Capítulo 2 O ensino noturno nas reformas educacionais paulistas no fim do Império e na Primeira República
2.4 João Chrysostomo Bueno dos Reis Junior e os cursos noturnos 1912 a
No Anuário de Ensino do Estado de São Paulo de 1911-1912, figuram vinte escolas noturnas e dois cursos noturnos na capital, com a matrícula de 8.072 alunos e frequência média de 39 alunos. Neste período as Escolas Noturnas atendiam adultos e indivíduos maiores de 14 anos, que deviam ser confiados aos professores mais
distinctos, mais bem orientados, pois o ensino deveria ser proveitoso e útil àqueles que
já haviam trabalhado de 8 a 10 horas durante o dia, e mesmo exaustos, ainda tinham interesse em estudar:
ESCOLAS NOCTURNAS
Quem corre á escola nocturna depois de ter suportado 8 ou 10 longas horas de penoso trabalho, exausto de forças, revela tão alta somma de boa vontade, tanto desejo de apprender, tanto amor ao estudo, que bem merece ter como guia o mais esforçado, o mais distincto professor.
A nomeação para escola nocturna, pensam os inspectores escolares, devera ser premio conferido a professores de largo tirocinio e que tivessem alcançado os mais brilhantes resultados na regencia de suas respectivas classes.
Si a escola não satisfaz de modo completo aos alumnos, si lhes não offerece noções práticas de que possam logo tirar proveito, si os não prepara afim de poderem com mais probabilidade de victoria lutar pela vida, a deserção é certa.
O periodo de aulas nocturnas, officialmente de duas horas e meia, não é de facto, nem póde ser mais de duas horas. Deve, portanto, esse tempo ser bem aproveitado e só aproveital-o-á convenientemente o professor que reunir a um solido preparo, orientação segura e estiver compenetrado do alto serviço que presta á sociedade (ANUÁRIO DE ENSINO DO ESTADO DE SÃO PAULO DE 1911-1912, p. 38-39).
Dimensões como a motivação, a aplicabilidade dos estudos e a frequência a escola, deve ser assegurada por um professor, que deve ser especial para conseguir cumprir bem sua missão profissional.
Observa-se no Anuário de Ensino de 1913 as mesmas orientações veiculadas no anuário anterior sobre as qualificações dos professores que deveriam ministrar aulas nas escolas noturnas, ou seja, os mais experientes e bem formados. A nomeação para este cargo nas escolas noturnas deveria ser percebida pelos professores como um prêmio.
98 No Anuário de Ensino de 1914, aparece pela primeira vez, no período republicano paulista, a diferenciação entre as escolas e os cursos noturnos. Os cursos noturnos eram regidos por professores das escolas diurnas que receberiam uma
gratificação de cem mil réis mensais. As escolas noturnas seriam conduzidas por
professores que só exerceriam esse cargo, por um período de 2 horas e meia, com o salário de duzentos e cincoenta mil réis mensaes, tanto quanto ganham os professores
diurnos de escolas de séde de municipio, que trabalham cinco horas (ANUÁRIO DE ENSINO DO ESTADO DE SÃO PAULO DE 1913, p. 41).
O salário e a carga horária de trabalho são destacados como condições especiais para atrair os professores para que aceitassem trabalhar nos cursos e escolas noturnos. Apesar destas condições, os inspetores escolares verificaram, em visitas, que as escolas noturnas iniciavam às aulas de fato às 19 horas e não as 18h30 como indicava o regulamento. Desta forma os professores não cumpriam o horário trabalhando uma carga menor do que a estipulada, portanto, sendo remunerados a mais. Além disso, esses professores por só trabalhar a noite, tinham o dia livre para exercerem outra atividade. Diante destas “regalias”, esperava-se do professor “pontualidade, dedicação e ensino profícuo”.
