CAMPEÃODE FUTSAL, 2002
Agora, sim, estava explicado por que aquela taça tinha um lugar de destaque. Era uma relíquia, já que não havia orgulho maior para a Engenharia do que vencer uma final de futsal contra a Medicina.
No mais, era no mínimo curioso a obsessão que os engenheiros nutriam por essa palavra… “morte”.
Sacudi a cabeça e me aproximei de uma garota que estava concentrada em dedilhar seu violão.
– Dá licença? – falei. – O Marcos Porto está por aqui?
Quando a garota ergueu a cabeça das cordas de nylon e me viu ali parada (com outro PPR ao meu lado, ainda por cima), desviou os olhos bem depressinha e, num tom de quem estava louca para se livrar de mim e de Artur, respondeu:
– Sala de sinuca. É só seguir em frente.
Antes de entramos na sala, alertei Artur:
– Fica na sua, tá? Se controle. Não vai fazer gracinha e estragar o plano.
– Como assim? Que plano?
– Chhh.
Marcos estava sozinho, de costas para a porta, recurvado sobre a mesa de sinuca. Mirava a bola branca com o taco de madeira posicionado nas mãos.
– Marcos? – chamei, num tom amigável para experimentar o clima.
Ele fingiu não me ouvir e simplesmente finalizou a tacada.
As bolas deslizaram pelo tapete verde e uma delas caiu certeira no buraco da caçapa.
Então se virou na direção da minha voz.
– Pikachu. – Ele tombou de leve a cabeça, a testa franzida. – Que surpresa.
– Ah, hum, oi.
– Posso continuar te chamando de Pikachu ou corro o risco de tomar uma fumada da reitoria? O que, aliás, não seria um problema para mim, já que fumo tudo que aparece na minha frente, sem preconceitos.
Ele riu sozinho da piada infeliz. Seus olhos se desviaram rapidamente para Artur.
– E aí? – disse Artur, secamente.
Marcos grunhiu um oi com desprezo e voltou a olhar para mim:
– Sabe, gatinha, você vai quebrar a cara se continuar andando com esse traidor. Ele traiu a Engenharia. Imagina só o que ainda é capaz de fazer.
– Da minha vida cuido eu – respondi.
Marcos levantou as sobrancelhas, surpreso com o que devia considerar uma resposta bastante ousada. Então nos deu as costas novamente, concentrando-se outra vez na mesa de sinuca. Sujou a ponta do taco com giz e começou a conversar comigo sem fazer contato visual:
– A que devo o prazer dessa visita tão ilustre, Pikachu? Se veio atrás de uma Poção do Amor, vou logo avisando, com o Agressílico em falta no mercado, o preço da Poção inflacionou, se entende o que quero dizer.
– Vejo que você está bem informado – falei. – Já sabe das doses cavalares de Agressílico encontradas na mistura que quase matou a Mariana.
– Se você está insinuando que eu tenho alguma coisa a ver com isso – disse, sem olhar para mim –, sinto decepcioná-la.
Participei da preparação do trote e posso assegurar que, pelo menos na minha presença, nenhuma gota de Agressílico foi adicionada às misturas. Seria o cúmulo do desperdício, se quer saber minha opinião. Você sabia que, com apenas duas gotinhas de Agressílico, consigo preparar Poção do Amor para uma cambada de viciados?
– Que coisa, hein?
– Sinceramente, gatinha – disse Marcos. – Eu não tenho culpa se Mariana é tão azarada. E tão fraca.
– A Mariana não é fraca – rebati, me esforçando para não perder o controle da voz. Odeio conversar com quem não está olhando para mim. – Qualquer pessoa poderia ter morrido naquela situação. Ela só não morreu porque recebeu socorro imediato.
– Não é à toa que você virou a queridinha do reitor, não é mesmo? – Marcos se posicionou sobre a mesa de sinuca, encaçapando mais uma bola.
– Caramba, Marcos! – gritei, meio nervosa. – Será que você poderia olhar para mim?
Ele então encostou o taco na mesa e olhou para mim.
– Pronto, sou todo ouvidos! – disse ele, cruzando os braços.
– Mas é melhor desembuchar rápido, Pikachu. Me dá nojo ficar olhando para a cara do Cantisani.
