• Nenhum resultado encontrado

4.2 VÍNCULOS EXTERNOS

4.2.1 A relação entre a arquitetura e uma nova totalidade

4.2.1.1 Jean-Nicolas Durand e a École Polytechnique

A École Polytechnique foi fundada em 1794, e foi o modelo no qual se baseou a Bauakademie de Berlim, fundada em 1799, que teve como alunos dois dos autores das nossas fontes primárias, Bötticher e Rosenthal. Da mesma forma, Kruft (1994) aponta que Friedrich Weinbrenner professor e um dos principais mentores de Hübsch, conhecia muito bem a obra do francês, além de citar diversos arquitetos alemães que foram a Paris estudar na École sob a supervisão de Durand.

A École tinha como um dos objetivos formar cientistas e engenheiros, para cargos públicos no governo, sendo nas primeiras décadas de sua existência “um ponto focal na formulação e transmissão de conhecimento técnico-científico.” (PICON, 2000, p. 3, tradução nossa). Nos primeiros anos de sua existência, o ensino do que chamamos hoje de matemática, mecânica, física e química estavam hierarquizados à frente do ensino da arquitetura, que, no entanto, dizia respeito apenas à aplicação da geometria descritiva. É neste contexto que a obra teórica de Jean-Nicola-Louis Durand foi estabelecida, como uma disciplina do curso de engenharia, tendo como objetivo tornar a arquitetura “tão rigorosa quanto as ciências da observação e dedução, e tão eficiente quanto a engenharia.” (PICON, 2000, p. 3, tradução nossa).

Conforme mencionado acima, seus cursos de arquitetura eram direcionados aos engenheiros em formação. Isso decorre do fato de que, na opinião de Durand (2000, p. 73, tradução nossa): “arquitetos não estão sozinhos em serem requisitados para construir edifícios: frequentemente, engenheiros também o são”. Mas enquanto os primeiros são chamados principalmente para fazer casas particulares e palácios, os engenheiros são requisitados para construir hospitais, prisões quartéis, pontes, portos, faróis, “uma grande quantidade de edifícios de primeira importância; então conhecimento e talento em arquitetura são, no mínimo, tão necessário para eles quanto para arquitetos.” (DURAND, 2000, p. 73, tradução nossa).

A partir dessas necessidades, sua visão com relação à arquitetura foi de extrema importância por marcar um novo tipo de aproximação diante do problema da construção e das referências históricas. Isso pode ser visto dentro de suas duas principais obras: “Recueil et

parallèle des édifices de tout genrem anciens et modernes: remarquables par leur beauté, par leur grandeur, ou par leur singularité, et dessinés sur une meme échelle” (Compêndio e paralelo dos edifícios de todos os gêneros, antigos e modernos: notáveis por sua beleza, por sua grandeza, ou por sua singularidade, desenhados em uma mesma escala) de 1799-1801 e

“Précis de leçons d’architecture données à l’École polytechnique” (Resumo das aulas de arquitetura dadas na Escola Politécnica) de 1802-1805.

Na primeira obra, Durand faz uma taxonomia comparativa dos edifícios existentes, ou seja, classifica-os através de suas características funcionais e geométricas, ignorando assim sua origem histórica e, por consequência, qualquer convenção estilística. Nesta, diversos templos gregos e egípcios são colocados lado a lado, na mesma escala, sendo assim possível fazer uma comparação de tamanho e disposição interna. De maneira similar, diversos templos são classificados como “Temples Ronds” (templos circulares) e dispostos uns ao lado dos outros, não sendo classificados, assim, pela origem.

Esse tipo de classificação tem um paralelo com a história natural do período, que utilizavam o mesmo processo na botânica e na zoologia (Lineu, Buffon, Lamarck) para a descrição tipológica de acordo com características internas de organização e estruturação.

Dessa forma, apesar de fazer uso da história, a classificação de Durand se torna ao mesmo tempo independente dela. A história surge como uma fornecedora de estruturas de organização da forma, essa sim ligada às suas possibilidades de uso, e não de exemplos estilísticos a serem seguidos. A formação se assemelha a um catálogo disponível então para que arquitetos e engenheiros fizessem sua escolha diante do problema de elaborar um projeto.

Uma ideia similar, porém mais sistematizada, foi o que surgiu em Précis, sua obra posterior.

Nela, Durand (2000, p. 87, tradução nossa) define a arquitetura como algo único e

“seu objeto é a composição e a execução de edifícios, tanto público quanto privados”, e que seu propósito “é satisfazer um grande número de nossas necessidades”, e que os meios para se alcançar este fim são a adequação e a economia. O primeiro relacionado a conceitos como solidez, salubridade e comodidade, e o segundo, simetria, regularidade e simplicidade. Porém, grande ênfase é dada também à disposição dos elementos, que para ele deve ser

a única preocupação do arquiteto, mesmo se a finalidade é apenas dar prazer.

Caráter, efeito, variedade – ou seja, todas as belezas que são encontradas em edifícios ou que o homem busca introduzir através da decoração – emerge naturalmente de qualquer disposição que acolha adequação e economia. (DURAND, 2000, p. 87-88, tradução nossa).

