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1 JOAnA CéSAR E O SEGREDO

Mas e quando esse penhor do segredo vem acompanhado pelo enigma? Bernardo Esteves, em matéria publicada na edição 85 da Revista Piauí, em 2012, escreve sobre um curioso episódio que será analisado nas páginas a seguir. Todos os dias na saída de seu laboratório, Carlos Tomei, professor de matemática da Universidade Católica do Rio de Janeiro, deparava-se com o mural ao lado do departamento. Letras em códigos visíveis, entretanto ilegíveis, revestiam o muro. Intrigado decide contactar um aluno e uma especialista em criptografia: Paulo Orenstein e Juliana Freire, na tentativa de empregar os recursos da matemática para desvendar o alfabeto desconhecido, criado por algum artista incógnito.

Figura 1 - Joana César. Alfabeto. Arte urbana, Anos 2000.

Do outro lado da cidade estava a artista que registrara os símbolos nos muros cariocas. Seu nome: Joana Coelho Lenz César que cursara filosofia, cinema e jornalismo, assim como as oficinas de Artes Visuais oferecidas pela Escola do Parque Lage. Ainda criança mantinha um mundo particular em isolamento. Sentia necessidade de escrever e desejava tornar-se escritora. Prostrada diante de um mundo que paulatinamente exibia seus caninos, recolhia-se para o universo privado das folhas de seu diário. Em uma disposição para o irremediável, confessava a incompreensão acerca das transformações de seu corpo e a inadequação em relação a um cotidiano inerte. Um dia ao abrir a gaveta onde guardava o diário percebe que ele desaparecera. Procura-o por todo o guarda-roupa e não encontra seu confessor. Revira interminavelmente os móveis de seu quarto, em uma busca intrépida e infundada. Ao procurar o diário em outros recantos da chácara onde vivia em Jacarepaguá, depara-se com seu irmão mais velho e um amigo as gargalhadas, ao lerem com escárnio e disfaçadamente, as revelações da menina.

A artista narra acerca do imenso impacto que essa experiência detivera. Por mais que atualmente pudesse inclusive rir do acontecido, o episódio na época teria representado um imperioso golpe e realmente fora um divisor de águas. No caso de Joana, a revelação traumática de seus segredos, gera a necessidade da criação de um código enigmático para esconder sua fala roubada. Cria portanto, um alfabeto particular que compreende o código como uma cortina, um véu para o seu secreto. Após o revellere que lhe intima à maturidade, tenta obliterar suas impressões e poemas.

As linhas dos registros de Joana secretam revelações. Anos depois, na década de noventa, inundam os muros das ruas com seus poemas visuais codificados em significações secretas. Para pedestres desatentos seriam nada mais do que meras pichações. Para transeuntes cônscios da existência de uma escrita, transformaram-se em dúvida, enquanto que para a equipe de matemáticos, às inscrições da artista-poeta figuravam como um monumental enigma.

Em uma entrevista concedida, Joana César demonstrava como a letra P, era representada em seu abecedário. Utilizando um estilo de escrita típico dos pichadores da década de oitenta, mesclava a técnica de rebatimento e espelhamento dos microscópios, para refratar a letra desdobrando-a e distorcendo-a nela mesma.

O alfabeto de Joana aproxima-se não apenas dos rebatimentos das lentes microscópicas ampliando para a dimensão macroscópica da cidade, como também parece envolver os pesquisadores em um mistério. Os matemáticos já detinham a dica sobre o procedimento de uma das letras e se apropriando de estratégias matemáticas utilizadas ainda no pós-guerra para decifrar códigos com a linguagem C++, iniciaram a investigação. Os pesquisadores depois de muito

trabalho,conseguiram chegar a algumas conclusões. Paulo Orenstein declara que o dia em que o código foi revelado por ele sentiu uma profunda emoção.

Após terem fotografado a maioria dos murais pintados por Joana, decidiram traduzi-lo. Perceberam que havia poesias com fundo biográfico quando Joana narrava suas experiências sexuais e xingava o pai. Uma das palavras de sua língua não foi compreendida pela dupla de matemáticos. Joana declarou com letras garrafais, talvez na mesma rua em que a menina do conto preciosidade houvera se deparado com o indizível, a mensagem cifrada: “NHVMIDFOMT”. Mesmo com a senha, essa palavra não foi compreendida pelos matemáticos. Posteriormente Joana revela que a mensagem era um acróstico diagramático que significava: “Nenhum Homem Vai Me Impedir De Fazer O Meu Trabalho”. Em outro muro escrevia: “Lá sei que tem gente tentando entender o meu misterioso alfabeto”.

Para os matemáticos Paulo Orenstein e Juliana Freire, responsáveis pela descoberta do código, a questão acerca do sigilo do código, pairava. A senha do código inventado por Joana, deveria ser arremessada para os quatro cantos da cidade para que as pessoas pudessem saber o que Joana havia escrito? O matemático soube, por familiares que haviam se encontrado por acaso com parentes da artista, do seu desejo de preservar o anonimato da significação de suas letras. Como a artista preferia manter o enigma, os pesquisadores, mesmo sem conhecê-la, preferiram perpetuar o sigilo, sendo seus cúmplices. Após o incidente, o trabalho da artista obteve espaço na mídia e reconhecimento no métier artístico, sendo representado atualmente pela galeria Athena Carioca e

requisitado para realizar diversas exposições coletivas. No ano de 2015 integra a mostra coletiva, com curadoria de Fabiana Moraes e Isabel Sanson Portella, exibida na Galeria do Lago, no Museu da República: da escrita, delas, elas, sobre

artistas brasileiras e sua relação com a intimidade e a literatura.

