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Capítulo III.Enredando muros e fronteiras: cartas e documentos de migração entre

III. iv Entre cartas e documentos: prisões, migrações e

Sanja Milivojevic (2015) atenta para o fato de a mobilidade das mercadorias estarem justapostas à mobilidade das pessoas. A criminalização de mercados específicos – como os de drogas e sexuais – justapõem-se à criminalização das mobilidades das pessoas que possibilitam os fluxos dessas mercadorias e serviços. Bosworth e Aas (2013) argumentam, nesse mesmo sentido, que a compreensão da justiça criminal contemporânea é absolutamente correlata à produção de análises acerca das mobilidades e das políticas de controle das fronteiras. É nesse mesmo registro que Pickering, Bosworth e Aas (2015) se voltam para Georg Simmel (1983). Segundo elas, a figura do “estrangeiro”, por ele tecida, permite elaborar noções fundamentais para as análises acerca das tensões entre assimilação/rejeição, pertencimento/exclusão. Por meio do acionamento do ensaio de Georg Simmel, Pickering, Bosworth e Aas atentam para os múltiplos eixos destas articulações nas experiências dos sujeitos em circulação pelas fronteiras. As histórias de Marta, Cristal e Luz falam sobre a multiplicidade destes eixos. Personagens que, literalmente, carregam em seus corpos a justaposição entre criminalização da circulação de mercadorias e de suas mobilidades. As três personagens deste capítulo agenciam relações vivenciadas através do contexto prisional transnacional para produzirem segurança financeira e/ou documental.

O exame dos usos feitos dos papéis “em sua ocorrência rotineira” faz ver a “ação de entidades que concebemos abstratamente como nação, Estado, cidadania, democracia” (Peirano, 2006: 26). No que tange as histórias de Marta, Cristal e Luz, o exame dos usos que elas fazem dos papéis revela estratégias tangidas a partir dos processos de produção e fiscalização de fronteiras nacionais vivenciadas por meio das tramas entre mercados ilegais/legais, prisões e fluxos transnacionais. Frente a este entrelaçamento, falar de “ausência de documentos” é falar de uma forma de documentação específica.

A ausência de legibilidade vivenciada por Luz, a impediu de circular pelas ruas de Barcelona, mas não pelas instituições punitivas da Catalunha. Sem documentos, Luz seguiu visitando Carlos na prisão. Mais do que isso, seguiu tendo direito de ficar com Carlos duas vezes por mês em uma sala privada, direito de realizar o vis-a-vis conjugal. Este mesmo direito foi indeferido a Marta a despeito de todas as tramas documentais que

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legitimavam sua conjugalidade com Eduardo. Marta não vivenciava a “manutenção dos laços familiares” na prisão por meio de uma conjugalidade classificada como suspeita e criminosa. Luz, por sua vez, só vivenciava conjugalidades, familiaridades e redes de ajuda a partir das instituições punitivas e dos ilegalismos a que suas tramas de relações, de imigrantes ilegais na Espanha, eram atravessadas. A ligação de Francisca, nesse registro, operou como o convite de Cristal. Ambas instrumentalizaram as relações numa “correria” de demandas para afastá-las da condição de “indocumentadas”.

O governo dos indivíduos se dá por meio do governo de suas relações. Processos de gestão das populações que esquadrinham normais, patológicos, criminosos e suas decorrentes tipificações o fazem a partir do rastreamento de seus vínculos. Segundo Foucault (1979) a família é produzida como o lugar de fixação de laços afetivos, sexuais, e do “amor”. Sujeitos são, portanto, localizados segundo registros sanguíneos, nominais, familiares que os “identificam”. Lavrar o rastreamento dos vínculos perante instancias estatais, nesse sentido, significa obter documentação necessária para tal identificação. Comprovante de residência, nome do pai, da mãe, certidão de casamento são, assim, objetos de sujeição e de subjetivação que produzem as nominalidades dos sujeitos.

