Figura 1 – Bioma Amazônico – visão ampliada
FONTE: MINISTERIO DE AMBIENTE Y DE LOS RECURSOS NATURALES RENOVABLES, 1982 p
2.4. Planos de desenvolvimento da Venezuela 1 VIII Plan de la Nación “Gran Viraje”
2.4.2. IX Plan de la Nación “Un Proyecto de País”
Em 1993, o tradicional candidato da COPEI, Rafael Caldera (1969-1974 e 1994- 1999), chegou ao poder pela segunda vez, com a diferença que nesta eleição ele foi apoiado por uma coalizão de partidos políticos de corte “progressista” e por dissidentes da democracia-cristã; o novo agrupamento se denominou Convergencia46. Embora a situação
estrutural do país seguisse demonstrando fragilidade externa muito grande, várias tentativas de derrubada do governo e um alto nível de agitação social fizeram que o discurso liberal desabasse em favor de um de reformas progressivas e negociadas. Culminava formalmente a alternância entre AD e COPEI, que governara o país desde 1958.
No começo do novo governo de Caldera, ocorreu a crise do sistema bancário nacional de 1994, a partir da quebra do Banco Latino e a intervenção do Estado no mercado de financeiro para a recapitalização de várias entidades bancarias47. A partir desse incidente, foi
apresentado um documentado chamado Programa de Estabilización y Recuperación
46Uma disputa entre Oswaldo Alvarez Paz e Rafael Caldera provocou o afastamento do segundo do partido COPEI, que ele havia criado em 1946. A linha neoliberal do candidato para as eleições de 1988, Eduardo Fernandez, e a do mesmo Alvarez Paz foi amplamente criticada pelo Caldera, que decidiu conformar uma aliança de quadros políticos para fazer frente à ameaça sindical que representava o candidato da Causa R. Entre os que conformavam o partido pode-se mencionar o político Teodoro Petkoff, os economistas Asdrubal Baptista e Enzo del Búfalo, o militar e membro do MBR 200 Francisco Arias Cárdenas e o empresário Julio Sosa Rodriguez, entre outros.
47 Várias ações foram tomadas. Além do Banco Latino, foi capitalizado o Fondo de Garantías de Depósito (FOGADE) e o socorro às entidades bancárias afetadas somou Bs. 1,2 bilhão. Também foi anunciado o controle de câmbio para limitar a saída de divisas.
Económica, cujo objetivo principal era o controle da inflação, e sobre o qual foi
posteriormente desenvolvido a IX Plano da Nação.
O novo plano incorporou elementos ausentes no anterior, trazendo de volta o Estado como agente para a promoção de alguns objetivos que dessa vez vão além do estritamente econômico. A primeira parte do plano faz um breve diagnóstico da situação do país e do contexto internacional. Desde os primeiros parágrafos, é evidente que os formuladores são influenciados pelo discurso da globalização e sua dinâmica expansiva e enquadram o objetivo principal do plano nesse contexto.
La imagen-objetivo pretendida para el país a comienzos del siglo XXI se caracteriza económicamente por la consolidación de un aparato productivo competitivo, que innova y se moderniza constantemente, cuyo factor fundamental es el sector privado y que logra insertarse exitosamente en la economía global, relación de la cual deriva fundamentalmente su dinamismo (CORDIPLAN, 1996, p. 50).
O plano deveria supor a superação da situação de alta agitação social derivada da aplicação das políticas liberalizantes do Gran Viraje, que levou a duas tentativas de derrubada do governo lideradas por militares em 1992; a primeira delas, por Hugo Chávez, entre outros. Assim foram propostos cinco eixos derivados de uma suposta política de consenso: (1) a inserção internacional do país no contexto internacional, orientada pelas tendências da globalização, (2) a transformação do aparelho produtivo visando incrementar sua competitividade, (3) um projeto de “solidariedade social” que deveria se traduzir em maiores transferências de parte do governo na forma de programas sociais, (4) a transformação do sistema educativo para uma maior capitalização dos recursos humanos, e (5) a reforma do Estado e o aprofundamento do processo de descentralização (CORDIPLAN, 1996, p. 52).
