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Júlia: ( ) o que eu vejo ( ) um pouco misturado com o trabalho que eu

OS ESTUDOS SOBRE O TRABALHO

04. Júlia: ( ) o que eu vejo ( ) um pouco misturado com o trabalho que eu

faço (...)

A partir de sua experiência, portanto, no relacionamento com os pais de seus pacientes, na Clínica da Derdic, e não apenas na experiência deste grupo, a protagonista destaca que essa estabilidade deve ser renormalizada de acordo com a relação estabelecida entre o fonoaudiólogo e os diferentes pais.

Ainda no mesmo enunciado, destaca-se no fragmento do enunciado 04 a diferenciação feita por Júlia sobre os pais que, representados no enunciado por gente, preferem ouvir essas explicações técnicas sobre a perda auditiva, e os pais, representados no enunciado por aqueles, que preferem não ouvir essas explicações.

Trata-se, então, de uma renormalização do uso de si pelos outros, realizada a partir de sua experiência no relacionamento com os pais e que se torna, assim, uma norma internalizada pela articulação entre o saber profissional da protagonista sobre a perda auditiva, e a relação individualizada de Júlia com cada um dos pais:

04. Júlia: (...) o que eu vejo (...) um pouco misturado com o trabalho que eu faço sempre que você fala (...) tem gente [pais] que (...) pede para ouvir mais e tem

aqueles [pais] que é (...) muito difícil no primeiro momento porque remete a

tudo o que já passou...

Ainda no mesmo enunciado (04), Júlia prossegue, como destacado no fragmento a seguir, estabelecendo uma diferença entre esses pais. Ela percebe a necessidade de esclarecer informações mais técnicas aos pais de crianças as quais estão em atendimento há mais tempo e que ainda têm uma expectativa pela reversibilidade da perda de audição:

04. Júlia: então crianças que já estão em atendimento durante um tempo muito grande que (...) sempre existe o porquê (...) e às vezes quando a gente dá uma

explicação um pouco mais técnica a atenção é sempre muito voltada

principalmente assim pra esses pais...

Júlia percebe, portanto, que diante da norma, o esclarecimento das questões mais

técnicas é dirigido, principalmente, aos pais que, mesmo tendo os filhos atendidos há mais tempo, permanecem com o questionamento relacionado à irreversibilidade da perda auditiva,54 passando, na experiência da protagonista, a ser uma renormalização. O discurso apresenta-se distanciado do momento de enunciação (plano não embreado) e, portanto, é possível afirmar que tal renormalização passa a ser uma norma internalizada na atividade da protagonista deste trabalho:

QUADRO 11 – Plano não embreado Enunciador

genérico

Presente não-dêitico Fragmento do enunciado 04

-a gente - dá - é

(...) às vezes quando a gente dá uma explicação um pouco mais técnica a atenção é sempre muito voltada principalmente assim pra esses pais...

b) A importância da explicação sobre o Programa de Inclusão Escolar

Ao concordar com a Declaração Mundial de Educação para Todos, firmada em Jomtien (Tailândia, 1990), e expandida com a apresentação dos postulados de

Salamanca (Espanha, 1994),55 o governo brasileiro, optou por conceber um sistema

educacional inclusivo. Mostrando-se em consonância com os princípios apresentados em Salamanca, na Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais:

Acesso e Qualidade, o governo brasileiro prevê o acesso de pessoas com necessidades educacionais às escolas regulares e, também, a responsabilidade das escolas nessa integração. Esses princípios devem partir de uma pedagogia centrada na criança, capaz de atender às necessidades especiais.

Sob esse foco, as políticas educacionais devem levar em conta as diferenças individuais e, especialmente, com relação às pessoas com perda auditiva, destaca-se a importância da língua de sinais como meio de comunicação. Deve-se, assim, assegurar o acesso dessas pessoas à língua de sinais de seu país. A escolarização de crianças em escolas especiais – ou em classes especiais, na escola regular – deveria ser considerada apenas nos casos em que a educação, nas classes regulares, não seja capaz de satisfazer as necessidades educativas ou sociais.

