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Isso não é um graffiti: Primeiro Graffiti Expo-Natal

Não é de hoje, que o graffiti tem ocupado as galerias, os museus, os espaços “consagrados” para a arte dita maior. Mais fortemente na última década, essa arte que tem como essência a rua, tem sido exposta nas galerias. Como já falamos acima sobre as guerras de oposição, segundo Hall, não cabe

ficarmos na dicotomia cooptação X resistência, mas entender como esse processo modifica e interfere nesta arte de rua.

A 1° Graffiti Expo Natal, 2013, começou no dia internacional do graffiti, na galeria da Fundação Cultural Capitania das Artes. A exposição era composta por quadros, telas, maderites, fotos e intervenções livres com sprays, tintas, estêncil, areografia entre outros materiais característicos da arte urbana. Com a participação de 16 graffiteiros e artistas plásticos (Bia Rocha, Bones , Bruno Otávio, Bruno Haddes, C.M CHiV@, Daniel Nec, Doce, FB, Pardal, Pedro Ivo, POK, Raom Benarez, Rodrigo Fernandes, TôLigadoBoe e Andruchak). Na abertura teve apresentação de rappers, dança dos B.Boys e B.Girls, portanto, os elementos da cultura Hip Hop estavam presente.

Alguns pontos desta vivência chamaram atenção: O primeiro refere-se ao público predominantemente elitizado presente na abertura da exposição; o segundo é a apropriação de novos espaços pela arte de rua; outro ponto é a valorização e aceitação social que essa iniciativa pode gerar; e por fim a negação do graffiti, quando entra em espaços fechados, já que sua essência é a rua, como dizia uma obra exposta: “Isso não é Graffiti”, parafraseando e fazendo referência à famosa obra de René Magritte.

Sabemos quem são os frequentadores dos espaços burocratizados para a arte, na ocasião havia uma parcela deles presentes, uma elite alternativa, que não encontramos em outras atividades de graffiti na rua. Porém estavam naquela noite apreciando a arte de rua nas paredes da galeria, e de certo modo, isso proporciona o encontro de diferentes classes no mesmo espaço. Arte de rua reunindo independentemente das diferenças, também os grafiteiros das “quebradas”13, o que é interessante, porque a prática possibilita que os mais

diferentes grupos sociais ocupem esses espaços que segregam os mais pobres, pelo valor do ingresso, ou pela falta de informação, já que os meios de divulgação de exposição são voltados a um público especifico. O que não podemos ignorar é que esse processo da entrada do graffiti nas galerias, pode provocar o deslocamento da arte de rua para o contexto mercantilista, elitizado,

cabendo aos grafiteiros não deixar que essa arte se limite às paredes fechadas dos museus e galerias.

O filme EXIT: through the gift shop (BANKSY, 2010), discute essa expansão da arte de rua, para exposições em lugares fechados, e a valorização das obras de grafiteiros no mercado da arte. Banksy argumenta que sua arte não foi feita para a galeria e para movimentar dinheiro, mas essa valorização foi um resultado da visibilidade alcançada pelos seus graffitis nas grandes capitais e em lugares polêmicos, como no muro que separa a Palestina de Israel. Hoje um museu de arte contemporânea se não tiver uma obra de graffiti está incompleta, afirma de Banksy. Neste filme é mostrado um leilão de arte e o valor de 30 mil dólares da obra de Banksy.

Anne Cauquelin, ao escrever sobre a arte contemporânea e todo o mercado que envolve a arte (“burrocratizada”), do circuito fechado de circulação, da venda e consumo, dos agentes envolvidos, afirma que “a arte será regida pelas leis de mercados dos produtores, será um produto como qualquer outro.”(2005, p.107). Deve-se prestar atenção sobre a mercantilização da arte de rua, mesmo compreendendo que os artistas necessitam sobreviver. Há um grupo de grafiteiros que tem o graffiti como profissão, e muitas vezes eles consideram como graffiti comercial, mas não deixam de fazer seus riscos nas ruas.

Me parece interessante considerar que a arte dita marginalizada pode hoje ocupar lugares que lhe foram negados inicialmente. Faço um paralelo com as universidades, que historicamente foram destinadas a uma elite branca do nosso país, mas que nas últimas décadas propuseram uma abertura e uma maior inserção das camadas populares. Seria uma conquista a arte de rua estar nos museus e galerias? Sim e Não! Sim, porque as galerias além de serem espaços do capital, da arte mercantilizada, são espaços de conhecimento e de novas vivências, um lugar que reúne diferentes obras, criando um microuniverso artístico.