Artur rosnou, ameaçando partir para o ataque. Mas levantei a mão para ele em sinal de advertência, para que sossegasse e continuasse quietinho que a bola estava comigo. Eu ia balançar a rede, não ia demorar. Ia provar para aqueles dois que eu tinha potencial!
Para minha surpresa, Artur me obedeceu, sossegando o facho.
Eu limpei a garganta e falei:
– As garrafas desapareceram misteriosamente depois do trote.
– Quanto a mim – disse Marcos –, não faço a menor ideia de onde elas foram parar.
– O negócio é o seguinte, Marcos – falei na lata –, preciso de uma amostra da mistura azul.
– Você é surda ou o quê? Já disse que não sei onde as garrafas estão.
– Mas sabe onde fica o Campo de Putrefação – falei. – Mais que isso, você enterrou algumas garrafas antes do trote.
– E você está muito bem informada para quem acabou de chegar na UPN, caloura. É melhor cortar logo essas asinhas.
– O Campo de Putrefação não é segredo para ninguém, é? – lembrei a ele. – Onde ele fica, isto sim, é um mistério. Não para você, é claro, o atual Mestre do trote da Engenharia.
– Sem chance! – disse ele, sacudindo a cabeça. – Não vou te dar as coordenadas do Campo de Putrefação, gatinha, se é isso que está querendo.
– Eu não quero as coordenadas. Quero que você desenterre as garrafas para mim.
– Espera aí… você… você quer? Que eu desenterre as garrafas? – Ele caiu na gargalhada, curvando o corpo e batendo as mãos nos joelhos. – Essa é boa! Sério, Pikachu, vou passar mal de tanto rir. Você é muito engraçada…
– E não é só isso, não – continuei, ignorando as risadas. – Também quero o Livro Sagrado do Trote, cuja existência também não é segredo para ninguém.
– Pode dar meia-volta e sumir daqui, Pikachu – disse ele, pegando o taco de sinuca e, mais uma vez, dando as costas para mim. – Regra de sobrevivência número um de Ponto Sem Nó – disse ele, posicionando o taco –: respeitar a realeza. Eu sou o Mestre. Você não passa de uma caloura.
E foi aí que, tomada de ódio, eu fiz o que fiz.
Mesmo sendo vários centímetros mais baixa e muitos quilos mais magra que ele, avancei enfurecida para cima de Marcos e o segurei pelo colarinho de sua Lacoste listrada. Pude sentir Artur se movimentando atrás de mim.
– Garota bravinha, muito excitante! – disse Marcos, me
provocando. Ele estava tão perto que pude sentir seu hálito no meu rosto. Também senti seu perfume, que, embora cheirasse a coisa cara, de jeito nenhum agradava minhas narinas. – Sabe, caloura, se você me beijar agora, posso até mudar de opinião e te entregar o livro neste instante.
– Presta atenção no que vou te dizer – falei, olhando bem na cara do playboy. – A qualquer momento serei chamada a prestar dois depoimentos. Um na reitoria, outro na polícia.
Então eu fico aqui pensando que é melhor você colaborar comigo ou eu posso complicar a sua vida, seu porco chauvinista.
Certo. Eu não me orgulho de ter chamado Marcos de porco chauvinista, embora ele parecesse um, com aqueles olhos empapuçados pelas noites de baladeiro maldormidas.
Mas eu podia tê-lo xingando de algo mais… moderno, por assim dizer.
– Ah, é? – zombou ele. – E como é que uma reles insignificante como você poderia complicar a minha vida, posso saber?
– Depois de ter salvado a vida da Mariana, posso dar o depoimento que eu quiser que todo mundo vai acreditar em mim. Sem mencionar que você fugiu do Bloco 14 assim que viu a garota desmaiada no chão. E omissão de socorro, meu filho, dá cadeia.
Tive o prazer de ver a expressão de Marcos se fechar como planta dormideira.
Então, num movimento brusco, eu o soltei. Ele estava tão abalado, por ter sido pego de surpresa com a perspicácia da minha ameaça, que cambaleou de leve para trás, apoiando-se na mesa de sinuca.
– Certo – concordou, por fim, ajeitando a gola da Lacoste. –
Só preciso de um tempo. Até terça-feira depois do feriado de 7 de setembro.
– Não. Até sexta-feira antes do feriado – falei, já saindo da sala de sinuca. – Vou viajar no feriado.