Os inspetores concluem que existiam professores dedicados que se compenetram
em seus deveres, tornam o ensino de imediata utilidade á vida pratica dos moços, que lhes ouvem as lições, há outros que apenas exerciam esse ofício como ganha-pão, à
custa das horas de repouso roubadas ao operário que procura aprender. (ANUÁRIO DE ENSINO DO ESTADO DE SÃO PAULO DE 1913, p. 41-42). Como não tivemos acesso aos relatórios dos professores não pudemos verificar se a falta de pontualidade para o início das aulas se devia, por exemplo, ao atraso dos alunos.
Mesmo diante da situação insatisfatória, João Chrysostomo Bueno dos Reis Junior era a favor das escolas noturnas, afirmava que as mesmas deveriam ser intensamente fiscalizadas para que seus respectivos professores cumprissem seus deveres. No entanto, o Diretor defende o fim dos cursos noturnos, pois segundo ele, os mesmos não atingiam os objetivos de sua criação, pois seus professores, também encarregados dos cursos diurnos, não possuem disponibilidade para ocuparem-se com interesse e dedicação de seus alunos à noite.
O relatório do Diretor da Instrução Pública, divulgado no Anuário de Ensino de
1917, reforça a utilidade das escolas noturnas para as classes operárias e afirma que as
99 Parece-me exaggerada a matricula minima de 50 alumnos para essas escolas, principalmente tratando-se de escolas do interior. Os horários estabelecidos concorrem para afastar em vez de attrahir alumnos. Quem trabalha em serviço até ás cinco horas da tarde não póde sentir-se com disposição para frequentar aulas a começar ás seis horas e meia, como exige o regulamento (ANUÁRIO DE ENSINO DO ESTADO DE SÃO PAULO DE 1917, p. 11). As normativas estabelecidas pelo regulamento da escola noturna, no que se refere ao mínimo 50 alunos, foi criticado pelo próprio Diretor da Instrução, questionando ter esta exigência até para as escolas que funcionam no interior. Outra questão mencionada anteriormente, confirma uma suposição de que as aulas não acontecem pontualmente, não por causa do professor, mas pelo atraso dos alunos que estão deslocando do trabalho para a escola.
Reis Junior reitera a crítica já exposta no anuário anterior, sobre inutilidade dos cursos noturnos, os quais deveriam desaparecer por completo para serem substituídos por escolas noturnas. O relatório traz também o número de escolas e cursos noturnos providos na capital e no interior do estado de São Paulo em 1917. Na capital funcionavam 47 estabelecimentos de ensino noturno (9 escolas isoladas, 2 cursos noturnos e 36 escolas agrupadas), onde foram matriculados 3.976 alunos. No interior funcionavam 92 estabelecimentos de ensino dessa categoria (79 escolas isoladas e cursos noturnos e 13 escolas agrupadas), que receberam a matrícula de 3.787 alunos.
O anuário de 1912 declarou a existência de 22 estabelecimentos de ensino noturno na capital, com a matrícula de 1.671 alunos. O anuário de 1917 registrou o funcionamento de 47 estabelecimentos de ensino noturnos na capital, com a matrícula 3.976 alunos e 92 estabelecimentos de ensino noturno em funcionamento no interior com a matrícula de 3.787 alunos.
Por estes dados, é possível constatar uma grande expansão de vagas no ensino noturno da Capital, o número de alunos atendidos mais do que dobrou. Isto significa que a demanda não era pequena em relação aos cursos criados. Para explicar o fato da pouca ampliação do número de matrículas neste período precisa ser melhor analisado, principalmente se considerarmos que a gestão de Reis Júnior aconteceu durante o levante grevista da década de 1910, pode-se inferir que o governo republicano acreditava na educação como uma estratégia de controle das massas, principalmente dos imigrantes que compunham majoritariamente o operariado paulista. Contudo, é perceptível a resistência desse público às iniciativas educacionais públicas, expressa pela ausência de matrículas em proporção ao aumento de vagas.
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