Capítulo I. Diferentes olhares sobre o envelhecimento humano
1.2. Isolamento social e solidão na terceira idade
O isolamento social e a solidão neste período da vida é uma preocupação premente para toda a população. Dessa forma, vários são os conceitos relacionados com esta questão social inerente a vida do indivíduo, principalmente para esta faixa etária.
Segundo Freitas (2011, p. 109), “solidão e isolamento não são sinónimos, embora o isolamen- to possa influenciar o aparecimento da solidão. O carácter multidimensional destes dois fenómenos tem criado alguma dificuldade na sua conceptualização”. Ele salienta que a solidão é um sentimento muito pessoal e subjetivo para o qual não existem sinais ou sintomas observáveis. Corroborando esta abordagem da solidão, é preciso ter em conta que este sentimento não se refere apenas a pes- soa idosa, mas, a quaisquer indivíduos a depender do contexto e da história de vida de cada um. Porém, pela vulnerabilidade do idoso é mais suceptível a adquirir essa experiência, pois, como diz Fernandes (2007), a solidão é uma experiência subjetiva, que pode ser sentida não só quando se está sozinho, mas quando se está na companhia de pessoas com as quais não se deseja estar. As queixas de solidão acontecem quando a natureza dessas relações é pouco satisfatória.
Segundo Santos (2000), um dos aspectos que podem influenciar diretamente de modo mais significativo a saúde e a segurança das pessoas de idade avançada é a solidão. Este sentimento é determinado pelas expectativas individuais em relação aos contatos sociais. É uma forma de vivên- cia subjetiva perante a interação social e não da frequência dos mesmos contactos. Pode também resultar por falta de planos para as atividades diárias. Por seu lado, Berger (1995, p. 387) considera que a solidão é uma “experiência penosa que se liga a uma necessidade de intimidade não satisfeita, consecutiva a relações sociais sentidas como insuficientes ou não satisfatórias”. Assim, Santos (2000) afirma que a solidão representa, atualmente, “um dos problemas mais frequentes da nossa sociedade, a nível de idosos, dos adultos profissionalmente ativos, das crianças, resultando num conceito de vida da sociedade moderna que tende a valorizar sobretudo o que é material, desvalori- zando e ridicularizando a dimensão afetiva”. O autor ainda diz que conceitos como Família ou Amizade são ignorados ou minimizados, o que deixa as pessoas entregues a si mesmas e sentindo-se sós.
Fernandes (2007, p. 45) afirmar que “a solidão é um constructo complexo, que facilmente se pode confundir com isolamento, abandono, incomunicação, clausura, entre outros. O seu significa- do é tão amplo e complexo que no estudo desta temática nos deparamos com dois problemas: o de estabelecer uma definição concreta e o de avaliar com objetividade a amplitude da solidão”. Assim, a exclusão social e a pobreza podem estar por detrás de muitos casos de solidão. Branco e Gonçal-
ves (2001, apud Fernandes, 2007, p. 50) afirmam que, “como seria também de se esperar, as famí- lias monoparentais, os idosos, a viver só ou em casal (ambos idosos) e as famílias alargadas, são as categorias mais vulneráveis a qualquer tipo de pobreza”.
Neste sentido, falar da situação econômica e social, no dizer de Costa (2011), é revelar que não existe pobreza sem exclusão social, mas, com efeito, existem formas de exclusão social que não implicam pobreza. Para o autor supracitado, é certo que os grupos etários mais elevados são mais vulneráveis à pobreza do que os mais jovens. Contudo, o problema específico do idoso não é a po- breza, mas o isolamento. Os idosos são socialmente excluídos da sociedade em geral independen- temente do seu nível de rendimento. Ainda para este autor outra forma de exclusão social que não está necessariamente associada a pobreza resulta nas várias formas de discriminação e preconceitos que excluem as minorias da sociedade.
Estas formas de discriminação, preconceito fazem com que as pessoas se sintam sós, e, no di- zer de Fernandes (2007 p. 48), “quando uma pessoa se sente sozinha, experiencia sentimentos de angústia, insatisfação e exclusão. Tal não significa que sintamos a solidão sempre do mesmo modo, pois diferentes pessoas, perante situações diferentes, podem experienciar diferentes sentimentos de solidão”.
Corroborando com o autor acima citado, Santos (2000) enfatiza que o sentimento de solidão é determinado pelas expectativas de cada indivíduo em relação ao meio e as relações sociais é a percepção subjetiva dos contatos sociais, ou seja, a forma da vivência subjetiva perante a interação social.
