4.2 BREVES TRAJETÓRIAS DE VIDA E MORADIA NAS OCUPAÇÕES
4.2.3 Irineu: “sou mais das coisas espirituais”
Venha aqui que eu vou te apresentar o Irineu, disse Guilherme. Após a
apresentação e outras conversas, no encontro seguinte, Irineu, viúvo de 88 anos de idade, relatou um extenso percurso habitacional até encontrar sua moradia atual na ocupação Dona Cida. Ali ele reside há pouco mais de um ano e meio, junto a um filho, uma filha, uma neta e cinco bisnetos:
(Moro com) um casal de filhos e bastante netos e bisnetos. Não tem
ninguém de genro nem nada. A minha neta é mãe de cinco filhos, é separada há muito tempo, morreu o marido dela. Moro eu, um casal de filhos e a filha dela, que tem 5 filhos. Nós somos em 9 na casa.
Entre suas idas e vindas pelo Paraná, destacam-se como motivos das mudanças os arranjos e rearranjos familiares:
Vim de Maringá. Deixa eu te contar certo: de Francisco Beltrão vim pra Curitiba, de Curitiba pra Maringá e de Maringá vim pra cá. Morei três, quatro anos lá (em Maringá). Fui porque eu tinha uma filha lá, mas minha filha faleceu, aí eu vim pra cá. Porque já tinha outros filhos pra cá.
Ao chegar em Curitiba pela última vez, com o intuito de se reunir com parte da família, a comunidade Dona Cida não fora sua primeira opção de moradia. O objetivo primeiro era adquirir um terreno de um sobrinho para construir uma casa num bairro próximo, São Miguel, mas, com o negócio frustrado, percorreu a região e encontrou uma casa à venda, informalmente, na ocupação.
Tem umas moradias pro lado de cima ali, perto daquele gramadão lá (no bairro São Miguel, próximo à CIC), aí os terrenos ali são do meu sobrinho. Vim pra ali pra comprar mesmo, eu tinha dez mil (reais) e dei pra ele, mas depois não sei porque não se acertamos muito bem, mas não fizemos encrenca nem nada, aí me surgiu essa casinha aqui por 15 (mil reais). E lá eu ia pagar uns 40 (mil reais, para construir) mais ou menos. Aí comprei aqui.
Logo em seguida, Irineu se lembra que o motivo do negócio frustrado foi uma desavença familiar, mostrando como as relações entre parentes acabam
sendo muitas vezes determinantes para o estabelecimento da moradia – seja
para se aproximar, seja para se afastar:
Ah, lembrei. Não deu certo porque a mulher dele é muito xarope, muito ‘cri-cri’ e daí nós não quisemos mais (morar) lá (perto deles). Ela devolveu o dinheiro, os dez mil.
Porém, antes de encontrar essa casa – a qual terminou de pagar em parcelas, sem contrato, houve também um período em que a família recorreu ao aluguel. Para uma família extensa, cujos rendimentos não ultrapassam dois salários mínimos (um da aposentadoria de Irineu, e outro da aposentadoria, por
doença, de seu filho), o valor para a locação era significativamente oneroso:
Eu tava morando lá embaixo, perto de onde tem aquele colégio. Eu parava num sobrado lá, pagava 750 contos de aluguel. Daí que surgiu essa casinha pra comprar aqui. Parecia tão caro, mas 15 mil não é tão caro, já paguei tudo, graças a Deus e estou muito feliz aqui. Nem que me dessem 50 (mil reais) eu não ia querer vender aqui.
O motivo pelo apreço à morada nova está relacionado principalmente às relações pessoais que Irineu estabelece na comunidade. O entrevistado declara grande entusiasmo pelas relações de urbanidade, embora também demonstre certa reserva para aprofundar laços de afeição:
Tudo é bom aqui, as pessoas. Gosto de fazer amizade com todo mundo, gosto de conversar, não tem embaraço.
A gente não tem uma correlação tão grande com o povo, é você pra lá, eu pra cá, ‘bom dia, boa tarde, tudo bem’? Mas até tenho bastante amigo por aqui, sabe? Cada um no seu canto, tem que ser assim. Não pode
ter uma amizade tão grande assim. A gente não sai pra lado nenhum, é cada um na sua casa.