Em 1996, entretanto, a situação econômica do país estava crítica; a inflação havia chegado a níveis nunca antes vistos na história venezuelana, de 103,9% ao ano e mostrava tendência ascendente. Como consequência desse quadro inflacionário o investimento privado foi reduzido, se contraiu o consumo e a taxa de desemprego chegou a 12,4%. O PIB caiu 1,6% em relação ao ano anterior devido, sobretudo, à contração das atividades não petroleiras (3,6%) causada por uma crise bancária vivida pelo país desde 1994 (BCV, 1996). Caldera, então, nomeou Teodoro Petkoff ministro do planejamento e, em comum acordo com o FMI, deu início a um conjunto de medidas econômicas de austeridade: eliminou-se o controle de câmbio, retornando à livre conversibilidade do Bolívar, incrementou-se o preço da gasolina, foram decretados novos impostos, iniciaram-se novas privatizações de empresas públicas e
retomou-se a abertura petroleira. Ou seja, se tratavam de medidas muito parecidas às anteriormente tomadas por Carlos Andrés Perez, em seu segundo governo, e rechaçadas por Caldera no período eleitoral.
ESTRATÉGIA MACROECONÔMICA
A estratégia macroeconômica resumia os pontos previamente apresentados. Os objetivos principais eram corrigir o desequilíbrio externo e garantir a estabilidade do câmbio, do nível de salários, do nível de preços e das taxas de juros. Nesse sentido, existe um paralelismo com o VIII Plano da Nação na forma como é concebido o processo de crescimento econômico, alavancado em um setor privado dinâmico e em um ambiente de estabilidade econômica. Segundo os cenários manejados pelos formuladores do plano, a inflação deveria diminuir,
El tejido industrial que se creará en las actividades exportadoras, constituidas por los Grupos Líderes de Actividad y las cadenas de globalización inducirá un crecimiento sostenido de baja inflación, a través de la mayor participación del sector industrial moderno en la formación del PIB (CORDIPLAN, 1996, p. 73)
O papel do Estado é um dos pontos de mais controversos do IX Plano da Nação. Ao longo da seção dedicada ao tema, são estabelecidas suas atribuições chaves no processo de desenvolvimento de orientador estratégico, de regulador e supervisor da estabilidade das variáveis econômicas e de administrador eficiente(CORDIPLAN, 1996, p. 73).
Especial destaque merece a estratégia de privatização das empresas públicas, a qual seria acompanhada de uma lógica fiscal de racionalização do gasto, assim como de aumento da tributação sobre a renda não petroleira.
La privatización de empresas públicas, la prestación de servicios públicos bajo el régimen de concesión y la integración de asociaciones estratégicas con el Estado en las actividades de hidrocarburos son las vías a través de las cuales se materializa la desestatización de la economía (CORDIPLAN, 1996, p. 77).
No que diz respeito ao tema deste capítulo, em maio de 1994 foi apresentando um informe sobre a situação das empresas de Guayana, redigido por uma comissão especial designada por Rafael Caldera. O documento, conhecido como “Informe Baptista”, realizou um diagnóstico preliminar da condição das empresas, assim como do conglomerado administrativo CVG, e seria utilizado como insumo para a adoção de políticas pelo governo. O balanço contábil da CVG de 1994 mostrava um déficit de Bs. 4 bilhões, especialmente
derivado das empresas de alumínio, que sozinhas apresentavam uma dívida de Bs. 25 bilhões. Os setores que apresentavam superávit eram a indústria elétrica, principalmente Electrificación del Caroní C.A. (EDELCA), e as indústrias do ferro e do aço (CORONEL, p. 35).
O índice de retorno sobre o custo do capital fixo (depreciação) e circulante envolvido na produção nos últimos cinco anos era negativo, gerando perdas de quase Bs. 4 bilhões (cotação de 1991) (CORONEL, p. 70). O problema do déficit nas empresas básicas derivava de sua condição de receptoras de transferências do governo central; agravado quando o orçamento público se reduziu, por conta da queda dos preços do petróleo e da abertura petrolífera, as empresas se estagnaram.
Como estos presupuestos deben ser “equilibrados” (o da CVG) para ser aprobados por la Oficina Central de Presupuesto, el método tradicional en CVG, como en todos los organismos del Estado, era el de sumar los egresos y luego, calcular los ingresos necesarios para equilíbralos, aun cuando se tuviera certeza de que tales ingresos no
te materializarían (CORONEL, p. 37, grifo meu).
Entre as principais sugestões do informe estava a privatização das empresas básicas pela venda de suas ações, tomando em conta as dívidas contraídas, assim como a diminuição da participação da CVG nas atividades de operação, restringindo-se às funções administrativas, que deveriam ser compartilhada com a nova gerência das empresas. Da mesma forma, o papel da CVG na gestão das políticas de desenvolvimento deveria ser reduzido, ficando apenas com funções de promoção do desenvolvimento, e não como órgão executor.
A contraparte desse processo de privatizações era a política de captação de capitais internacionais.
