OUTRAS VOZES
ISSN: 0873-0628 SER III N 11 2016Universidade do Minho
M
anuel (Manny) Igrejas nasceu em 1949 em Newark, New Jersey. Com raízes em Leça da Palmeira, cresceu no seio da comunidadeportuguesa da zona comummente designada como Ironbound.
Trabalhou durante dez anos (1970-1980) como operário: os primeiros cinco como carpinteiro numa companhia ferroviária de Hoboken (atual
NJ Transit), e os restantes no Bloomfield Department of Public Works. Durante esse período, dedicou-se à escrita de poesia e ficção, publicado textos em pequenas revistas. Em 1980, foi um dos atores escolhidos para a radionovela Our Life Together Among The Works of Art, emitida pela estação WBAI. Foi ainda autor de vários episódios dessa série. Em 1980 começou também a trabalhar na Broadway, mais precisamente como publi - ci tário na agência Hunt/Pucci. Terminada esta colaboração, Manny aban - do nou a Broadway e dedicou-se ao comércio de artigos para restauração entre 1983 e 1990, durante o dia, escrevendo ficção, poesia e dramaturgia durante a noite. Regressou à área das relações públicas em 1990, na David Rothenberg Associates, uma agência que representava algumas das mais importantes produções da Broadway. Em 1991 juntou-se ao coletivo Blue Man Group, tendo sido o seu diretor de relações públicas até ao ano de 2005. Deixou nessa data o trabalho a tempo inteiro, mas continuou a representar várias companhias de teatro de dança, como En Garde Arts ou The Builders Association.
Mais conhecido como dramaturgo, entre as suas peças, muitas delas contribuindo assumidamente para um corpus teatral gay, contam-se
Shrinkage, Kitty and Lina, Miss Mary Dugane Hassan and Sylvia. Esta última foi incluída na antologiaPlays and Playwrights 2011. Margarita and Max, de 2013, ganhou os prémios de Melhor Peça Breve, Melhor Encenador e Melhor Atriz noFestival de Teatro Internacional de Midtown. No tocante a outros géneros de escrita, publicou o conto «The Little
Trooper» em Men on Men 4. Em 1993, a antologia A New Geography of Poets incluiu o poema “Herois do Mar,” que aqui se traduz. Os outros dois poemas agora apresentados em português foram recentemente publicados
no volume especial do InterDISCIPLINARY Journal of Portuguese
Diaspora Studies (4.2, 2015), subordinado ao tema “Neither Here nor There, yet Both: The Luso-American Experience.”
O volume acima mencionado resultou do trabalho do Grupo de Estudos Americanos do CEAUL (GI3) em prol da visibilidade de um crescente grupo de escritores descendentes de portugueses que vão engros - sando a literatura norte-americana. A circunstância da diáspora não implica necessariamente o cunho da etnia em todos os seus escritos (em baixo, “Uma Pia Cheia de Poemas Sujos” é passível de se interpretar como a arte poética de um qualquer autor que desafia o sublime como apanágio da sua lírica), mas a obra destes escritores merece também ser divulgada como um testemunho de interculturalidade que complexifica a imagologia de iden - tidades nacionais, designadamente projetando a nossa além-atlântico. O projeto PEnPAL in Trans, por seu turno, transversal a várias equipas dentro e fora do CEAUL e dirigindo a sua investigação à pedagogia da tradução literária, tomou a seu cargo parte do trabalho de disseminação da literatura luso-americana, procurando a sua medida justa em português. No caso presente, as traduções são da responsabilidade de Ana-Maria Chaves, destacada tradutora literária de autores como William Faulkner, Sommerset Maugham ou David Lodge, e participante no projeto PEnPAL no âmbito da sua colaboração com o Mestrado em Tradução e Comunicação Multi - lingue da Universidade do Minho.
Pequeno-almoço com os Ricardos
Estava pregado ao linóleo em frente ao televisor
Onde os botões dos meus olhos brotavam rebentos azul claros Que bocejavam e espreguiçavam folhas indolentes ao redor da corola. Sombras cinzentas cruzam o ecrã
Seguidas da voz estridente de uma criança travessa
Depois uns olhos enormes orlados de voluptuosas aranhas piscam ao focar-se Furiosos sob arqueados apóstrofos feitos em casa
Sublinhados com um traço preto, oblíquo e elástico,
Que se franzem em sobrolhos inteligentes e sorrisos escarninhos. Eis Lucy! Uma bomba relógio de avental
Ethel é a voz da razão:
“Como podes ficar aí parada a dizer
Essas quatro palavras terríveis: Eu tive uma ideia?”
Lucy descarta a sensatez com um voluptuoso encolher de ombros E mãos grandes e fluidas. As comédias televisivas são cruéis Como suicidas—deixam uma porcaria que outros têm de limpar. Não há um pingo de responsabilidade nas partidas velhacas Que arrastam a doce Ethel pelo impetuoso rio vermelho. Fred resmunga sempre e mergulha para a salvar.
O que irá Ricky encontrar quando abrir a porta? Sobe a escada de olhos esbugalhados.
Ó não! Lucy está a baloiçar o Pequeno Ricky fora da janela! Claro que ela pode entrar no espetáculo
E ele paga também a mobília nova.
Mrs.Trumbull apanha o Pequeno Ricky esquecido No cesto da roupa suja enquanto os Ricardos se beijam. Os Mertzes, uns macacos de imitação, seguem-lhes o exemplo. Ricky fica tonto na sofreguidão dos lábios negros de Lucy, Perdido no seu perfume, Esquecimento Nº 5.
Dorme mal nessa noite
Breakfast with the Ricardos
I was planted into the linoleum in front of the TV set Where the buds of my eyeballs sprouted clear blue shoots That yawned and stretched lazy leaves around the tube. Gray shadows flicker across the screen
Followed by the piping voice of a mischievous child
Then saucer eyes ringed by luxurious spiders twitched into focus Furious beneath homemade, arching apostrophes
All underlined by a black, elastic slash That twist into clever frowns and sneers. It’s Lucy! A time bomb in a house dress. Ethel is the voice of reason:
“How can you stand there and utter
Those four horrible words: I’ve got an idea?” Lucy dismisses reason with a voluptuous shrug And large, fluid hands. A screwball is as cruel As a suicide, leaving a mess for others to clean up. There is no accountability in the vicious pranks That drag gentle Ethel down the rushing red river. Fred always grumbles and dives in to save her. What will Ricky find when he opens the door? He mounts the stairs with his eyes bugged out. Oh no! Lucy dangles Little Ricky out the window! Of course she can be in the show
And he’ll pay for the new furniture too. Mrs. Trumbull catches forgotten Little Ricky In her laundry basket as the Ricardos embrace. The copycat Mertzes follow suit.
Ricky is dizzy in the tug of Lucy’s black lips, Lost in her perfume, Forgetfulness No. 5. He sleeps fitfully that night