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1 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS E EPISTEMOLÓGICOS DA METODOLOGIA DE

3.2 Explorando algumas definições contemporâneas

3.2.3 Jean Pierre Boutinet

O próximo pesquisador, Jean Pierre Boutinet, foi um dos que mais contribuiu no sentido de mostrar o percurso histórico dos projetos e também na descrição das diferentes formas de pensar os projetos na educação. Não é possível extrair, do principal19 trabalho sobre projetos deste autor, uma concepção objetiva da metodologia em questão. Por outro lado, sua pormenorizada obra sobre projetos e seus usos em vários âmbitos, inclusive o educacional, permite dizer que Boutinet (2002), define projeto sob o ponto de vista metodológico como sinônimo de desígnio,

18 As fases que envolvem os projetos serão mais bem detalhadas dentro do capítulo 4. 19 Antropologia do Projeto. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.

intenção, finalidade, objetivo, alvo, planejamento e programa. Essa gama de palavras estará presente na pratica do trabalho de projetos, o que torna plausível admitir uma aproximação da idéia de projeto de Boutinet esboçada pelas referidas palavras, em relação à definição de projeto apresentada no subcapítulo 3.1. Dessa forma é possível inferir que a percepção de Boutinet sobre a metodologia de projeto é de cunho pragmático.

Boutinet (2002) também considera o projeto como uma maneira de colocar o aluno em posição de pensar por si mesmo, de buscar informações, de colher dados, de discutir idéias, emitir e testar hipóteses, de motivar energias em torno de uma questão. Com isso, o aluno consegue ver sentido nos seus comportamentos e nas suas atitudes, pois ele irá agir na expectativa de realizar suas intenções manifestadas numa idéia, num sonho. E quando o aluno, através de suas ações norteadas pelo projeto, consegue atingir sua(s) meta(s), isto significa que o seu projeto e toda a gama de conhecimentos, habilidades, comportamentos e atitudes, que foram mobilizadas para realizar o projeto, obtiveram êxito. Pelo menos, a maior parte das ações, e não necessariamente todas elas, foram exitosas. Sobre esta questão, Boutinet diz: “o êxito do projeto se materializa na realização que concretiza o que estava anunciado, na satisfação das aspirações dos atores. Esse êxito é um poderoso elemento motivacional e estimula na busca da ação” (2002, p. 263). Falando-se mais diretamente sobre uma das habilidades que o projeto suscita, a criatividade é uma que vai ser mencionada por vários autores. Com Boutinet, isso não vai ser diferente. O autor chega a mencionar que “uma das razões que encorajam a pedagogia do projeto vem da necessidade de quebrar o quadro coercitivo dos programas escolares para suscitar uma certa criatividade” (2002, p. 180).

Através do projeto, procura-se trazer, para o sujeito que projeta, o futuro desejado. No entanto, Boutinet adverte que “o projeto não pode incidir sobre o longo prazo demasiadamente conjuntural e também não pode limitar-se ao curto prazo demasiadamente imediato” (2002, p. 77). Entende-se com isso que a percepção do horizonte temporal é um importante parâmetro da motivação que, de acordo com a percepção da pessoa, pode induzir à fuga, no caso dos projetos com horizonte temporal muito distante, ou até levar à resignação, quando o horizonte temporal é curto demais, o que se revela constrangedor para as adaptações imediatas (BOUTINET, 2002).

Boutinet (2002, p. 234) descreve quatro premissas básicas sem as quais não poderia haver procedimento por projeto.

a) A unicidade da elaboração e da realização. O autor explica que o que é projetado é destinado a oscilar continuamente entre uma meta a ser perseguida e uma programação a ser realizada. Não se pode separar o projeto-alvo do projeto-programação. Há uma unidade que liga a instância que elabora e a instância que executa, não há separação entre essas duas instâncias, mas simplesmente uma gestão dos desvios entre as atividades de concepção e as de realização. Dotar-se de um projeto é, no mesmo movimento, buscar construí-lo e querer realizá-lo. Neste sentido, estamos diante de um fato inédito que integra a concepção e a execução na mesma figura, integração de dois tempos certamente diferentes, contrastados, mas que reencontram sua unidade através do autor ou dos autores do projeto. b) A singularidade de uma situação a ser ordenada. Esta se relaciona ao caráter

idiossincrático de qualquer projeto. Este pretende ser sempre uma resposta inédita que um ator singular dá a uma situação singular em si mesma. O projeto se encontra estreitamente ligado às categorias do particular e do singular: projeto particularizado que um grupo cultural procura estabelecer para si mesmo, projeto singularizado esboçado por um individuo.

c) A gestão da complexidade e da incerteza. Os ambientes atuais onde devem ser inscritos os projetos são, antes de mais nada, ambientes complexos. Ora, o procedimento por projeto se mostra a ferramenta apropriada para gerir a complexidade e a incerteza. Uma situação simplificada demais não necessita recorrer ao projeto. Uma ação a ser gerida, cujos resultados são evidentes ou esperados, não implica o recurso ao projeto. Este último é destinado a administrar a indeterminação de uma situação problemática feita da interdependência de vários parâmetros, exigindo que tal situação não seja impropriamente simplificada, mas ao contrário, tomada em toda a sua complexidade. Deste ponto de vista, o procedimento de projeto se assemelha a uma metodologia da proposição e da resolução de problema.