Veena Das e Deborah Poole (2004) lembram que o exercício de poder estatal, de gerencia e controle, está constituído por meio de procedimentos de escrita. Da produção de um “relevo” documental e estatístico que torna aparente algumas características e vínculos em detrimento de outros. Publicizar ou não as relações implica, nesse sentido, em empreender esforço de enunciação e escrita sobre elas. É disso que trata o termo legibilizar pensado a partir de Das e Poole, de fazer ver, de produzir um lastro documental que registre e possibilite mapear as relações que colocam os sujeitos em relevo: que os documentam, os tornam visíveis. Mas, ainda segundo Das e Poole, processos de produção de legibilidade sugerem produção de ilegibilidades, laços ou qualidades das relações que podem ser mantidas no sombreamento do que é posto em enfoque pelas letras, pelos carimbos e registros daquilo que é legibilizado. Fazer legível e/ou ilegível os vínculos é agenciar a tensão entre a documentação que permite a circulação por caminhos não rastreados. É fixar em um papel escrito identificações e registros de modo a, por meio destes, adquirir permissão para atravessar as fronteiras.

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Nicole Constable, em Romance on a Global Stage (1999), ilustra, por meio de etnografia realizada com casais compostos por homens norte-americanos e mulheres filipinas, como demandas e aquisições ou indeferimentos dos vistos de permanência nos Estados Unidos, atribuídos às mulheres, são perpassados por fantasias – “contos de fadas” – que gerenciam as produções dos documentos e carimbos: marcas e papéis tecidos através da investigação das condutas dos sujeitos avaliados a partir de entendimentos acerca dos “bons valores familiares”. Segundo a autora, a boa mulher filipina, ou seja, “não muito nova nem muito velha”, solteira, quer dizer nunca antes casada, sem filhos, escolarizada e com lastro familiar identificável, possui mais chances de obter permissão para viver e, portanto, exercer a conjugalidade com um homem norte-americano também específico – com emprego e residência estabelecidos, não muito novo nem muito velho, branco e com um histórico matrimonial e de divórcio com mulheres norte-americanas, também, documentado e especificado.

O empreendimento de esforço dos casais em produzir narrativas, condutas, cartas e certidões e, por outro lado, as técnicas de avaliação dos agentes responsáveis pelos deferimentos ou impedimentos dos vistos de entrada e permanência nos Estados Unidos descritos por Constable possibilita analisar o enredamento de personagens que são colocados na baila desta produção documental. Personagens intersectados por narrativas coloniais, raciais e de gênero que fundamentam a reprodução e a proteção do território nacional e dos filhos da nação: futuras gerações geradas das relações presentes. Ou seja, as mulheres filipinas e homens norte-americanos sentados do outro lado do guichê impetrando pela legitimação e documentação estatal da relação que passa a ser, assim, positivamente lastreada pelo estado.

No Brasil, autores como Adriana Vianna e Juliana Farias (2011), assim como, Gabriel Feltran (2011), têm produzido reflexões acerca da produção de reconhecimento dos sujeitos a partir de técnicas de estado que documentam relações. A etnografia de Gabriel Feltran produzida em Sapopemba, distrito da zona leste da cidade de São Paulo, por exemplo, ilustra que redes de informações utilizadas no mapeamento dos indivíduos nas periferias podem, não necessariamente, passar pela produção legitima de papéis que os documentem, mas sim, por relações interpessoais entre famílias e policiais que sabem quem

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são e onde moram familiares de pessoas em cumprimento de pena ou com envolvimento com o comércio local de drogas. Nesse registro, famílias são “contaminadas” pelos atestados de antecedentes criminais de filhos, irmãos e vizinhos. De mesmo modo, Vianna e Farias ilustram, através da observação da rede de movimentos sociais de familiares vítimas de violência policial, a trama produzida cuidadosamente por mães, esposas, irmãos e advogados para identificarem os corpos mortos pela polícia como corpos de “sujeitos dignos de direitos”, honestos, trabalhadores, sem envolvimento com o “crime”. “Mãe de traficante não fica lutando por justiça” (Vianna e Farias, 2011: 98) é frase ilustrativa de como vínculos produzem identificações, perversas e/ou não.