Artur e eu não trocamos uma palavra enquanto nos dirigíamos apressados até o estacionamento. De minha parte, eu não teria dado nem tchau para ele. Com a adrenalina ainda fervendo nas veias, eu estava louca para acelerar minha bicicleta contra o vento e extravasar.
Soltei a bicicleta do paraciclo e enfiei a bolsa, a corrente e o cadeado na cestinha. Coloquei o capacete e subi no selim, o pé direito ainda firme no chão.
Mas de repente Artur estava ali, na minha frente, as pernas fortes prendendo a roda dianteira da bicicleta, as mãos em cima das minhas no guidão, me impedindo de avançar.
– O que foi aquilo? – Ele quis saber, sorrindo franca e abertamente. – Quer dizer… o que foi aquilo?
– Aquilo o quê? – falei.
– Lá dentro…
– Muito simples, meu caro – eu disse –, se o Marcos nos trouxer as garrafas então ele está mais envolvido nessa confusão do que a gente imagina, já que nós mesmos desenterramos o Campo de Putrefação e sabemos que não tem mais nada ali. O que nos levaria a supor que o próprio Marcos desenterrou as garrafas. Por outro lado, se ele não aparecer com garrafa nenhuma, o que sinceramente é o que eu acho que vai acontecer, ele vai ficar tão assustado com o fato de ter descoberto que o Campo de Putrefação está vazio que vai acabar colaborando com a nossa investigação. Não que ele já não fosse colaborar de qualquer maneira, pois, nas duas hipóteses que acabei de descrever, ele ainda vai botar na nossa
mão o Livro Sagrado do Trote, que, no momento, é o que mais nos interessa. O Marcos se sentiu ameaçado, deu para ver na cara dele. Está com medo do meu depoimento.
– Você é maravilhosa! – disse Artur, estupefato, os olhos fixos no meu rosto. – Simplesmente maravilhosa!
Engoli em seco.
– Posso te fazer uma pergunta? – falei, depois de um tempo.
Ele assentiu.
– Por que, afinal de contas, você desobedeceu às regras do trote da Engenharia? Por que jogou a droga do líquido na Mariana e não em mim?
Ele pensou por um momento. Depois confessou:
– Porque eu não queria ser responsável por outra humilhação na sua vida. Já basta o arrependimento de ter te humilhado uma vez.
– Mas nós nos odiamos, afinal.
– Fale por você.
Então Artur me deu as costas e saiu andando em direção ao Honda preto, as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans.
6.
Fale por você…
Fale por você…
Fale por você…
– “Fale por você…” – repeti pela milésima vez. – Na boa, Angélica, o que você acha que ele quis dizer com isso? Aquele fumante filho da mãe…
– O Cantisani é filho de um deus grego, isso sim – respondeu ela, no intervalo de uma respiração entrecortada.
– Deuses gregos não fumam.
Depois de quarenta minutos de atividade física alternada entre corrida e caminhada, sem pausa para beber um isotônico ou secar o suor escorrendo da testa, Angélica e eu tomamos fôlego e aceleramos para a última volta na pista de atletismo da faculdade de Educação Física. Em meio ao caos que se instalara em minha vida, era revigorante me exercitar, botar os bofes para fora.
Como se não bastasse ter de estudar feito uma condenada (sério, eu nunca tinha estudado tanto na minha vida, nunca tinha precisado estudar tanto), eu agora ainda gastava boa parte do meu tempo livre fritando meus neurônios junto aos de Artur numa investigação infrutífera, com base na lista dos dez
ex-Mestres do trote de que Guilherme conseguira se lembrar.
Até na última seção da última estante da Biblioteca da Engenharia, Artur e eu tínhamos ido parar, em busca de publicações relacionadas à história da nossa faculdade, que, pela camada de poeira que cobria os títulos, ninguém além de nós parecia interessado em conhecer.
– Atchim!
– Saúde! – respondera Artur na biblioteca, oferecendo-me um lenço de papel. Na verdade, oferecendo-me a lista elaborada por Guilherme.
– Obrigada. – limpei o nariz no papel. Não ia fazer falta. Eu já sabia de cor e salteado todos os nomes da lista. – Mas saúde é um privilégio. Já fico satisfeita de estar viva.