Há de se considerar a importância das bienais nacionais e internacionais de graffiti que ocorrem no Brasil, como a Segunda Bienal Internacional de Graffiti

que aconteceu no MuBE-SP em 2013 que reuniu mais de 50 grafiteiros, brasileiros e estrangeiros e que contou com a presença de 2 graffiteiros potiguares: Sinhá e Sola. Esses eventos promovem a visibilidade e a construção do graffiti como uma arte reconhecida e aceita socialmente. Paulo C. C. Gomes, no livro O Lugar do Olhar: Elementos para uma geografia da visibilidade (2013), ao desenvolver o termo exposição, que é definida pela situação no espaço coloca:

Há uma delimitação que estabelece o que deve ser visto e o que não deve e isso é o resultado de uma classificação relacionada ao espaço, é uma questão de posição. Lugares de exposição são lugares de grande e legítima visibilidade. O que ali se coloca tem um comprometimento fundamenta com a ideia de que deve ser visto, olhado, observado, apreciado, julgado. Isso também significa dizer que socialmente estabelecemos lugares onde essa visibilidade deve ser praticada, segundo complexas escalas de valores e significados. (GOMES, 2013, p.23)

Se o graffiti, cultura de rua, começa a entrar nesses espaços de visibilidade, é porque há uma intenção de ser mostrado, de dar evidência a esse tipo de expressão, que se coloca nas ruas de forma tão espontânea. Isso também é conquista dos sujeitos que praticam essa cultura e através dessa prática e os impactos que suas obras provocam na paisagem da cidade, agem sobre os olhares que determinam o regime de visibilidade.

Por outro lado, há uma contradição, pois cada vez que o graffiti entra na galeria seu potencial de contravenção, contestação, subversão é reduzido. Assim o que inicialmente era a gênese da arte de rua, sua subversão às regras, seus “nãos” ao muro branco, fica negado, submisso e limitado no contrato do espaço determinado. Também devemos considerar que quem entra na galeria é um grupo restrito de grafiteiros, e que esse espaço não é democrático, não são todos que podem expor seus graffitis nas galerias. Assim a própria galeria é um espaço segregador, sendo contraditória a prática do graffiti em seu espaço. O graffiti é uma arte pública e posta nos espaços públicos da cidade. O potencial de intervenção na paisagem urbana não é explorado quando essa se tranca em quatro paredes. A arte que faz das paisagens urbanas, fundos para seus murais, que faz parte da cultura urbana, se descaracteriza quando entra em espaços fechado. Ironicamente havia uma obra na Primeira Expo-Graffiti Natal, 2013,

dizendo: “Isso não é graffiti”, o que demostra certa criticidade à própria exposição.

Contudo, mesmo que no momento em que essa arte entra na galeria e deixa de ser graffiti, mas talvez uma “representação do graffiti”, os sujeitos que a fazem são em sua maioria grafiteiros e suas práticas são fortalecidas e reconhecidas na rua. O fato de que num momento determinado e por um tempo determinado entram nos lugares de visibilidade social, representando a prática de seu cotidiano, não nega, a priori, nem tira sua essência de grafiteiros das ruas.

Compreendendo a representação entre o vivido e o concebido, na mediação entre o que fazemos no mundo e a comunicação humana. As representações não assumem a priori nem status de verdadeiro e nem de falso, mas como uma atividade reflexiva, que analisa as condições de existência de quem o faz (LEFEBVRE, 2006). Como resultante de uma atividade, ou da vivência singular de indivíduos, de um grupo, num contexto específico.

As relações das representações entre si provêm de seus suportes; dos “sujeitos” falantes e atuantes, dos grupos e classes em relações conflitivas (relações sociais). As representações não são simples atos, nem resultados compreensíveis por suas causas nem simples efeitos. São atos de palavras (ou se preferir de discurso) e de prática social. (LEFEBVRE, 2006, p.104, tradução nossa).14

Esses novos lugares adentrados pelos graffitis e que seus sujeitos ocupam por instantes são lugares de visibilidade. Isso é um fato que vem se desabrochando na cultura de rua, e temos que considerar e compreender a importância e os perigos apresentados por esse novo lugar, negá-lo seria ignorar a expansão e o crescimento que essa cultura de rua vem tendo na sociedade, aceitá-lo puro e simplesmente seria esquecer a trajetória e a essência da cultura de rua.

14

Las relaciones de las representaciones entre sí provienen de sus soportes: de los "sujetos" hablantes y actuantes, de los grupos y clases en relaciones conflictivas (relaciones sociales). Las representaciones no son simples hechos, ni resultados comprensibles por sus causa ni simples efectos. Son hechos de palabra (o si prefiere de discurso) y de práctica social.