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CAPÍTULO 4 – Abrindo as malas

4.3 Irene – menina-mulher

O estudo tanto de Menina Que Vem Itaiara como dos outros romances que compõem a trilogia mostra que estão aparentes as cicatrizes, as marcas doridas da infância de Irene, que terão repercussão na vida a fora da personagem. Como se sabe, experiências traumáticas e a falta de carinho vivenciadas na primeira infância podem modificar circuitos cerebrais; influem decisivamente nas conexões neuronais do cérebro da criança e no equilíbrio de neurotransmissores, causando mudanças capazes de aumentar, de modo significativo, a vulnerabilidade a transtornos psíquicos em fases posteriores da vida. Isto porque “os neurônios podem estabelecer conexões distintas quando, em certas fases do desenvolvimento, faltam estímulos para as várias regiões do córtex cerebral”91. Ao traçar o

quadro das mudanças ao longo do desenvolvimento da personagem Irene, percebi o alto grau de experiências traumáticas na infância e adolescência da personagem, como exemplificam os trechos abaixo:

90 BRAUN& BOCC, 2005, P.75 91 Ibdem, p. 76-77

99

Ter-se uma filha para nos dar essas mortes. Mais valera não ter nascido (pára, debaixo da jaqueira). Ou vale a pena estar viva, ainda comendo da banda mais que podre. Nada, mil vezes tivesse eu morrido daquele parto, quarto era bem dizer de velório, à luz indecisa da lamparina, “acende uma vela”... (CELINA, 1994, p. 26).

Reconheço, nunca foi a minha predileta. Posso afirmar que à falta de punição não foi este descalabro. Das três, a que mais apanhou. Surra de ficar lanhada, disso ela bem pode dar notícia. Ninguém nesta terra me tratará de

mãe-molenga, cabelo daquela-uma jamais alisei, era nas correada, cada coça de cipó que nem te conto (CELINA, 1994, p. 42).

A tamancada que lhe atirei em riba do olho e que por um triz não a cegava. Remorso tive, mas quando com ela me enfurecia, a modo queria dar-lhe cabo da vida [...] Por quê? Meu Deus, perante vós, neste quintal que mais parece um paraíso, de tanto verde e bonito, tão em desacordo com o inferno das nossas vidas hoje, aqui, nós dois sozinhos nesta hora de mormaço, diante da vossa luz, dizei-me: por que foi Irene a que menos amei? Por ser a mais demônia?... (CELINA, 1994, p. 42)

A chegada das meninas nem sempre era feliz. Eu ansiava e temia um pouco por esse instante. Irene toda vida escranzinada, alguma teria feito, um recado, um aviso mau da professora. Nem isso: essa quando não aportava a casa junto com as irmãs, é que o medo da surra lhe peava os passos, aí me ia acendendo a ira, a gana de bater, dar de corda ou de cinturão até ela ficar lanhada, eu ainda ia botar água de sal nos lanhos das pernas, dos braços, toma, sua cachorra, toma, ou abaixas teu fogo, espritada, ou eu acabo contigo, eu domo o teu pepino, nem que eu morra... (CELINA, 1994, p. 66).

No afã de compreender a extrema agressividade de dona Adélia em relação à Irene, busquei fazê-lo através de um conceito freudiano de deslocamento que consiste em deslocar o sentimento ou a ação para outro objeto que não o original, deslocando assim a agressividade. Compreendi que a frustração da mãe de Irene em relação ao seu marido está claramente patenteada nos romances. Primeiro por tê-la feito mudar de município. Ela que vivia tão bem em Buritizal, mudou para um lugar que ela considerava bem menos aprazível:

Quando, meu senhor?! Casa tive eu, e o senhor largou com tudo para me trazer para estes mundos. Quando imagino que meu sítio, minha barraca lá estão, ao Deus dará, e disso não vi um derréis-de-mel-coado... Sim, incrível que pareça, meu pai saíra de Buritizal largando casa e plantações nas mãos de um vizinho, e nunca se interessou sequer em saber o que foi feito de coisa nenhuma. Mamãe por isso muito se lamentava [...] Papai adoçava-lhe as queixas com risos e graçolas. E cantigas. Sempre fora desentoado, mas tinha duas canções [...] usava-as para desanuviar um prenúncio de briga, como quando mamãe principiava nas censuras... (CELINA, 1963, p. 14).

O segundo foco das frustrações de dona Adélia refere-se às amantes de seu marido: “por isso tomou as dores pelo pai e até se dava com as quengas dele, quem sabe gozando das

100 minhas lágrimas. E nesta hora de sua muita infelicidade, sofro mais que ela” (CELINA, 1994, p.44). D. Adélia não reagia às traições sob pena de perdê-lo:

[...] e o terror de Geraldo me abandonasse por outra, primeiro a brancosa da Basiléia, aquilo foi uma paixão. Geraldo virou inimigo, um desvairado dentro de casa, até as crianças, luz dos seus olhos, enjoou, ele que nunca levantou a mão para bater numa delas, e pegas tinha comigo cada vez que eu as punia, as filhas subitamente eram coisa incômoda, com elas as impaciências, os ralhos-desmandos, por um triz não as surrou... (CELINA, 1994, p. 33).

Como terceira queixa da mãe de Irene contra o pai está a superproteção que seu Geraldo dispensava à filha:

Mamãe zombou sarcástica: “Pois dou um doce, contigo mesmo é que ela faz o que quer”. Com alma nova, agarrei-me a meu pai, prometi, jurei, com ele eu tomaria, todinha, aquela coisa viscosa, horrível. [...] Mas o que eu considerava terrível, a hora tardia, valeu-me. Mamãe , se havia coisa que respeitasse, eram as refeições de papai. Assim ficou impedida de me surrar, sob pena de provocar-lhe um aborrecimento, quem sabe uma congestão. Foi quando comecei a ganhar ânimo... acabado o jantar, tratei de ir para junto de papai, sentado na cadeira de embalo na calçada (CELINA, 1963, p. 13/103).

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