Mas o curioso dessa pequena história é o fato de que, em uma das entrevistas concedidas por Joana, ela comenta que a matemática foi apenas uma maneira mais complicada de ler um texto que acredita ser simples. Ela narra o seguinte episódio: Estava na cidade elaborando sua arte, sempre situada nas faixas superiores dos muros, quando um morador de rua torpe pelo álcool aproximou-se perguntando o que estaria escrito ali. Sentindo-se incomodada pela abordagem continuou o seu trabalho, contudo percebendo a insistência do homem e sua ânsia em saber, decidiu parar o que estava fazendo. Em breves linhas sugeriu uma dica sobre o mistério de suas palavras. O senhor olhou-as concentradamente e então logo depois saiu recitando todos os textos que ela estava pintando... Nas palavras de Perniola o que o senhor embriagado realizou foi algo associado a dimensão do enigma prático: “...quem quer ter a certeza de ter êxito não deve ter nenhuma intenção absolutamente firme e inderrogável, mas estar em equilíbrio como uma

balança, disposto a pender para onde o destino quiser.” (PERNIOLA, 2009, P.43) É coerente frisar novamente que o segredo portanto não estaria na recusa da fala, ou na insistência em se guardar, mas na possibilidade de um silêncio desembrulhado que provocaria a necessidade urgente da partilha.

O enigma joga com as certezas desvelando o fato, do segredo poder figurar no obtuso. O código perturbou tanto os homens permeados pelo espírito científico quanto o homem permeado pela alma das ruas. Ambos se depararam com o enigma, mas utilizaram estratégias distintas para obter uma primeira camada de significação, atestando o que Perniola defende: “O princípio do enigma é a coincidência de racional e de irracional.” (PERNIOLA, 2009, P.38).

Jay Winter em seu artigo: “a geração da memória”: afirma que a

necessidade de memoração seria o “ reflexo de uma matriz complexa de sofrimento, ativismo político, reivindicações de indenização, pesquisa científica, reflexão filosófica e arte”. (2006, p.86). É possível portanto perceber que escritor e artista adentram o universo da memória através do segredo e da confissão ao apresentar o peso da intimidade e o drama de existir, mostrando que a intimidade e suas questões também respiram a política das coisas.

Tanto confissão quanto enigma flertam com modalidades do secreto e aqui então a confissão poderia ser compreendida como uma das dimensões do segredo que se despe da vergonha, ao utilizá-la como método, em um trânsito entre arte, literatura e filosofia.

O secreto nesse ensaio medita sobre o humano e seu penhor. Por isso se distanciaria dos relatos de intimidades interessados somente na auto-promoção de vaidades e em sua divulgação em canais de comunicação. Afinal, essa exposição da privacidade ocorreria frequentemente a partir da detração do sucesso alheio, ao forjar uma máquina cruel, cuja intimidade surgiria apenas como moeda de consumo. Mesmo que aquilo que nos una, seja a vergonha um dia sentida, a cumplicidade que seu abraço nos oferece nos conecta a dignidade genuína, de uma poética do consolo.

O convite para residir na fresta estaria alinhavado no próprio clamor de Juliano Pessanha e Joana César. Conhecer a revelação de suas confissões também gera a reflexão do que estaria secreto em nós.

Portanto, ao se instaurar na fenda, o segredo denuncia em suas bordas o despencar do surto manifestado ora pela potência da confissão, ora pela incompreensão do enigma, revelando assim, em seu véu a reminiscência de uma antiga língua, cujo hálito exala a sabedoria do nunca e a ignorância do sempre.

Nas fronteiras entre o dentro e o fora, o aberto e o fechado, confessar seria também oferecer o corpo ao sol para que dele o veneno se torne coisa.

certezas e sem planos, apenas aspirando o pó dos dias, vivendo sem garantias só com a crença na precariedade, acreditando sempre que “o que me inventa é o mesmo que me devora” (Octavio Paz Apud PESSANHA, 2006, p.110).

em: http://revistausina.com/2014/08/16/entrevista-com-joana-cesar/. Acesso em 15 out 2015.

_____. NHVMIDFOMT. TEDx, PUC-Rio de Janeiro, 11, maio, 2015. Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=EI546iMl-xM.Acesso em 15 out 2015.

_____; FERRARIS, Maurizio. O gosto do segredo. Fim de século, 2006.

ESTEVES, Bernardo. Gritomudonomuro: o embate de dois matemáticos com as confissões cifradas e eróticas que uma artista plástica espalhou pelas ruas do Rio. São Paulo, Revista Piauí, fev. 2012. Disponível em: http://piaui.folha.uol.com.br/

materia/gritomudonomuro/. Acesso em 15 jan 2015.

PERNIOLA, Mário. enigmas: egípcio, barroco e neobarroco na sociedade e na

arte. Chapecó, SC: Argos, 2009.

PESSANHA, Juliano Garcia. Certeza do agora. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002.

_____. Sabedoria do nunca. São Paulo: Atelier Editorial, 2006.

SENNET, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. São

Paulo: Companhia das Letras, 1988.

WINTER, Jay. A geração da memória: reflexões sobre o ‘boom da memória’ nos estudos contemporâneos de história. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio. Palavra e imagem: memória e escritura. Chapecó: Argos, 2006.