El uso del capital externo para la transformación productiva de la economía será promovido para compensar la insuficiencia del ahorro interno (…) en el mediano plazo, nuestro país se convertirá en un foco muy atractivo para la inversión directa extranjera en sectores de exportación, dadas las ventajas que ofrece en sectores de gran rentabilidad (…) Ya se han abierto a la inversión privada, nacional y extranjera, diversos sectores cuya inversión estaba restringida al sector público, como es el caso de la industria petrolera y petroquímica. El programa de privatización del Estado Venezolano es muy amplio en las ramas industriales de aluminio, acero, transportes y comunicaciones… (CORDIPLAN, 1996, p. 83)
POLITICA EXTERNA
Quatro princípios fundamentais deveriam orientar a política externa: o fortalecimento da soberania nacional, a indivisibilidade da política interna e externa, a flexibilidade de ação internacional e a cooperação e solidariedade internacional. Programaticamente, alguns princípios mantém uma continuidade daqueles formulados durante o quinquênio anterior. A prioridade do Plano é a formulação de políticas para a captação de fluxos de capitais e mercadorias derivado da crescente globalização, embora seja tratada também a integração regional. Da mesma forma, se estabelece uma estratégia de industrialização orientada aos mercados externos, privilegiando uma inserção externa primário-exportadora (CORDIPLAN, 1996, pp. 61-63). “La globalización define para Venezuela un marco de tendencias cuya
orientación trasciende a las decisiones internas de nuestro país, dado nuestro moderado nivel actual de desarrollo y relativo retraso que hemos tenido con respecto a las corrientes innovadoras” (CORDIPLAN, 1996, p. 36)
Por um lado, enfatizaram-se as relações comerciais como um dos principais âmbitos da política externa do país. Nesse caso, a participação da Venezuela em vários espaços de integração regional deveria alavancar o poder de barganha nos espaços econômicos ampliados, representados pelos mercados dos Estados Unidos, Japão, a Comunidade Europeia e Canadá (CORDIPLAN, 1996, p. 83). Essa agenda estaria marcada pelo regionalismo aberto cepalino, no qual os países deviam aproveitar a oportunidade derivadas da concorrência nos processos de integração com o duplo propósito de dinamizar os setores mais importantes de economia e melhorar os termos das negociações em espaços multilaterais. “El ‘regionalismo abierto’, parece conciliar la interdependencia resultante de los acuerdos de integración con las políticas de apertura internacional tendentes a elevar la competitividad a nivel global” (CORDIPLAN, 1996, p. 39)
(...) el país debe retomar el activismo político y económico que tuvo históricamente, para promover y consolidar su participación en las instancias multilaterales… Venezuela debe profundizar sus relaciones con los países latinoamericanos, contribuyendo a mejorar la capacidad de negociación del conjunto en materias comerciales; debe desarrollar una política fronteriza con sus vecinos en el marco de la integración para el desarrollo y mantener su acercamiento hacia otros bloques regionales en términos de cooperación y de mutuo beneficio (CORDIPLAN, 1996, p. 58)
Um inciso adicional aponta a relevância do fator cultural como elemento que passaria a priorizar as ações tendentes á construção de espaços de integração econômica, nesse caso a
hispanidad assim como os nexos com os países da América Latina. Outro aspecto no qual a
concepção das linhas de ação da política externa é diferente é no âmbito da integração regional. A seção dedicada a ela começa realizado uma breve crítica ao viés economicista dos processos de integração prévios, e resgata o âmbito da ação política como impulso necessário para a integração “Venezuela reconoce que la integración económica no puede lograrse
exclusivamente a través de medidas estrictamente económicas pues estas no son suficientes para asegurar el progreso y bienestar de los pueblos” (CORDIPLAN, 1996, p. 66)
Dessa forma, as linhas gerais para a integração regional estava divididas em três segmentos. Em relação à Comunidade Andina o objetivo era aprofundar os esforços de coordenação de políticas macroeconômicas e a fixação de metas e preços para sua implementação, procurando assim destravar a situação de estagnação do processo de integração, dando ênfase na redefinição do papel do Parlamento Andino. Sobre o Mercosul, buscava-se avançar nas negociações para a criação da Zona de Livre Comércio da América do Sul junto à CAN e mencionava-se a possibilidade da entrada da Venezuela no Mercosul como membro pleno. Por fim, no que diz respeito ao Grupo dos Três (Venezuela, Colômbia e México, cuja criação foi aprovada em 1994, em Cartagena de Índias, e começou ter vigência em 1995), implicava uma aproximação para os mercados norte-americanos, logo após a entrada em vigor do Nafta. Restrito quase que exclusivamente ao âmbito comercial, essa iniciativa estava associada ao contexto da Cúpula de Miami de 1994, ponto que é salientado no plano da nação como uma estratégia de integração hemisférica, que devia orientar a partir de esse momento as relações comerciais com os países da região(CORDIPLAN, 1996, p. 69).