Nos trabalhos citados, contudo, é possível apreender camadas discursivas de poder e de agenciamento que atravessam a produção de identificações que, por outro lado, são acionadas estrategicamente pelos sujeitos em suas negociações particulares com instituições de estado, ou ainda, em suas relações íntimas. Como explicita Nicole Constable, não é dizer que não haja agência, mas sim, não romantizá-la, ponderá-la frente a tensões e posições assimétricas de poder materializadas nos corpos dos sujeitos que, de outro modo, as articulam e as utilizam. É o que Piscitelli (2008) exemplifica em seu trabalho realizado com brasileiras nos mercados sexuais e matrimoniais na Espanha e na Itália. Nestes, atributos corporais socialmente reconhecidos a partir de posições de subalternidades raciais, sexuais, de gênero e sexualidade podem ser ressignificados nas relações como capitais corporais e simbólicos que (re)posicionam sujeitos nas relações segundo os contextos. Desta forma, mulheres brasileiras podem ser consideradas “carinhosas”, “afetivas”, “boas mães”, “boas donas de casa” em relações sexuais e de conjugalidade com homens brancos espanhóis e italianos. O mesmo também ocorre com as mães de vítimas de violência policial sobre as quais falam Vianna e Farias. Estas rearticulam atributos como “favelada”, “negra” e “pobre” os acionando no cotidiano de uma gramática que as substantivam como “boas mães que lutam por justiça” produzindo, assim, categorizações reconhecidas a partir de uma maternidade especifica que intersecta classe e raça: “‘É essa filha da puta negra, pobre, moradora da comunidade (...) que vai botar vocês na cadeia’, gritou Celeste em frente à instituição onde seu filho foi morto” (Vianna e Farias, 2012: 95). Estes exemplos etnográficos permitem observar o

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empreendimento de esforço e trabalho dos sujeitos em tornarem legíveis aos clientes, aos cônjuges, aos agentes de Estado apenas algumas especificidades das relações por eles tecidas cotidianamente e, portanto, complexificadas pelas camadas que as compõem.

O grito proferido pela personagem descrita por Vianna e Farias em uma “cena pública”, nesse registro, por mais que não seja escrito, trabalha no sentido de fazer ver a maternidade e a violência policial empreendida ao filho, de enunciar laços familiares inquestionáveis lastreados, inclusive, pelos documentos escritos do estado: certidão de nascimento, carteira de trabalho e atestado de óbito. Assim também são os documentos estrategicamente elegidos a serem apresentados pelos casais de que fala Constable ao agente de imigração norte-americana. Na cena pública e no guichê de atendimento do consulado, estão postas tensões entre o que deve e o que não pode ser tornado legível.

No que concerne esta composição etnográfica, fixar-se em relações documentadas pelas cartas trocadas com cônjuges ou com familiares através das prisões, significa aproximar-se com o que está fora dos muros. Receber cartas e alimentos vindos pelo correio tem a carga da produção do lastro das relações familiares, da comprovação de que alguém espera do lado de fora, que as relações não estão circunscritas à penitenciária. É sobre este lastro de relações que se debruçam os técnicos do setor judiciário catalão. Sobre a leitura dos laços familiares, conjugais e afetivos com o “país de origem”, por meio dos quais definem “bons” e “maus” prognósticos de estrangeiros presos na Catalunha (e no Brasil).98 Quanto mais legíveis são estes vínculos, melhor é o prognóstico escrito nos prontuários, avaliações de psicólogos, assistentes sociais e tutores.