Artur e eu tínhamos esgotado nossas pesquisas na internet (ok, isso é um exagero). Tínhamos conversado com um sem-número de pessoas e até nos aventurado em uma vã perseguição detetivesca, quando decidimos seguir um dos Mestres por Ponto Sem Nó.
Até aquele momento: zero de informações suspeitas.
– Se eu fosse você – recomeçou Angélica, quando passamos a caminhar pela pista, nos minutos finais –, eu contaria a verdade pro Nico. Ele não vai ficar nada feliz quando descobrir sozinho que você anda se encontrando com o Cantisani às escondidas.
Para Angélica, a propósito, eu havia escancarado a verdade dos últimos acontecimentos na noite de terça-feira, quando ficamos ligeiramente embriagadas à nossa maneira, assistindo a Gossip Girl. Ou seja, bebendo destilados baratos, comendo amendoim colorido, conversando sobre as cenas à medida que rolavam na tela e comparando a vida glamorosa de Blair e Serena às nossas próprias.
Angélica e eu não vestíamos Prada, não andávamos de limusine, não morávamos no Upper East Side ou no Jardim Paulista, como nossas blogueiras fashionistas prediletas. Nas nossas veias, não corria sangue azul.
Mas concluímos que, com nossas cabeças de ferro e nossos valiosos diplomas da UPN embaixo do braço, havia, sim, uma luz no fim do túnel, uma chance de um dia na vida batermos perna no shopping da capital com um Louboutin de mil dólares em cada pé.
Voltando ao assunto, Angélica não acreditava nem um pouco na hipótese de que a mistura contaminada com Agressílico se destinava à minha pessoa (“você é muito boazinha para ser assassinada”).
– O Nico não tem direito de me cobrar nada, Angélica – falei, depois que saímos da pista de corrida e nos hidratamos com meio litro de água. – Ele não é meu namorado.
– Só porque você não quer – disse ela, enquanto entrávamos no vestiário feminino. – Aliás, por que mesmo você não quer?
– Dá para ser mais discreta? – Olhei em volta.
O vestiário estava infestado de “perfeitinhas” da Educação Física, doidas por uma fofoca direto da fonte. Aliás, como é que elas conseguiam cultivar todos aqueles músculos proeminentes nas pernas, alguém podia me explicar, por favor? Aposto que não bebiam destilados baratos nem se entupiam de amendoim às terças-feiras, como eu.
– De verdade, Malu. – Angélica baixou o tom de voz. – O Nico é inteligente, é um fofo e é louco por você! Você tem noção de quantas garotas se esbofeteariam com luvas revestidas de cactos por uma chance no coração dele?
– Luvas revestidas de cactos?
– Estou treinando para a prova de Jornalismo Literário –
disse ela. – Utilizando a perspectiva subjetivista para obter uma minuciosa observação da realidade que desejo noticiar.
– Então se prepare para tirar zero na prova – ralhei.
– Que maldade!
– E na perspectiva objetiva: eu não estou apaixonada pelo Nico.
– Mas pode se apaixonar!
Sério. Às vezes eu me irritava com a empolgação da minha amiga.
Ela insistiu:
– Você mesma não disse que ele beija maravilhosamente bem e que mexe com o seu juízo?
– Só porque eu não sou de ferro! Eu tenho hormônios, sabia?
– O Nico merece uma chance. Merece, merece, merece.
– Sabe, Angélica – joguei a toalha no ombro –, eu sei que você se juntou à campanha pela reeleição do reitor Odilon depois que ele começou a despencar nas pesquisas de intenção de votos… Sei que compartilha das ideias dele e tudo mais…
– Como é que o reitor Odilon veio parar nessa conversa sobre beijos e hormônios? – Ela fez careta. – Sinceramente, Malu, que nojo!
– O que quero dizer é que, por mais que você seja a favor da meritocracia tão aclamada pelo reitor Odilon, ela não funciona em se tratando do meu coração – expliquei. – Não interessa se o Nico merece ou não uma chance. Aliás, quem te garante que ele quer namorar comigo? Talvez ele só esteja querendo se divertir, sei lá. Na verdade, eu não me importaria de ser o brinquedinho sexual dele se tivesse certeza de que isso não estragaria a nossa amizade.
– Quer saber? – ela se irritou. – Você é a gênia mais burra que eu conheço.
– Poxa… – Fechei a cara. – Muito obrigada pela gentileza.
