T I O Residia no Rio de Janeiro Faleceu no dia 8 de Maio de 1850
3. A Galena de Retratos dos Benfeitores
3.1. História da construção da Galeria.
4.13.11. João Baptista Ribeiro (1790-1868)
João Baptista Ribeiro nasceu no lugar da Ponte de Santa Maria, na freguesia de S. João Baptista de Arroios de Vila Real, no dia 25 de Abril de 1790. Era filho do sapateiro António José Ribeiro e de Isabel Maria da Fonseca .
Desde muito jovem revelou um talento natural para o desenho que despertou a atenção de várias individualidades que o pretendiam levar para um ensino mais adequado. A forte oposição do pai só foi vencida em 21 de Março de 1802 pelo Dr. José Jacinto de Sousa, que o levou para o Porto. Nesta cidade, morou na Rua Bela da Princesa, n.° 336 (actual Rua de Santa Catarina)168.
Aí torna-se inicialmente discípulo de Domingos Francisco Vieira e Vieira Portuense, ingressando nesse mesmo ano na Aula de Debuxo e Desenho, administrada pela Companhia das Vinhas do Alto Douro.
A integração desta Aula na Academia Real da Marinha e do Comércio, em 1803, veio a facilitar-lhe a aprendizagem com outros mestres: José Teixeira Barreto, Raimundo Joaquim da Costa e, mais tarde, Domingos Sequeira, de quem se toma o discípulo predilecto e de quem sofrerá uma influência indelével. Foi um excelente aluno, tendo obtido alguns prémios.
De enraizada formação clássica, João Baptista Ribeiro começa a sua carreira artística seguindo estes seus mestres e o seu trabalho vai começando a ser reconhecido. Recebe encomendas para igrejas do Norte do país e retratos de personalidades diversas.
É interessante salientar que existem algumas diferenças na forma como pinta retratos de encomenda e os que pinta desinteressadamente, onde dá largas ao seu gosto e inspiração. É o caso do retrato de seu pai, considerado por muitos como «um dos melhores retratos portugueses da primeira metade do séc. XDC» .
O seu nome como retratista vai ultrapassando o meio restrito do Porto e, em 1822, é chamado a Lisboa para retratar a Família Real. Fez retratos de D. Carlota Joaquina e das infantas D. Maria da Assunção, D. Ana de Jesus Maria e de D. Isabel Maria, em 1823. Em
1824 é nomeado, por D. João VI, mestre de Desenho e Pintura de Miniatura das Sereníssimas
1 "PIMENTEL, António Filipe, João Baptista Ribeiro e os Retratos Régios da Sala dos Capelos, Coimbra, Publicações do
Arquivo da Universidade de Coimbra, 1986, p. 23. VITORINO, Litografias de João Baptista Ribeiro, Guimarães, Tipografia Minerva, 1940, p. 14.
168LOPES, Joaquim, João Baptista Ribeiro, Separata de "Belas Artes", n.° 8, Lisboa, 1955, p. 4; PIMENTEL, António Filipe, João Baptista Ribeiro..., pp. 23-24; VASCONCELOS, Flórido de, João Baptista Ribeiro, Pintor, in João Baptista Ribeiro. Uma figura
do Porto Liberal no Bicentenário do seu nascimento. Catálogo de Exposição, Novembro de 1990/ Janeiro de 1991, Porto, Museu Nacional de Soares dos Reis, 1990, p. 17.
169VASCONCELOS, Flórido de, João Baptista Ribeiro, Pintor..., p.18.
Infantas170. Chegou a retratar rapidamente D. João VI no decorrer de uma cerimónia, sem que
este se apercebesse, o que veio a agradar ao Rei.
Aproveitando o ter sido chamado para retratar no Paço (Porto) D. Pedro IV, aproveita esse encontro para lhe falar da "necessidade de crear no Porto hum Museo de Pinturas e Estampas e outros objectos de Bellas Artes" .
Figura de relevo da cidade do Porto, com grande capacidade de organização e oportunismo político, envolto nas paixões de dois ramos dinásticos opostos, o seu nome encontra-se assim associado à criação do Museu Portuense172 e à organização da Academia
Portuense de Belas-Artes de que foi nomeado Director, em 1836 .
Foi professor de Desenho na Academia Real da Marinha e Comércio, da cidade do Porto, instituída em 1803.