Diante dessa premissa, pode-se concluir que o isolamento social e a solidão podem estar as- sociados ou não com o meio onde se vive, independentemente da zona em que se vive, zona urbana ou zona rural. No dizer de Fernandes ( 2007, p. 32), “a solidão está bem presente no mundo rural português, com os jovens a preferirem a vida citadina, com o processo de êxodo juvenil das áreas rurais para as cidades, onde há mais oportunidades de emprego, maior oferta de bens e serviços e melhores acessos”. Assim, “os idosos ficam isolados neste mundo rural onde há paisagens campes- tres, do sossego e serenidade, do ar puro e saudável, que deveria ser procurado por todos, visto que nestes lugares vive-se com mais qualidade”. No entanto, por tudo que já foi dito anteriormente, os jovens vão desaparecendo do meio rural, sendo apenas vistos nas festas de verão, no dia de todos os Santos e nas festas de Natal, deixando assim este ambiente despovoado, onde já só estão idosos, que são apresentados em várias notícias como “os velhos que sofrem de solidão”. Esta solidão, que parece estar propícia a quem vive nestes meios, já foi outrora fonte de inspiração para grandes ar- tistas, que muito bem a deixaram retratada em jubilosas e formidáveis obras.
Diante desse contexto pode-se afirmar que as transformações evidentes foram causadas por questões sociais, hoje sendo insistentemente reveladas por vários autores onde relatam a relevância da participação do Estado, da sociedade e principalmente das famílias, como revela Freitas (2011), quando diz que um dos aspectos mais importantes para a qualidade de vida é o apoio da família,
amigos e participação em atividades sociais, sendo que os baixos níveis de contactos podem associ- ar-se a uma qualidade de vida pobre. Na atualidade, há um grande número de idosos que vivem sozinhos, que perderam o cônjuge ou companheiros de toda uma vida (solidão emocional), ou per- deram os amigos próximos que foram falecendo (solidão social). Este autor continua a dizer que a solidão social deve-se a uma lacuna na rede social. A solidão emocional experiencia-se quando há falta de um relacionamento emocional íntimo. As relações íntimas são responsáveis pelo afastamen- to da solidão, mas muito mais difíceis de criar do que uma rede social.
Corroborando com o autor supra citado, Fernandes (2007) revela que o grupo de amigos é de extrema importância nesta etapa da vida, em que os filhos já saíram de casa, regressando apenas esporadicamente, em que nem sempre se tem um cônjuge para partilhar os acontecimentos diários e em que os dias parecem ser todos iguais, porque não se tem uma atividade profissional para de- sempenhar. É com os vizinhos e amigos mais próximos que o idoso vai conviver e desabafar o que não pode interiorizar, desenvolver atividades lúdicas e partilhar experiências, conhecimentos, sen- timentos de tristeza ou alegria. Contudo, cada vez mais, tais contactos são perdidos. As pessoas tendem a envolver-se menos, a desvincular-se socialmente. Ainda segundo este autor, “quando uma pessoa se sente sozinha, experiencia sentimentos de angústia, insatisfação e exclusão. A solidão nem sempre é vivida da mesma forma, visto que as pessoas são diferentes e vivenciam situações diferentes, desta forma podemos dizer que há várias formas de sentir a solidão”. Para ele, o proces- so de envelhecimento tende assim a acompanhar-se de uma substancial perda de número de ami- gos, que se reflete num empobrecimento das relações sociais. Este fenómeno constata-se com maior frequência nas grandes áreas urbanas.
Em contra partida, Ussel et al. ( 2001, apud Fernandes, 2007) relata que, nas pequenas áreas rurais, os vínculos sociais tendem a conservar-se, talvez por haver encontros rotineiros entre as pessoas, os quais favorecem a troca de informação e promovem, muitas vezes, apoio mútuo. Em contra partida, quando as relações sociais são praticamente nulas, acaba por predominar o deno- minado “tempo morto”, aquele que não é dedicado a nenhuma atividade, um tempo em que não há experiências partilhadas, ou se sente a ausência de um ombro amigo e, desta forma, o silêncio insta- la-se no dia-a-dia do idoso e aparece assim um enorme sentimento de solidão, do qual nunca ou dificilmente sairá. Sendo assim, pode-se afirmar que a interação social é importante para a manu- tenção da qualidade de vida da pessoa idosa.
Neril & Freire (apud Freitas, 2011, p. 25) sugerem algumas estratégias que podem fazer a diferença na vida social dos idosos assim como na comunidade e dessa forma ajudar os idosos a prevenir ou combaterem a solidão:
1. Tentar conhecer novas pessoas e fazer novas amizades 2. Participar em atividades sociais voluntárias.
4. Encontrar novos canais de comunicação entre pessoas da mesma geração e de outras ge- rações.
5. Envolver-se em grupos de convívio, atualização cultural.
6. Consciencializar-se do seu papel como cidadão na sociedade e reconhecer os seus direitos e deveres.
7. Investir em si próprio, cuidando da saúde mental e física.
8. Convencer-se de que a adaptação às mudanças naturais da velhice traz dificuldades, mas que isso não implica o afastamento social, inatividade, isolamento, depressão.
9. Favorecer o crescimento espiritual.
10. Saber eleger as prioridades pessoais e defender a privacidade e pontos de vista.
Pode-se concluir, pois, que a melhor estratégia para afastar os idosos do isolamento social, da solidão e da depressão é criar-lhes condições para poderem estar em contato com amigos, em con- vívio com pessoas da mesma faixa etária, desenvolvendo atividades lúdicas, estimulando-os, inclu- indo-os socialmente, a fim de eles mesmos promoverem o seu bem-estar, melhor qualidade de vida e consequentemente um envelhecimento ativo.