– Acorda, Malu! O estrago já foi feito no instante em que você aceitou ser beijada pelo seu melhor amigo, que sempre foi loucamente apaixonado por você. Agora é só uma questão de tempo até a coisa toda desandar de vez.
E depois de ferir meus mais profundos sentimentos, Angélica entrou no cubículo do chuveiro, batendo a porta do boxe na minha cara.
***
O que eu mais odeio, quando tomo banho fora de casa, é ser obrigada a trocar de roupa na frente das garotas do vestiário.
Quando as garotas do vestiário são as “perfeitinhas” da Educação Física, meu ódio é ainda maior, já que elas ficam me observando discretamente, na certa comparando cada curva do meu corpo sem curvas às muitas curvas do corpo delas.
E olha que eu era uma PPR! Não fosse isso, elas me observariam descaradamente, pode apostar.
Para variar, Angélica estava atrasada para a Rádio UPN.
– Será que eles ainda não perceberam que eu rendo melhor no turno da manhã? – reclamou ela. – Tchau, Malu.
Por milagre, eu tinha um tempinho livre, sem estudos ou compromissos investigativos com Artur. Então resolvi aproveitar para dar um “oi” ao Nicolas, que, pela hora, devia estar nadando na piscina olímpica da Educação Física, ao ar livre.
Nicolas gostava de nadar no fim de tarde, quando o sol de inverno começava a se pôr e a água da piscina atingia sua temperatura mais agradável. Mas isso não era regra. Às vezes,
quando perdia o sono, ele nadava de madrugada (“água gelada reforça a imunidade e a circulação”), embora os portões de acesso às dependências esportivas da Educação Física fechassem às 19 horas.
Nicolas nunca falou abertamente comigo sobre o assunto, mas eu sabia que, no semestre passado, ele tinha se envolvido com a bolsista responsável pela manutenção da piscina.
Eu já tinha visto a garota. Era “perfeitinha”, é claro.
A mão naquilo, aquilo na mão (vamos presumir que eles não passaram das preliminares), e Nicolas ganhou uma cópia das chaves dos portões.
Andei em direção à raia onde ele se exibia com um nado borboleta muito bem executado. Larguei a bolsa no chão e me sentei rente à borda da piscina, em posição de índio. Sem tirar os olhos dele, fiquei esperando que completasse a volta e finalmente se aproximasse de mim.
– Olha quem resolveu aparecer! – disse ele, sacudindo a água do rosto. Empurrou os óculos de natação para cima da touca. Impressionante como os olhos dele ficavam ainda mais azuis sob o sol de fim de tarde. – É uma miragem? É uma sereia?
– Acho que estou mais para uma foca.
Sem sair da água, Nicolas cruzou os braços e os apoiou na borda da piscina, de frente para mim. Naquela posição, seus ombros pareciam ainda maiores.
– Se você soubesse como estou arrependido de ter te dado aquela bicicleta… – Ele apertou os lábios. – Agora você não precisa mais de mim. Desapareceu…
– Tudo bem com você?
– Melhor agora – disse ele. – Aliás, eu ia mesmo te ligar,
para saber se você quer uma carona para Capricó, amanhã de manhã.
– Não, Nico, obrigada – falei, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Vou hoje à noite mesmo, de ônibus. A parada de 7 de setembro é amanhã cedinho e não quero correr o risco de chegar só no final e perder o desfile do Luquinhas.
– É, foi o que imaginei… – disse ele. – Até pensei em faltar à aula e pegar a estrada daqui a pouco. Mas meu professor de Direito Civil prometeu dar umas dicas sobre as jurisprudências que vão cair na prova da semana que vem. Não quero perder.
– Sem problema – falei. – Quer dizer, tirando os pescadores que lotam o ônibus no meio da estrada e o ar-condicionado que me impede de abrir as janelas para expulsar o cheiro dos peixes que eles carregam naquelas bolsas térmicas, até que a viagem é bem confortável.
– Como você pode saber disso? – Ele riu, sacudindo meus joelhos. – É a primeira vez que você volta para casa desde o início das aulas! Nunca andou nesse busão!
– Mas posso imaginar como é – falei. – Ai, Nico! Tira a mão do meu joelho! Você está todo molhado e eu acabei de tomar banho.
– Você ainda me deve aquele beijo, sabia?
– Que beijo?
– Que beijo?