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Isitro, corrida da tora grande – o ritual da dualidade

Para melhor explicar a dualidade que envolve o modo de vida do povo Akwẽ e, ao mesmo tempo, trazer para os dias atuais a complexidade das cerimônias e rituais, a posição social dos celebrantes, e a história que é o lugar comum de todos os Akwẽ, é importante conhecer esta representação ritualística chamada Isitro. Além de ser uma festa que encerra todas as outras celebrações, é a construção da harmonia porque, apesar de ser uma competição, ao final aproxima os competidores na roda cerimonial do canto.

Ainda fortemente concebida nos dias atuais, a celebração concentra a tradição da oralidade, a representação dos partidos com suas pinturas, e a força mítica dos rituais que não se perdeu com a convivência interétnica. Começo com a narrativa da história da sariema que concentra um enorme poder entre o povo Akwẽ. Quando constroem o ninho da sariema, com expressão e animosidade, narram as histórias que representam esse monumento.

Waki ti zasĩ O ninho da Seriema

Waki ti zas a expressão da linguagem Akwẽ que designa o ninho da sariema.

Para construir o ninho é preciso levantar uma alta torre construída com madeira. No alto da torre se arma o ninho com palhas secas, tudo pronto para esperar a seriema.

Todos estão reunidos para começar a competição da corrida da tora grande. Para correr, durante a festa os dois grupos que competem se preparam, pintando o corpo e enfeitando com algodão.

O canto da seriema é cantado, um canto lindo que deixa saudade e esse dia demora a acontecer, assim como também demora em terminar.

O grupo de corredores que chegar primeiro deve balançar o pau que fica pendurado no ninho da sariema. São os vencedores.

Depois, os corredores, todos juntos de mães dadas em torno das toras, devem cantar o canto da sariema (HISTÓRIA CONTADA POR DAKBRUENKWA, 2004).

A sariema, símbolo do ritual, representa a velocidade e a leveza, sentimentos importantes para esta celebração. Os Akwẽ acreditam que as pernas vermelhas dessa ave do cerrado são responsáveis por sua rapidez, então toda a preparação para esta corrida também passa pela inspiração da agilidade da seriema. Todos os corredores pintam de urucum suas pernas para conseguir a mesma rapidez da seriema. Faz lembrar a mescla das palavras de Ítalo Calvino (1990), nas propostas para o próximo milênio. Duas palavras, a rapidez e a leveza, como parte importante durante o aprendizado da preparação para a vida, aparentemente palavras contraditórias, mas ações que podem ser conjuntas e complementares, porque não adianta pensar que vai encontrar alguma coisa no futuro, se não levar algo consigo que seja rápido e leve (CALVINO, 1990).

Os rituais das pinturas estão representados em suas histórias míticas. A pintura é como uma história, onde nela está descrito os partidos a que pertencem os indivíduos, suas origens, o status na sociedade, sua posição cerimonial durante as celebrações e, também, a classificação de idade e gênero. Existem pinturas corporais especiais para cura, usada pelos

Sekwa, ensinada pelos espíritos, pinturas para crianças pequenas, pintura para os mensageiros

chamados Danohukwa, pinturas para os rituais de nominação, casamento, e para a corrida de toras. Através da pintura corporal, das classes de idade, partidos da festa, partidos da tora, casamentos, funerais, corridas de tora de buriti, é que se percebe a presente divisão dual entre os Akwẽ, como se vê durante os rituais dos grupos esportivos da corrida de toras: Steromkwá e

Htamhã.

São dois grupos: Steromkwa, representado pela sucuri, tem na sua pintura corporal os traços verticais, e o Htamhã, representado pelo jabuti, cuja pintura corporal é representada por triângulos verticais, com tintas pretas extraídas do jenipapo e tinta vermelha extraída do urucum. Os homens recebem essas pinturas e também plumagens de gavião, que são colocados em pequenos tufos por todo o corpo acompanhando os traços da pintura. Conforme já mencionado, também pintam suas pernas de vermelho do urucum para ganhar a agilidade da seriema durante a corrida.

A corrida é considerada a competição esportiva mais importante para os Akwẽ e costuma ser realizada ao final das celebrações, rituais como a festa de nomeação Dasipzé. A importância da representação dessa competição é também a formação dos grupos com suas

pinturas adequadas e, principalmente, o valor que o povo costuma dar à competição. São corredores de dois partidos, com suas pinturas e ornamentações. Em volta, toda a sociedade

Akwẽ torcendo do começo ao fim da corrida. Assim como a competição, a preparação para a

corrida é igualmente importante, começando dias antes com o corte das toras sob a vigilância dos Sekwa.

As toras de buriti possuem cerca de dois metros de comprimento e são pintadas com os mesmos desenhos dos grupos de corredores. As toras são também ornamentadas com plumagem de gavião, assim como os corredores, que recebem a mesma pintura e a mesma plumagem. A corrida é uma festa à parte. Enquanto os partidos se reúnem, os Sekwa preparam as toras, que precisam ficar com o mesmo peso e são preparadas no mato, distante da aldeia, para evitar os espíritos que tentam se apossar dessas toras. As toras são protegidas pelos

Sekwa contra os espíritos da floresta, e conferidas e avaliadas antes do início da corrida.

Todos esperam no pátio a chegada dos corredores, que correm até 15 km, sendo incentivados e aplaudidos pela comunidade. Cada grupo tem seus torcedores. No final, os partidos reunidos dão as mãos com os velhos, formando um círculo com as duas toras ao meio, e cantam a cantiga da tora grande.

Além dos participantes da corrida, os outros Akwẽ, jovens, adultos homens e mulheres e, principalmente crianças, costumam pintar todo o rosto de vermelho e amarrar uma palha de coqueiro de babaçu à cabeça. Também se pintam com desenhos tradicionais e clãnicos, usando as cores do preto, extraído do jenipapo ou pau de leite, às vezes, misturado com carvão, o vermelho do urucum espalhado pelo corpo, sem distinção ou referência, e o branco, de penugem de algodão. Utilizam para confecção dos desenhos espátulas de taquara e carimbos de miolo de coco babaçu. Tudo isso faz parte da determinação da memória viva de um povo que transborda, transforma e surpreende.

Essa competição esportiva está repleta de dualidade e sentimentos que não se separam devido à disputa, não os divide em partidos contrários, já que, ao final, todos juntos e de mãos dadas, cantam a música da tora grande em torno das duas toras jogadas ao chão pelos competidores. Quem inicia a dança é o velho o qual convoca todos os competidores para cantar e dançar em volta das toras. Um só povo reunido e animado por um só sentimento de amor que une um grupo na sua linguagem, pois é preciso cantar, para que o mundo não se acabe.

O desafio que está representado nesse ritual da dualidade cultivada pela tradição, agora está na preservação da oralidade, e quando falam os professores do conhecimento da escrita. Os Akwẽ demoraram longo tempo para aceitar a necessidade expressa pelos não-índios de

escrever, não somente em português, mas na sua própria língua. A dialética da compreensão de que os não-índios falavam da perda do uso da língua, sem a escrita, sempre foi e ainda é inaceitável para muitos Akwẽ que acreditam na impossibilidade de esquecer sua língua. Como poderia o povo Akwẽ pensar que a escrita não apaga e descansa a memória e ainda todo o ensinamento que repetido não se acaba, possa agora ser prioridade de outra ação, com o aparecimento da escrita? Acredito que essa sensação de aceitação e desconfiança típica dos povos indígenas, que vivenciaram tantos desacordos e presenciaram tantas palavras vãs, possa ser agora a construção de uma escolha, uma corrida, para a alegria de todos.

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