Esse limiar entre a cordialidade e recato é recorrente na fala de Irineu. Perguntado como descreveria um bom local para se morar, ele se remete à ocupação Dona Cida. E justifica pela possibilidade de ter relações de civilidade, e ao mesmo tempo manter-se apartado de tudo aquilo que considera negativo – bar, jogo, bebida alcóolica, fumo:
Aqui eu gosto muito. Porque se tem um bar ali ou um baile aqui eu deixo eles lá. Eu não frequento nada disso não. Só se tiver alguma reunião religiosa, alguma coisa assim. Eu sou mais das coisas espirituais. Eu gosto de morar em lugar assim que a gente tem uma liberdade, que a gente conversa com todo mundo, vai aqui vai ali, ou não vai em lugar nenhum.
Mesmo questionado quanto a eventuais adversidades de se morar na ocupação, Irineu reforça o caráter positivo das relações interpessoais e de sua reserva, reafirmando sua identidade e seus valores atrelados à religião:
Não, não tem nada. Eu não posso falar de nada, nada, nada porque o senhor sabe, eu não frequento bar, eu fico só dentro da minha casa, venho aqui (na praça em construção, em frente à sua casa)... Amizade eu tenho por aí, mas eles lá e eu cá. Porque tem que ser assim: eu não bebo, eu não fumo, eu não jogo. Eu sou, como diz o outro, eu sou crente, né? Crente é aquele que crê em Deus de verdade.
A religião aparece como elemento fundamental da constituição da subjetividade de Irineu. A crença é um fator preponderante nas relações sociais e familiares do entrevistado. Também influencia suas rotinas, atividades diárias:
Graças ao nosso bom Deus, na minha família todo mundo sabe respeitar, conhece o dever. E na minha família geralmente nós somos religiosos. Eu sou adventista do 7º dia.
Eu tenho uns irmãos adventistas também (irmãos de igreja, como se
refere aos vizinhos que professam da mesma fé), gente boa. Todo
mundo é gente boa, mas os adventistas nem se fala, porque é da mesma Igreja.
Eu estou quase sempre o dia inteiro com a bíblia na mão, procurando me entender bem com as palavras de Jesus Cristo. Meu maior prazer é estar com a palavra de Deus, aprendendo mais e mais.
Perguntado sobre outros espaços, outros acessos e sobre a relação com áreas centrais da cidade, Irineu demonstra seu entendimento de que o centro (que ele chama de a cidade) é lugar do trabalho e que, agora aposentado, esta realidade não faz mais parte de seu cotidiano. Por isso não sente falta nem saudades, e não tem vontade de morar em área mais central. Afinal, quer morar em um local que represente o sossego.
Relatou não sair da região da ocupação para passear, nem para fazer compras, ou frequentar espaços públicos e privados. Ao pensar no centro, remete-se inclusive a espaços urbanos de outras cidades, invariavelmente associando-os a atividades profissionais:
Nós não vamos quase pra cidade. Ninguém trabalha. Eu sou aposentado e meu filho também é aposentado, por doença. Então nós vivemos assim, com dois salários.
Eu conheço o centro de Curitiba como a palma da minha mão. Porque faz 40 anos que eu vim pra cá. Eu dei muito duro nessa Curitiba. Eu sou pintor, eu trabalhei por tudo que foi lugar nessa Curitiba. Fizemos alguma obra em São Paulo também (por empreitada). Conhece a praça da Sé? A gente fazia acampamento ali e fazia pintura de prédios.
Por fim, destaca-se que, para Irineu, os fatores ligados à qualidade de vida, ao bem-estar que é atravessado pela situação habitacional, estão predominantemente associados a questões imateriais: respeito, educação,
amizades. Sendo assim, relata que sempre viveu com qualidade, porque o que
tornaria estes ambientes positivos seria a atitude individual em relação aos mesmos. Graças a Deus, eu sempre encontrei (lugares para se viver bem) e a
gente que faz.