Venezuela apoya la apertura comercial internacional y persigue, a través de ella hacerse complementaria y compartir su crecimiento con sus socios comerciales y optimizar los beneficios de los flujos internacionales de tecnología y de capitales. Hacia esta dirección se dirigirán sus esfuerzos dentro de la OMC, como vía para garantizar el establecimiento de principios, normas y regulaciones que deben regir el comercio internacional, la reducción progresiva de aranceles y medidas nos arancelarias que puedan obstaculizar el comercio entre países y la solución de controversias que deriven de las relaciones comerciales (CORDIPLAN, 1996, p. 63)
POLÍTICA ENERGÉTICA
A inserção externa regional se baseava na hipótese da “autossuficiência energética hemisférica”, papel que Venezuela deveria desempenhar partindo do processo de abertura petroleira. Dentro dessa concepção, a Venezuela deveria desempenhar o papel de fornecedor de petróleo para os países vizinhos, contribuindo para a diminuição do gap existente entre as
economias mais atrasadas e aquelas mais dinâmicas (CORDIPLAN, 1996, p. 65).
Internamente, a abertura petrolífera teria um papel fundamental no planejamento estatal. O novo setor petroleiro baseava-se numa estratégia de expansão dos investimentos da empresa por dez anos, tempo no qual empresa seria reestruturada para ampliar a participação de capitais internacionais e aplicar uma nova política de abertura consequente com a ideia popularizada no momento de que o petróleo era “uma commodity mais”.
No nível externo, a diplomacia petroleira comercial deveria ser o cartão de visita do país.
Finalmente, Venezuela ha abierto su sector petrolero al capital internacional, con el propósito de consolidar al país como uno de los seis grandes productores mundiales del siglo XXI, y demostrar que somos efectivamente una economía abierta (CORDIPLAN, 1996, p.
65)
El rol de la industria petrolera en la estrategia de inserción de Venezuela en el proceso de globalización, está enmarcado dentro de una postura de largo plazo de nuestro país (…) de defender un escenario de precios de competencia del petróleo, con la finalidad e favorecer el crecimiento de la demanda y desincentivar la incursión de productores marginales (CORDIPLAN, 1996, p. 115)
Existem elementos que apontam para um aumento da autonomia de gestão de uma empresa pública e o divórcio da mesma com os objetivos de desenvolvimento. A flexibilização da tributação fez com que fosse limitada, na fase de exploração, a apenas 1% do valor total de venda e, uma vez consolidada a produção, seriam restritos a 16%. O regime fiscal não deixava de ser complexo e permitia que houvesse escasso controle sobre as atividades do setor, fortalecendo a percepção de que a empresa pouco contribuiria para o projeto de desenvolvimento e industrialização proposto.
Em suma, o programa de Rafael Caldera, que se apresentava como oposição às políticas do segundo governo de Andrés Pérez, foi deixado de lado a partir de 1996, momento que coincidiu com a apresentação da Agenda Alternativa Bolivariana, por Hugo Chávez. A CVG perdeu capacidade produtiva e de execução de projetos. A dependência da captação de financiamento internacional poderia levar ao descolamento entre os objetivos de integração propostos e a prática. Há menções à articulação com os países da OPEP, mas certo descrédito em relação ao próprio protagonismo da instituição. A política externa é pautada pelo acesso a mercados, mas aparece uma perspectiva regional e multilateral, incluindo o fortalecimento da Comunidade Andina (CAN) e a aproximação desta com o Mercosul. Nota-
se também que é dada importância aos componentes culturais, que vinculariam a Venezuela a toda a América Latina.
No que diz respeito aos interesses desse trabalho deve ser ressaltada, dentro da política regional, a aproximação com o Brasil. O plano destacou as possibilidades de integração com o Brasil, particularmente entre as regiões Guayana e Amazônica.
El norte amazónico de Brasil (...) se encuentra separado del sureste industrializado de ese país por distancias continentales, mientras que Brasil se ha puesto como meta de alta prioridad el desarrollo de esa región. La complementariedad natural entre la misma y la región de la Guayana Venezolana, contribuye a que cada uno de nuestros países asuma un lugar muy significativo dentro de la estrategia de política exterior del otro (CORDIPLAN, 1996, p. 66).