d) A exploração de oportunidades em um ambiente aberto. O projeto só pode ser concebido em um ambiente aberto, capaz de ser explorado e modificado. Implica, portanto, um novo olhar voltado para esse ambiente a fim de descobrir nele, ao menos uma indeterminação parcial. Há algo a fazer, há

algo a ordenar, mudar aquilo que somente poderá ser feito, ordenado ou mudado por uma ação deliberada que deve ser antecipada o melhor possível. Todo projeto pressupõe uma visão otimista, graças à qual se pensa poder trazer uma mudança relativa a um dado estado de coisas, mudança que não poderia acontecer sem a ação do autor. Lançar-se em um projeto é, portanto, julgar que, contra todos os determinismos, realizações são possíveis e, de qualquer forma, realizações sensivelmente diferentes de tudo o que pôde ser feito até então.

Na visão de Boutinet esses são os principais pressupostos em que se funda qualquer metodologia de projeto. Constatam-se novos aspectos relacionados à metodologia, da mesma forma que se reforçam algumas atribuições já enunciadas sobre projetos, como é a questão da negação da visão determinada da realidade e da paridade com uma proposta de resolução de problemas. Outro tema, como a necessidade da extrapolação do ambiente fechado da sala de aula para realizar projetos, também foi abordada aqui. Porém, o assunto foi ilustrado como condição necessária para localizar oportunidades onde se possam realizar mudanças. A questão do ineditismo apareceu dentro dos pressupostos mencionados, mas o seu sentido fica ainda mais evidenciado nesta colocação de Boutinet. “Cada projeto pretende justamente confrontar-se com um problema que se pretende único, que deve ser resolvido de forma inédita” (2002, p. 230). No momento que o autor destaca a originalidade da solução de um problema, ele aponta o feitio que o trabalho por projeto começa a revelar.

Para resolvê-lo, a gestão de projeto constituirá uma organização ad hoc: reúne-se um grupo para concretizar e implantar uma inovação, depois este grupo é dispersado, uma vez que o trabalho é realizado, ou que desponta a oportunidade de uma outra inovação julgada mais importante (BOUTINET, 2002, p. 231).

Nesta última citação, é notória a importância da participação coletiva para a realização do projeto. Mas a informação diferenciada que Boutinet traz sobre isso é que “qualquer projeto, até o mais pessoal, é fundado na lógica da interação” (2002, p. 257). Da mesma forma, “a ação coletiva não difere da ação individual a não ser porque, através da pluralidade de atores em jogo, ela implica uma negociação

permanente” (BOUTINET, 2002, p. 255). Desenvolvendo um pouco mais essa idéia Boutinet diz que,

todos os projetos coletivos que se apresentam para ser decifrados mostram o papel central e determinante, mas não exclusivo, de um ator individual ou de um pequeno grupo de atores individuais que desempenham o papel de catalisador. Esse ator individual, eventualmente investido de uma autoridade carismática, explorará as expectativas sociais preexistentes dentro de uma organização. Desse encontro, ou melhor, dessa conjunção, nascerá o coletivo da ação (2002, p. 256).

Essas colocações levaram Boutinet a afirmar, a razão pela qual, “deve-se reconhecer que qualquer projeto individual é de natureza essencialmente social” (2002, p. 256), e que por isso, “não há projeto que, de uma maneira ou de outra, não busque ser partilhado” (2002, p. 231). Valendo-se dessas contribuições, a atividade de trabalhar com projetos desponta também como uma ação de antecipação do indivíduo, estando esta comprometida com outros indivíduos e que para se realizar exige a ação conjunta dos atores envolvidos no projeto.

Com relação às fases inerentes de um projeto, Boutinet as delimita em dois momentos, sendo que estes deverão ser articulados. Uma ocorre no início, e a outra ocorre no final do projeto. Neste caso, fazem parte da fase inicial, - o diagnóstico da situação pedagógica, momento efetuado pelo professor e pelos alunos – negociação de um objetivo de ação, e – determinação dos meios e programação para realizar os objetivos. Na fase final são feitos, o planejamento das atividades, realização do projeto e seu controle, e avaliação final do projeto.

Destaca-se por fim que, na sua obra principal sobre projetos, Boutinet foi incisivo na demonstração da importância da utilização da prática dos projetos na vida do homem. Sem a intenção de explorar maiores detalhes, neste momento, exemplificam-se duas citações sobre a questão aludida. “Hoje mais do que ontem, cada um de nós se acha impelido a elaborar projetos pessoais” (2002, p. 97). “Em uma sociedade cujo futuro previsível mostra-se um tanto obstruído, solicita-se aos indivíduos e os grupos, em diferentes lugares, que façam projeto” (2002, p. 273).

A partir desta contribuição de Boutinet, entre outras percepções, a questão da valorização da produção do conhecimento feita pelo próprio aluno, que se torna um sujeito ativo na sua aprendizagem, e o fato de acreditar que os alunos são

capazes de realizar projetos os quais também os levam a desenvolver conhecimentos, habilidades, comportamentos, atitudes, são pontos que vão ao encontro de propostas educacionais condizentes com os paradigmas inovadores da ciência.