades centrais tem estado em franco desequilíbrio. O cenário demográfico que as cidades centrais têm experimentado durante as últimas duas décadas é excepcional em sua história. Podemos pensar que as circunstâncias que deram lugar a essa situação não voltarão a ocorrer nas cidades espanholas porque as “gerações vazias”, nascidas na década de 1980, estão a ponto de cruzar as idades de máxima mobilidade, e isso ocorrerá em um contexto em que um número grande de domicílios irão desaparecer pelo efeito de envelhecimento do topo da pirâmide da população. Portanto, parece que os episódios de desequilíbrio entre oferta e demanda no mercado de moradias nos espaços centrais estão chegando ao fim. Somente um fluxo contínuo de pessoas procedente do exterior poderia introduzir mudanças nesse cenário a que conduz a própria estrutura da população.

Portanto, nem todos os indivíduos que realizaram uma mudança de residência nas cidades centrais puderam incluir, em seus itinerários residenciais, a permanência nesses espaços. Os resultados deste artigo sugerem que as características individuais relacionadas com a atividade socioeconômica e o nível educacional dos residentes nas principais cidades espa- nholas não explicam a intensidade da mudança residencial, mas definem seu destino final e, portanto, sua distribuição territorial. Os profissionais de alto nível e as mulheres ativas são os grupos mais propensos a permanecer no centro da cidade, enquanto os indivíduos com um nível de educação médio, os operários menos qualificados e as mulheres inativas têm maior propensão a abandonar o núcleo urbano. Entretanto, a maioria da população que têm saído da cidade central está casada ou vive em união estável na nova residência. A recusa dos que nunca se casaram e dos que não convivem com seus parceiros a abandonar as zonas centrais os leva a adotar outras estratégias residenciais que lhes permitem enfrentar o competitivo mercado habitacional das cidades centrais, como o aluguel ou a escolha de moradias menores. Contudo, as pessoas que se deslocam para fora das cidades centrais satisfazem suas preferências no que diz respeito à propriedade e ao tamanho de suas novas moradias. Portanto, nos movimentos que partem da cidade central para o resto da RM, predomina, de forma quase exclusiva, a propriedade e as moradias com áreas maiores.

A mobilidade residencial no interior da cidade não está tão determinada pelo ciclo de vida familiar, elementos que, pelo contrário, afetam intensamente os movimentos que saem da cidade central para o resto da metrópole. A dimensão individual contextualiza muitos movi- mentos na cidade central. As pessoas que se deslocam para esse lugar, além disso, tendem a ser similares àqueles indivíduos que se movem em seu interior. A atração de solteiros, divorciados e com alto nível educacional e profissionais qualificados é significativa na maioria das cidades estudadas. Contudo, é improvável que as famílias nucleares metropolitanas, os trabalhadores não qualificados e a população com baixo nível educacional dirijam-se para áreas centrais.

Esses processos de seleção são amplamente seguidos nas cinco áreas estudadas. Como consequência da menor superfície do município central e do competitivo mercado imobiliário, Barcelona é o melhor exemplo dos mecanismos de seleção expostos ao longo deste artigo. Em Madri, com um maior tamanho do município central, as implicações da centralidade diminuem. Os resultados dos modelos de regressão logística mostram que algumas variáveis não são significativas nas outras cidades estudadas devido, em grande medida,

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