Deixou uma vasta e importante colecção de pinturas e litografias.
Fez vários retratos de D. Pedro IV174, o Rei Libertador, durante a sua permanência no
Porto, um dos quais, para a Sala de Leitura da Biblioteca Municipal do Porto, quando da sua instalação, de que existe uma litografia. Esses retratos terão sido feitos do natural e por encomenda do próprio Rei.
Executou muitos mais retratos reais e da nobreza e de outras figuras importantes: os de D. Miguel, D. Maria II, Infanta Isabel Maria, Conde de Amarante, Marquês de Chaves, Duque de Palmela e o seu próprio auto-retrato175, retratos régios para a Sala dos Capelos da
Universidade de Coimbra. Terá ainda retratado José Carneiro da Silva, José António de Aguiar e Luis António Machado para a Ordem Terceira do Carmo.
Fez várias miniaturas por encomenda, entre as quais uma, "As filhas de Mendes Rangel", em grupo, 1823, e uma de D. Carlota Joaquina.
170PIMENTEL, António Filipe, João Baptista Ribeiro e os Retratos Régios da Sala dos Capelos..., p. 30; COIMBRA, Fernando Augusto R. , João Baptista Ribeiro. 1. ° Director do Museu Portuense, in "O Tripeiro", 7.a série, ano XVTI, Porto, Agosto- Setembro de 1998, p. 243.
I71COIMBRA, Fernando Augusto R., Art. cit, p. 243. Esta ideia não era original. Fazia parte de um sonho de José Teixeira Barreto.
172Sobre este artista ver: PASSOS, Carlos de, Ob. cit., p. 193; VITORINO, Pedro, Os Museus de Arte do Porto, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1930. RIBEIRO, João Baptista, Exposição Histórica da Creação do Museu Portuense, Porto, Imprensa de Coutinho, 1836; VÁRIOS, As Belas Artes do Romantismo em Portugal, catálogo, Porto, Instituto Português de Museus, 1999, p. 30; SANTOS, Paula Mesquita dos, Colecções Monásticas de Pintura no Museu Soares dos Reis, in "O Tripeiro", 7.a Série-Ano XVI, n.° 9-10, Porto, Setembro / Outubro de 1997, p. 294. VASCONCELOS, Flórido de, João Baptista
Ribeiro. Meio século ao serviço das Artes, in " O Tripeiro", 7.a Série, ano X, n.° 3, Porto, Março de 1991, pp. 74-78. 173 Este cargo era acumulado com a Direcção da Academia da Marinha e do Comércio.
174 SOARES, Ernesto e LIMA; Henrique de Campos Ferreira, Dicionário de Iconografia..., vol.V, p. 141.
175CERDEIRA, Eleutério, História de Portugal, Edição Monumental da Portucalense Editora, Lda, vol. Vin, 1935, p. 766. A.A. V.V., Retratos de Artistas no Museu Nacional Soares dos Reis, Porto, 1946.
Pedro Vitorino176 não o julga grande miniaturista, embora fosse considerado notável na
sua época.
João Baptista Ribeiro, como já anteriormente foi referido, pode ser tido como um artista de duas épocas. Teve aprendizagem neoclássica e cultivou este estilo, mas, pela pedagogia preconizada na Academia, «não poderemos esquecer que a pintura nacional ficou a dever-lhe uma atitude rara e fecunda no ensino das Belas Artes: a da libertação das tendências dos discípulos, desvinculando-os da habitual obrigação de imitar o estilo dos mestres, a quem apenas compete orientar o aluno na difícil escolha do caminho próprio» . Ficará situado entre o classicismo e o romantismo, que poderá ser visto nas sua obras em certos efeitos de luz e gradação de cores.
Em meados do século XIX, quando o Marquês de Sousa Holstein procurou adquirir para a Academia de Belas-Artes quadros, desenhos e gravuras, recebeu a oferta de vários estudos a lápis de João Baptista Ribeiro, por parte de seu sobrinho Luis Ribeiro de Sá que, em carta
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dirigida ao Marquês, faz apreciações sobre a obra do tio .
João Baptista Ribeiro fez painéis para algumas igrejas179 do Porto, nomeadamente para
a igreja dos Congregados, igreja de Nossa Senhora da Vitória, Capela de S. José das Taipas, igreja de Massarelos, igreja dos Grilos, etc.
