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3. A SÉRIE JESSICA JONES E O COTIDIANO DE SUAS

3.2. Jessica no cotidiano de suas espectadoras

Fez-se, aqui, o que indicava Certeau (2001) ao afirmar que se deve “completar” a análise das imagens difundidas pela televisão (representações) e dos tempos passados diante do aparelho (comportamento) com o estudo do que o consumidor ou consumidora cultural “fabrica” durante essas horas e com essas imagens. Essa “fabricação” é uma produção escondida que se dissemina nas regiões definidas e ocupadas pelos sistemas da “produção” (televisiva, urbanística, comercial etc.). Ou seja, a uma produção racionalizada, expansionista, centralizada e espetacular, corresponde outra produção, de consumo, sendo esta astuciosa e dispersa, mas que, ao mesmo tempo, se insinua de forma silenciosa e quase invisível, “pois não se faz notar com produtos próprios, mas nas maneiras de empregar os produtos impostos por uma ordem economicamente dominante.” (CERTEAU, 2001, p. 39).

Tanto a análise da página no Facebook como das respostas ao questionário demonstram haver influências de Jessica e sua narrativa sobre a vida de suas espectadoras. Muitas fãs afirmam que Jessica é uma inspiração e apontam pontos de influência da personagem em posturas e atitudes delas em suas vidas. Influências no dia-a-dia. Cabe retomar os pensamentos de Michel Maffesoli e Michel de Certeau sobre o cotidiano e, principalmente, a importância das ficções a da mídia sobre ele, para se compreender influências mais profundas, para além da rotina.

Essa produção silenciosa que se dá na reapropriação da produção espetacular é, também, parte das trocas que constituem a trama social, sendo estas o que, segundo Maffesoli (1984), movimentam a vida cotidiana. Então, como o autor também afirma e já colocado aqui, são essas trocas que dão espaço para as pessoas desenvolverem formas de ação, as resistências astuciosas. Para Certeau (2001, p. 40), os usuários fazem “„uma bricolagem‟ com e na

economia cultural dominante usando inúmeras e infinitesimais metamorfoses da lei, segundo seus interesses próprios e suas próprias regras.”.

Pode-se perceber esse processo nas análises aqui realizadas na medida em que se têm dois fatores, já comentados: detecta-se o movimento ao qual a série e a personagem Jessica Jones fazem parte e representam por apresentarem mais aspectos da feminilidade na qual a mulher é sujeito do discurso e detectam-se, também, influências individuais da série e personagem na vida de cada espectadora. Esta se reapropria da produção midiática que é a série, produzindo suas próprias formas de ação e resistências no mundo. Assim, como dito, a ficção participa na constituição da própria realidade.

Percebe-se, então, que o ponto de grande concordância entre os autores (Maffesoli e Certeau), também defendido e observado aqui, é que essa resistência silenciosa ou rede de antidisciplina faz parte do cotidiano. Mesmo que não constituam uma ruptura dele, são microrrupturas que fazem parte de seu movimento. Dessa forma, Jessica Jones e as reapropriações produzidas a partir dela são, sim, uma forma de resistência e enfrentamento em relação a concepções estabelecidas e aos discursos produzidos e legitimados por muitas produções midiáticas. Porém, essas resistências se incorporam ao próprio cotidiano, que se coloca de forma “maleável” para incorporar movimentações sociais e individuais desencadeadas em suas próprias trocas.

Como se pôde observar principalmente na análise dos episódios e nas postagens e comentários feitos por sua página, a série e sua protagonista já foram produzidas de forma a apresentar aspectos de uma concepção feminista do mundo que tenta romper com os ideais de feminilidade patriarcais, promovendo a igualdade de gêneros. Isso ocorre porque, segundo Cabral (2018, p. 82),

o que aparece na mídia, o modo como aparece, como é interpretado e o(s) porquê(s) disso tudo – por que aparece, por que aparece de tal modo, e por que permite tais interpretações – tendem a revelar as forças sociais em disputa, (os diversos projetos de poder, de dominação, mas também de resistência e subversão) e as complexas dinâmicas de disputa (o tensionamento) entre essas forças pela significação do mundo e da vida (da realidade).

Então, ao apresentar representações femininas predominantemente relacionadas a uma feminilidade que se “divorcia” do poder masculino, a própria série se coloca como legitimadora dessa concepção de feminilidade em detrimento da proveniente de um discurso patriarcal – mesmo que não o exclua completamente. Ela é, então, indício dessas incorporações que ocorrem ao cotidiano. E, sendo parte de uma movimentação, é, também,

desencadeadora de microrrupturas. Como dito, as representações podem ser aceitas integralmente ou parcialmente ou até não serem aceitas, pois, como afirma Kehl (2008, p. 44), o imaginário social não é unívoco.

Há influências, então, no tempo linear – da História –, ao transformar visões de mundo, e também no tempo cíclico, cotidiano – o da história –, ao desencadear microrrupturas. Isso porque o cotidiano é, ele mesmo, “uma encarnação ou ainda a projeção concreta de todas as atitudes emocionais, maneiras de pensar e agir, em suma, de todas as relações com o outro, pelas quais se define uma cultura.” (MAFFESOLI, 1985, p. 64). Nesse sentido, é importante compreender que, apesar dos comentários e respostas ao questionário por parte das espectadoras, as influências no cotidiano são decorrência da dicotomia ou duplicidade que ocorre entre vida real e ficção, sendo essa dicotomia, como já dito, inconsciente. Ela se torna um saber-fazer incorporado, um mecanismo de defesa (MAFESOLLI, 1984, p. 69).

Nesse sentido, Maffesoli (1984, p. 69) afirma que a introdução da ficção na vida cotidiana é uma manifestação de resistência fora da temática “ativista” da liberação dos valores e discursos predominantemente difundidos pela mídia. Para ele (1984, p. 88), “nada é contestado em relação aos grandes valores que estruturam o social e, no entanto, sem alarde, minúsculos desvios na vida diária [...] se oferecem como outras tantas cauções da vitalidade da massa.”. Existe, dessa forma, uma passividade ativa muito mais subversiva do que qualquer ataque frontal que, para o autor (1984, p. 35), seria ingênuo.