Esta investigação, com base na abordagem ergológica, pretende refletir sobre o trabalho da protagonista com pais de crianças com perda auditiva, levando em consideração os três pólos: político, econômico e dos usos de si. Assim sendo, o pólo dos usos de si sofre influência dos dispositivos estabelecidos na Declaração de Salamanca que, no pólo político, propõem o estabelecimento de medidas para as

55 A Estrutura de Ação em Educação Especial, adotada pela Conferência Mundial em Educação Especial,

organizada pelo governo da Espanha em cooperação com a Unesco e realizada em Salamanca em junho de 1994, teve como objetivo informar as políticas e as ações governamentais a respeito da implementação da Declaração de Salamanca sobre os princípios e as práticas em Educação Especial.

políticas educacionais de cada país, assegurando, desse modo, a igualdade de oportunidades e a valorização da diversidade no processo educativo.

O trabalho do fonoaudiólogo, portanto, sofre influências de determinações decorrentes do pólo político, visto que as crianças, pacientes desses profissionais, vêm sendo, nos últimos anos, transferidas para escolas regulares. Desse modo, esse profissional depara, muitas vezes, com dúvidas dos pais, com relação ao programa de integração que vem sendo implantado.

Na interação com os pais deste grupo de discussão, destacada nos Trecho 12, Júlia percebe a necessidade de explicar o Programa de Inclusão Escolar (Trecho 15):

TRECHO 12 (...)

Mônica: falam... falam na televisão que os professores estão se preparando pra receber as crianças... mas até agora nada... pelo menos..

[

Maria: mas eu também acho que é pras crianças que já têm um bom preparo né?

TRECHO 15

Júlia: como tá começando a ser implantado... a cidade é muito grande... ainda não são todas as escolas que estão tendo... né?... esse tipo de acolhimento56... mesmo pra ter um

acolhimento o professor precisa ter um prePAro especiAL... e não são todos os

professores que têm... mas a tendência pro fuTUro é que não... é que a escola especial... né?... as escolas que têm aquelas salas especiais não existam mais e tanto o aluno (comum tanto com) um tipo de dificuldade possa ser inserido dentro do contexto... dentro das atividades normais desde que tenha um professor preparado pra atender essas atividades... essas necessidades...

Diante dessa explicação de Júlia para o grupo de discussão (Trecho 15), Carla recupera a história de sua filha, destacado no Trecho 17:

56 Acolhimento é um termo utilizado na Declaração de Salamanca, entretanto, diferentemente do conceito

TRECHO 17

Carla: ...é... o ano passado... tinha... é... por ordem do governo... não poderia mais existir sala especial... a classe especial... era pra pegar todos os surdos e dividir nas salas

conforme é... o ano que eles estivessem cursando... mas... pra Carolina não foi bom...

Na confrontação com as imagens, Júlia recupera a fala de Carla, fazendo a citação no plano embreado:

14. Júlia: (...) ela [mãe] falou uma coisa muito importante assim... (...)

Ainda nesse enunciado, o discurso passa para o plano não embreado e há o emprego do enunciador genérico (a gente). Como destacado no fragmento a seguir (enunciado 14), Júlia expressa uma experiência que vem sendo vivenciada pelos profissionais desse campo profissional:

14. Júlia: (...) ela [mãe] falou uma coisa muito importante assim... que a gente

esbarra às vezes em algumas coisas algumas situações na atuação porque... de

repente essa a história da... inclusão virou assim vamos acabar com a escola especial...

QUADRO 12 – Plano não embreado Enunciador

genérico Presente não-dêitico Fragmento do enunciado 14

- a gente

- esbarra

(...) ela [mãe] falou uma coisa muito importante assim... que a gente esbarra às vezes em algumas coisas algumas situações na atuação porque... de repente essa a história da... inclusão virou assim vamos acabar com a escola especial...

c) A importância do acolhimento aos pais

Ao repensar o papel de cada um dos envolvidos no processo terapêutico (criança, pais e o próprio terapeuta), o fonoaudiólogo percebe um relacionamento com a família

no qual haja um espaço para que os sentimentos e as emoções dos pais possam ser expressos (Bevilacqua, 1985; Bevilacqua & Balieiro, 1984). Desse modo, valorizando os canais de escuta e de compreensão (Franco, 1992; Holzheim et al., 1997), o fonoaudiólogo procura auxiliar na organização das histórias da família (Franco, 1992).

Na confrontação das imagens, há dois momentos nos quais Júlia comenta o acolhimento. O primeiro deles, relacionado à dificuldade de se falar sobre o diagnóstico,57 a protagonista comenta a necessidade de o profissional dar o acolhimento aos pais:

07. Júlia: (...) pra mim assim dar diagnóstico é muito difícil... é complicado