O conto “La forma de la espada” versa sobre a história de uma cicatriz, na face de um homem, oriunda de um ato de traição. Nesse conto, o entendimento dos fatos relatados se dá de trás para frente. Para que a narração não seja interrompida pelo interlocutor, devido ao ato inescrupuloso da traição operada, o narrador-personagem Vincent Moon deixa a grande surpresa para o final. Após relatar todo um ato de covardia como tendo sido realizado por outra pessoa, Vincent Moon se revela ao seu interlocutor como sendo o verdadeiro traidor da história que ele acaba de contar.
Para verificar como o Deus bíblico e sua criação estão presentes nesse conto borgeano, interessa demonstrar que o “autor textual”, além de sua estratégia para contar uma história de traição, faz uso de um argumento bíblico para aliviar o peso de consciência do traidor. A referência bíblica entra em cena quando o personagem, para tentar atenuar o peso de sua culpa, diz: “Lo que hace un hombre es como si lo
hicieran todos los hombres” (BORGES, 2008, V. I, p. 594). Através dessa colocação, tenta argumentar que se todos fazem parte de um só corpo, ele também poderia, de certa maneira, ser parte daquele homem cuja história não é a sua.
Mas, o que de fato importa observar no conto é que o “autor textual” utiliza uma noção panteísta para dar solução ao seu relato. Contudo, no momento seguinte à revelação, onde informa que aquilo que faz um homem é como se o fizessem todos os demais, introduz outra intertextualidade bíblica ao se referir a Adão. O Adão do relato do livro de Gêneses 1: 26-27 (BÍBLIA APOLOGÉTICA, 2006, p. 3).
Ao utilizar a noção panteísta para aliviar a culpa do personagem e, no momento seguinte, a noção bíblica, o “autor textual” mostra que a mescla de teorias, além de um recurso literário, demonstra a extensão de seus conhecimentos e faz parte de sua estrutura narrativa para confundir o leitor.
Conforme Alazraki,
La noción panteísta de que un hombre es los otros implica la anulación de la identidad individual, o más exactamente, la reducción de todos los individuos a una identidad general y suprema que los contiene y que hace, a la vez, que todos estén contenidos en cada uno de ellos. En los cuentos “La forma de la espada”, y “Abenjacán el Bojarí, muerto en su laberinto” esa noción funciona como técnica narrativa; en el primero, el personaje cuenta la historia de una traición en la cual él es la víctima y su compañero de lucha, el traidor; a mitad del relato, el narrador, que es traicionado en el cuento, interpola esta observación:"Lo que hace un hombre es como si lo hicieron todos los hombres" que es un anticipo del desenlace: el traicionado es en realidad el traidor, el traidor resulta ser el traicionado. La inversión de los sujetos en la historia del narrador, primero (en el plano ficticio del personaje), y en la realidad del cuento, después(que es el plano ficticio del autor), plantea la posibilidad de un tercer traidor, o de un cuarto, o quinto, o de un infinito número de traidores, porque cualquier hombre es todos los hombres y "por eso - explica Borges - no es injusto que una desobediencia en
un jardín contamine al género humano y que la crucifixión de un solo judío baste para salvarlo"32. Segundo a noção panteísta, o plano de salvação, por intermédio de Jesus, acaba sendo suprimido; em decorrência disso, o “autor textual” resgata a origem de todo o mal, através do relato bíblico, mediante a figura de “Adão”. É nesse ponto da história que o viés bíblico está presente e o “autor textual” dissemina mais uma das suas questões teológicas.
No momento em que o personagem precisa compartilhar o peso de sua culpa com alguém, nada melhor do que citar um tema bíblico para esse propósito. E, nesse instante, o narrador-personagem Vincent Moon aceita o fato de que o pecado cometido por Adão é inerente a todos os homens e que, por outro lado, a crucificação de Jesus Cristo vale para a remissão dos pecados de todos os homens ao dizer: “Por eso no es injusto que una desobediencia en un jardín contamine al género humano; por eso no es injusto que la crucifixión de un solo judío baste para salvarlo (BORGES, 2008, V. I, p. 594).
Outra interferência bíblica pode ser encontrada no momento em que é mencionado o valor que foi pago pela traição. E nesse momento, o episódio da traição de Jesus, operada por Judas, é rememorado quando Vincent Moon diz: “Cobró los dineros de Judas y huyó a Brasil” (BORGES, 2008, V. I, p. 595). Aqui, não se está apenas diante de uma relação comercial entre quem paga e quem recebe para denunciar outra pessoa. Mediante este exemplo, é possível ver que o narrador- personagem Vincent Moon entende o papel de cada protagonista bíblico. Ele sabe que Jesus é o Messias e Judas, o delator.
O conto “La forma de la espada”, além de revelar que o verdadeiro traidor da história é Vincent Moon, também introduz em seus argumentos Jesus Cristo que é, consequentemente, reconhecido como sendo o Messias pelo narrador-personagem.
Mediante a intertextualidade bíblica que o conto “La forma de la espada” permitiu estabelecer, foi possível visualizar que a figura de Jesus Cristo, segundo apregoada no relato bíblico, é mantida também desta forma no espaço ficcional.
32 ALAZRAKI, Jaime. http://www.apocatastasis.com/jorge-luis-borges.php#axzz1cB1sexhE .