As relações que Luz documenta, visibilizam vínculos com o marido colombiano preso na Catalunha e com a filha que nasce na cidade de Barcelona em decorrência desta conjugalidade. Luz é, portanto, definida como brasileira, egressa do sistema prisional, grávida de um colombiano sentenciado por “agressão”, imigrante “ilegal”, com poucas relações com seu “país de origem”. O mau prognóstico de Luz decorre da visibilidade lançada sobre as relações que a fazem permanecer na Catalunha mesmo em situação irregular. Estas relações – anotadas cotidianamente pelos agentes penitenciários que registram o número do passaporte de Luz a cada visita feita a Carlos em

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Brians -, eclipsam seus laços com Francisca. Não por acaso, é no tocante de sua detenção em um CIE que Luz aciona vínculos familiares e de parentesco com Francisca os tornando, também, visíveis, legíveis e documentados pelos funcionários das instituições do governo catalão.

Cristal, por sua vez, trama legibilidade e ilegibilidade. Produz taticamente camadas de registros que a vinculam à família no Brasil, ao emprego formal na cafeteria de Barcelona e a desvinculam de seu namorado peruano preso em Brians. Cristal fala, escreve e veste “o que eles querem”. Aciona papéis que facilitam seu registro dentro do “bom prognóstico”. Papéis produzidos, contudo, por meio de seu trabalho no mercado sexual e no comércio de drogas. Cristal cria zonas de sombreamento sobre envolvimentos sexuais e afetivos que possam relacioná-la ao “mal prognóstico” e joga luz sobre os papéis que apresenta no guichê da assistente social penitenciária a qual, por fim, atesta positivamente acerca de sua liberdade condicional: seu “divórcio”, sua separação com a instituição prisional e sua permanência regular na Espanha.

Por outros meios, é o que também faz Marta. Desde um posto de emprego informal, escreve recibos que a colocam em uma rede de trabalho documentada. Recibos que tornam possível a comprovação das condições necessárias para sua permanência no Brasil enquanto espera Eduardo sair em liberdade. Além disso, Marta se esforça em mostrar que sua conjugalidade está vinculada a uma rede familiar na Espanha. Ela cria laços firmes com seu país de origem por meio de escritas de cartas e documentos que intersectam família, matrimônio e “amor puro”. Intersecções balizadas ainda, pela vontade de migrar para, se não o Brasil, a um nordeste que acolha a ela, a Eduardo e ao cachorro. Nas vontades que Marta narra para a vida em liberdade dela e de sua família, a prisão é elemento central para a mudança da vida. Se Cristal quer ficar na Espanha para trabalhar no mercado do sexo, Marta quer ficar no Brasil para viver tranquilamente seu amor com Eduardo. Amor familiar enredado pelo mercado transnacional de drogas.

“Querer ficar” no país em que se cumpre pena, mesmo depois da liberdade, é neste sentido, a transposição da prisão para a migração. Transposição tecida sutilmente nas narrativas de interlocutoras desta pesquisa que, pelos vínculos de afeto e/ou de trabalho travados dentro das penitenciárias, ressignificam seus projetos de liberdade; ressignificam a

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“prisão”. Afinal, a etnografia produzida através da prisão de estrangeiras(os) subleva o fato de que prisão também é migração. Fronteiras e muros podem ser borrados pela escrita que documenta relações e que registra destinatários e remetentes das “cartas de amor”.

Cartas e documentos registram e escrevem sobre as personagens expostas neste capítulo. São papéis que as fixam e/ou as permitem transitar. São camadas discursivas de legibilidade/ilegibilidade que, agenciadas segundo atributos e assimetrias de poder, produzem prognósticos a partir dos vínculos que, nas narrativas e trajetórias aqui descritas, são nomeados através da palavra “amor” e atravessados pela produção de documentação das relações. Documentação que possibilita o governo dos indivíduos pelas instituições de gestão das fronteiras e que, ao mesmo tempo, permite a criação de rotas alternativas à prisão. “Amor”, deste modo, pode ser pensado como parte da complexa trama que enlaça a produção de diferenças negociadas pelos sujeitos em meio aos processos de estado e de subjetivação dos vínculos e fluxos, cotidianamente, ressignificados. “Amor”, portanto, é pensado, aqui a partir dos seus usos êmicos e do modo como estes agenciam valores familiares e a legibilidade das relações nas negociações postas nos guichês de atendimento estatais. Pensado a partir do modo como tramas documentais de relações cotidianas possibilitam que os sujeitos sejam geridos e, por isso mesmo, criem escapes aos dispositivos de controle.

