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Fundamentos bíblico-teológicos: Um chamamento à comunhão

2. Jesus e as prisões humanas

2.1. Jesus é preso

A ação messiânica de Jesus traz para o centro aqueles que a tradição de Israel protegia: os estrangeiros, os órfãos e as viúvas. A vida de Jesus revela que a libertação é para todos os homens e mulheres, não é algo meramente patriota, e a sua imposição não é violenta, ao contrário daquilo que eram as expectativas dos seus contemporâneos e que acontecera com os Macabeus. É com esta maneira universal de agir, é nesta opção pelos que se encontram na periferia, que se revela a pastoral penitenciária. Mais do que fundamentar-se em ideias, ou em teologias que se desenvolveram e se desenvolvem, a pastoral penitenciária fundamenta-se no agir de Jesus103RTXDO³QmRIXQGRXXPDHVFRODGHViELRVKHUPHQHXWDVGD/HLQHPXPJUXSR de fariseus, mas conheceu as opressões e compartilhou os sofrimentos dos últimos do mundo, PRUUHQGRQRFHQWURGRFRQIOLWRVRFLDOHKXPDQRGRVHXWHPSR´ 104

Deste modo, o caminho de libertação dos encarcerados começa com o caminho de Jesus para a prisão. A troca de Jesus por Barrabás (cf. Mt 27, 16) é sinal do que havia de acontecer. As palavras e gestos de Jesus foram desestabilizando o sistema repressor que

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Se Jesus instaurasse o seu reinando por meio da força contradizer-se-ia, pois se Ele vinha para libertar os presos, e usaria a mesma medida usada com os presos, aplicando a Lei de Talião, teria de colocar o sistema repressivo na prisão, o que faria perder o sinal da gratuidade e do perdão.

103 C. X. PIKAZA, Dios Preso - Teología y pastoral penitenciaria, pp. 126-127. 104

³1RIXQGyXQDHVFXHODGHVDELRVKHUPHQHXWDVGHODOH\QLXQJUXSRGHRUDQWHVVHSDUDGRV IDULVHRV VLQR conoció las opresiones y compartió los sufrimientos de los últimos del mundo, muriendo en el centro de la conflictividad social y humana de su tiempo´ (Ibidem, p. 131.)

vingava, mais do que qualquer outra investida com o mesmo objetivo. É por isso que o sistema procura progressivamente dar a morte a Jesus (cf. Jo 11, 50)105.

Jesus não é masoquista, nem quer fundar um grupo dos sofredores106, mas responde ao sofrimento daqueles que sofrem nas diversas prisões, físicas ou morais, com a própria vida doada107. Jesus conhece aqueles que tem diante de si, os seus discípulos (cf. Mc 9,33) e opositores (cf. Mt 9, 4), por isso sabe por quem vai entregar a sua vida: alguns são vítimas de um sistema injusto, todavia, não deixam de existir aqueles que têm culpa grave.

Os contemporâneos de Jesus colocam rótulos nos doentes, nos endemoniados, e ficam incapazes de reconhecer neles a cura que Jesus opera. Por isso, quando Jesus traz de novo essas pessoas para o seio da sociedade esta ação vai ser contestada pela própria sociedade. Será este resgate para a vida pública um dos motivos do sistema religioso hebreu querer a condenação de Jesus. Para os hebreus, a lei de Talião seria a melhor maneira de resolver o problema pois não compromete quem toma a decisão de expulsar do convívio societário. No entanto, é pelo amor, pelo perdão, pela tentativa de reinserção que Jesus se compromete com FDGDXP6HJXQGR;3LND]D³RSHUGmRWRUQDDVSULV}HVLQ~WHLV´ 108 Todavia, o perdão não

dispensa a prisão, pode é ajudar o recluso a viver o tempo de prisão como uma oportunidade

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Os grupos sociais contemporâneos a Jesus aparecem-nos relatados nos evangelhos, por isso temos de ter em conta o contexto em que são redigidos. Nos evangelhos mais tardios vai ser natural uma maior hostilidade pois o Cristianismo encontrava-se numa fase de desvinculação do Judaísmo. Por exemplo, no quarto evangelho afirma- se TXH³TXHPreconhecesse Jesus como Cristo, seria expulso da sinagoga (cf. Jo 9, 22). Assim sendo, quando falamos em sistema repressor falamos daqueles que constituíam o Sinédrio, os responsáveis institucionais, e que vêm relatados nos quatro evangelhos como os culpados da detenção de Jesus. A. Puig, na tentativa de fazer uma análise histórico-crítica da prisão de Jesus, aponta algumas possíveis razões que levariam a querer Jesus preso e PRUWR³D YHUHP-HVXVXPRSRVLWRUGDVJUDQGHVLQVWLWXLo}HVMXGDLFDVDOJXém que considerava desatualizados o templo, o culto, o sistema ritual e a lei; b) considerar que a sua pretensão messiânica era um perigo para a estabilidade política, ou seja, para a manutenção do status quo com os Romanos; c) considerar Jesus um falso profeta, um impostor, TXHGHVHQFDPLQKDYDRSRYRFRPDVVXDVGRXWULQDVHFRPDVXDµmagia¶RXVHMDRVVHXV milagres; d) considerá-O¶O blasfemo, alguém que agia atribuindo a si próprio uma condição divina usurpando DVVLP R OXJDU GH 'HXV´ $ 38,* Jesus - uma biografia, Paulus, 3ª Edição, Lisboa, 2014, p. 527.) O autor apresenta mais duas razões para a detenção de Jesus, razões do povo e da autoridade romana. No entanto, interessa-nos apenas estes apontamentos porque é da autoridade religiosa que vem o impulso para a detenção de Jesus e é ela que de algum modo influência o movimento contra Jesus por parte do povo e da autoridade judaica. 2 SRYR TXHULD D SULVmR H PRUWH GH -HVXV SRU (OH DWHQWDU FRQWUD R µWHPSOR¶ FI -R    3RU RXWUR ODGR DV autoridades romanas opunham-se a Jesus em ordem à estabilidade imperial (cf. Jo 19, 12). Todavia, não deixa de ser a autoridade romana que profere a sentença de Jesus.

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Cf. J. GNILKA, Jesus de Nazaré, Editorial Presença, Lisboa, 1999, p. 254.

107 Cf. X. PIKAZA, Dios Preso - Teología y pastoral penitenciaria, p.187. 108

de aprendizagem e não um castigo, para além de provocar o sistema para a formulação de novas formas de punir os culpados. Como em Jesus, o perdão exige um caminho que é preciso percorrer. Em Jesus o perdão chega antes de qualquer pena109.

A inocência de Jesus é a prova de fidelidade pelos últimos e também pelos presos, por isso, Deus ressuscita-O110. A Crucificação e a Morte de Jesus era o que faltava para reintroduzir todos no caminho do Reino dos Céus111. Os ditos e ações de Jesus que promovem a pastoral penitenciária ficam iluminadas pela própria prisão de Jesus112. Isto é, não precisamos de recorrer à imagética para ver Jesus na prisão, pois o próprio Jesus assumiu a prisão. Recordando São Gregório de Nazianzo HRVHXD[LRPD³DTXLORTue não foi assumido QmR IRL UHGLPLGR´113, a pastoral penitenciária adquire um novo vigor, um sentido profundo

para a sua existência, mesmo que a compreensão da prisão tenha mudado ao longo do tempo.