Muito haveria que falar sobre a vasta obra deste pintor mas apenas podemos dizer que, não possuindo o talento de grande mestre, a sua obra é no entanto de valia certa. A sua actividade desenvolveu-se numa época politicamente agitada e isso era bem marcado no meio artístico português.
Também para a Santa Casa, João Baptista Ribeiro contribuiu com a sua arte.
Fez nove retratos de Beneméritos: cinco deles, encaixilhados, em 1817, pelos quais recebeu a quantia de 182$000 réis180; o de Manuel José Gonçalves, n.° 34, pelo qual recebeu,
com caixilho e a reforma do Painel da Visitação de Santa Isabel, a quantia de 70$800 réis, em 176VTTORINO, Pedro, Museus, Galerias e Colecções: Miniaturistas e Litografas", in "Revista de Guimarães" Guimarães, 1922,n.°16,p.41.
177VASCONCELOS, Flórido de, João Baptista Ribeiro, Pintor, in João Baptista Ribeiro. Uma figura do Porto Liberal no
Bicentenário do seu nascimento..., p. 20.
178FREITAS, Eugénio da Cunha e, in "O Tripeiro", Junho de 1945: «Permitta-me Vossa Excelência que eu tome a Liberdade de offerecer esses estudos do meu tio João Baptista Ribeiro afim de que V.Ex.a depois os offereça em seu nome à mesma Academia. Estes estudos creio que serão ali muito úteis, porque por elles se pode conhecer como compunha e estudava um dos melhores pintores portuguezes e as variantes que fazia nos modellos (que todos aliaz eram naturais) antes de apresentar as suas obras ao publico ... realmente ha na composição o que quer que seja de estylo Rafaelino...o meu amigo tem também para vender uma colecção de Pessoas Reaes copiados a lápis do natural por meu tio: Retrato de S. M. o Sr. D. João 6.M823, Retrato de S. M. D. Carlota - 1824, S. A. S.a D. Izabel M.a -1824, D. M.a D'Assumpção - 1824, D. Ana de Jesus -1824, S.M o Sr. D. Pedro 4.° feito no Porto-1833, S. M. D. M.a 2.M834...».
179PASSOS, Carlos de, O Porto na Arte Nacional in Nova Monografia do Porto,..., p. 304. BRANDÃO, Domingos de Pinho, Retábulos de Talha Dourada..., pp. 98-100.
30 de Junho de 1823 ; dois retratos, dos beneméritos António José de Oliveira Lopes e de António Ribeiro de Couto Faria, pelos quais recebeu 73$200 réis, em 30 de Junho de 1830182;
e o de Manuel José do Covelo, retrato n.° 39, com caixilho, tendo recebido 34$400 réis, em 5 de Março de 1831183. Só apresentamos os dois retratos existentes.
No retrato de Manuel José Gonçalves, n.° 34, é bem visível a aprendizagem neoclássica do pintor. A figura é apresentada de cara virada a % para a esquerda, usando a indumentária da época com sobriedade, destacando-se o aspecto miniatural do folho da camisa onde o pintor, através de várias velaturas, tenta transmitir uma certa transparência.
De composição e cromatismo equilibrado e sóbrio, o retrato ganha pela gentileza do traço, na linha de alguns retratos de Vieira Portuense, um dos seus mestres.
O retrato de Manuel José do Covelo, n.° 39, apresenta já uma certa faceta pré-romântica de João Baptista Ribeiro. De um fundo negro, onde mal se distingue o contorno do casaco, sobressai um rosto iluminado que o colarinho branco acentua.
Seguindo um esquema formal e cromático clássico, o pintor nesta peça parece querer transmitir uma realidade mais objectiva de representação do que uma revelação de carácter do modelo.
O benfeitor, ligeiramente virado para a direita, de pé, segura na mão esquerda o sobrescrito contendo o seu testamento.
O tratamento rigoroso da indumentária contrasta com alguma desproporção anatómica, notória no braço esquerdo do retratado e no próprio tamanho dos ombros.
João Baptista Ribeiro faleceu no Porto em 24 de Julho de 1868.
Idem, doe. n.° 40. Não se conhece a sua existência.
Idem, doe. n.° 42. Estes já não existem, encontrando-se registados nos catálogos anteriores a 1983. Idem, doe. n.° 43.