As histórias de Marta, Luz e Cristal falam sobre dispositivos de gestão das relações, suas agências e rotas de fuga. As trajetórias e narrativas expostas neste capítulo possibilitam desestabilizar noções pressupostas acerca de prisão, liberdade e fluxos. Por fim, Marta, Cristal e Luz escolhem permanecer em situações de tênue seguridade documental e financeira a atrelarem suas caminhadas ao enquadramento de uma total legibilidade e regularidade estatal. Liberdade, assim, relaciona-se aos usos do corpo, do dinheiro, do tempo e, também, aos usos feitos do “amor”.

A relação entre amor, prisão e liberdade foi se tornado central ao longo de todo o processo desta pesquisa. Em várias entrevistas a prisão aparecia como o espaço onde a “experiência do amor” foi efetivamente possível. Megan Comfort (2007), por sua vez, já chamou atenção para a relação estabelecida entre amor e prisão. Por meio das narrativas de algumas de suas interlocutoras, a autora aponta para como a prisão de seus maridos produz

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a “devoção romântica e o desejo na relação, transformando o encarceramento do homem num prolongamento daquilo a que Laura Fishman (1990: 162) chama de ‘namoro renovado’” (Comfort, 2003:1056). De fato, como Jacqueline de Lima (2013) elucida, a manutenção dos vínculos conjugais através da instituição penitenciária demanda “sacrifícios” que atribuem sentidos de valor à “mulher” e à “família” do “preso”. Nesse registro, os elos afetivos são rearranjados e, também, reforçados pela prisão. O “amor” ganha, aí, espaço significativo na vida e nas narrativas das pessoas em relação com as instituições penitenciárias.

Ao processo de escrita das cartas, mais do que ao de suas circulações, é conferido, portanto, o esforço da manutenção e da produção dos afetos. Os amores são vividos nos tempos da escrita, da espera, da leitura e releitura das correspondências que carregam perfumes, cores, desenhos. É por meio dos desenhos de Eduardo que Marta vive seu casamento. O homem bronzeado, a bomba e o bombom são os toques que alcançam a pele inalcançada pelas mãos de Eduardo. De mesmo modo, é com estes toques que Marta recheia a caixa que eu posto no correio. A comida é o enlace que a faz presente na cela de Eduardo. As cartas são as substâncias por meio das quais Marta sente o corpo do marido para quem, por sua vez, ela envia alimentos gostosos.

Cartas e “jumbos” documentam relações. Os registros de seus recebimentos e envios legibilizam vínculos atravessados pela prisão. Mas cartas e “jumbos” são, ainda, substâncias das relações que fazem ver. É neste nó que se faz a profusão de camadas que fluem das caixas, envelopes e carimbos que voam pelo correio de prisão a prisão: no elo que as linhas escritas tecem entre processos documentais e gozos, prazeres, saudades, lágrimas. Presenças dos corpos que se fazem na ausência. Afinal, Luz está ausente, ilegibilizada desde o calabouço do aeroporto, mas suas unhas calcam o isopor da bandeja e fazem fluir suas saudades até Francisca quem, em outra ausência, faz Luz presente a mim pelo filho de Carlos concebido na prisão99. Cartas e caixas e papéis são documentos e

99 Sobre processos documentais e presenças corporais que se fazem nas ausências, no caso, dos corpos

mortos, sugiro ver as análises que Adriana Vianna e Juliana Farias fazem dos sonhos, das intuições materializadas em dores nos corpos das mães de vítimas de violência policial no Rio de Janeiro (Vianna e Farias, 2011). Ainda sobre o tema Michael Taussig (1988) aborda as presenças nas ausências que os sonhos com pessoas mortas ou desaparecidas produzem nas narrativas de terror colhidas na Colômbia das décadas de 1970 e 1980.

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