A partir dessas premissas, Durand partiu para um método analítico de decomposição e composição dos edifícios em elementos que são analisados independentemente e, depois,

reunidos, estudando assim as relações entre as partes e entre as partes e o todo. Os elementos são apresentados apenas em suas características morfológicas.

Um primeiro nível dessa decomposição do edifício é feita no que chama de

“elementos do edifício”, que são paredes, aberturas, suportes, fundações, pisos, abóbadas, coberturas etc. Todos são analisados de acordo com uma longa listagem de materiais disponíveis para sua elaboração. Posteriormente, esses elementos são combinados às “partes do edifício”: varandas, vestíbulos, escadas, salas, pátios, grutas, fontes, pérgolas. Em um passo posterior e sua técnica de composição ocorre a unificação destas partes no edifício como um todo, através de eixos de organização que privilegia formas quadradas, retangulares e circulares, que, segundo o autor, geram mais economia.

A segunda parte de Précis é então dedicada aos tipos de edifícios, divididos em público e privados, trazendo uma longa listagem com explicação das principais características necessárias para as diversas possibilidades de que o aluno da École poderia ser requisitado em sua vida profissional. Essa listagem aborda, para edifícios públicos, 18 tipologias, entre elas:

templos, palácios, cortes de justiça, museus, bibliotecas, matadouros, prisões e parques de diversão. Já na esfera privada, todos os tipos referem-se a possibilidades de residência, coletivas ou individuais.

Tanto Précis quanto Recuiel apresentam uma nova forma de encarar o problema da construção dos edifícios. Em suas considerações, parece que a relação da arquitetura com a história atravessou seu curso e chegou a uma “paralisação”, transformando então seus elementos em uma “teoria combinatória” que estaria à disposição dos arquitetos no momento de realizar os projetos. Essa abordagem mais “racional” será desenvolvida durante o século XIX, porém de uma maneira menos “fria” com relação à história. É interessante notar, de todo modo, que mesmo com a queda da legitimidade de Vitrúvio mostrada a partir dos escritos de Claude Perrault, Durand, mais de cem anos depois, ainda se sente obrigado a contrapor algumas de suas ideias para estabelecer o seu método e sua forma de ver os usos e a tarefa da arquitetura.

Na introdução de Précis, antes de explicar seu método de composição, Durand tem que lidar com o que chama de “a ideia de arquitetura transmitida pela maioria dos escritores sobre o assunto”, fazendo um rápido resumo das heranças com e contra as quais a arquitetura tem de se ver. Em seus termos:

A maioria dos arquitetos entende que arquitetura não é tanto a arte de fazer edifícios úteis quanto de decorá-los. Seu principal objeto, assim, é satisfazer os olhos e, deste modo, suscitar agradáveis sensações: um objeto que, como as outras artes, só pode ser atingido através da imitação. Deve tomar como seus modelos as formas das primeiras cabanas erigidas pelo homem e as proporções do corpo humano. E, como

as ordens da arquitetura inventadas pelos gregos, imitadas pelos romanos, e adotadas pela maioria das nações da Europa são uma imitação do corpo humano e da cabana, o resultado é que elas constituem a essência da arquitetura. E, por consequência, que os ornamentos formados pelas ordens são tão belos que, em termos de decoração, nenhum gasto será poupado. (DURAND, 2000, p. 79, tradução nossa).

Parece claro que, ainda no início do século XIX, havia arquitetos que utilizavam os mesmos argumentos do Renascimento no que diz respeito à legitimação da arquitetura. Assim como os arquitetos de meados do século XVIII, Durand agrega, também, uma contraposição aos elementos decorativos.

Os argumentos elaborados por Durand para rejeitar as ideias de “imitação da natureza”

as leva em conta de forma muito literal. Alega, por exemplo, em contraposição à Laugier, que uma cabana não é natural, mas sim construída trabalhosamente, e que não abrigaria das intempéries com perfeição. Sobre as ordens, que seriam criadas a partir das proporções humanas, Durand estabelece que nenhum homem tem a altura de seis vezes o seu pé (como no caso da ordem dórica), mas sim de oito vezes, e continua afirmando que o homem varia de largura em suas diferentes alturas e não teria comparação com um cilindro de diâmetro constante.

Seja como for, é com base nesses argumentos que Durand (2000, p. 83, tradução nossa) estabelece que as ordens não imitam a natureza, e, por conseguinte, não podem ser vistas como a essência da arquitetura e que “o prazer esperado pelo seu uso, e da decoração que deriva dali, é zero; tal decoração é em si mesmo uma quimera; e o gasto exigido é asneira.” A aversão aos elementos decorativos está presente em boa parte de Précis, afinal, em sua opinião, a “decoração não é da conta do arquiteto; a não ser que por decoração queira se dizer a arte de aplicar pintura, escultura e inscrições nos edifícios. Este tipo de decoração, no entanto, não é mais que um acessório.” (DURAND, 2000, p. 88, tradução nossa).