Primeira I: anteprocesso ou eco da voz elevadíssima
JOANNES QUARTUS
Hic Victor quiescit.
Vixit in Imperio annos sexdecim: Sibi satis, hostibus nimium, nobis parum.69 Em uma tradução simples:
“Depois de declarada a liberdade da Pátria (Não se sabe se com maior favor, se com força)
Com cetro herdado; João o Quarto Aqui vencedor repousou. Viveu como rei dezesseis anos:
Para ele, o necessário, para os inimigos, demasiado, para nós, pouco.”
68 RODRÍGUEZ, Dalmacio. Nobles y Vassalos... ha morir habemus: las exequias de Felipe IV en Nueva Espana, op. cit., passim.
Os nove primeiros exames: suas causas, seus antecedentes, suas matérias A epistolografia possui uma grande importância na organização dos trinta exames a que Vieira foi submetido. Esta arte da correspondência, que poderíamos relacionar à ars
dictaminis, recebe um caráter específico no ambiente marcadamente judicial como era o
do Santo Ofício, como recomenda Pierre Fabri1. Segundo esta preceptiva, não é um diálogo entre amigos ausentes, mas atestados, consultas, mandados, certidões, ordens, instruções: “uma documentação histórica que reporta a eventos particulares decorridos num certo local e período de tempo, cujo registro permite uma sua reconstituição. Documentos que se prestam à validação jurídica de um processo”.2
Bem sabemos que o centro da moção processual contra Vieira é a composição da carta Esperanças de Portugal destinada ao Bispo eleito André Fernandes, logo um mandado escrito pelo notário José Cardoso, datado do dia treze de abril de 1660, chamando a juízo o mesmo bispo, para prestar declarações acerca do conteúdo da carta; é a primeira correspondência arquivada nos autos que juridicamente supõe o Padre Antônio Vieira como suspeito perante ao Santo Ofício3. Até este momento, a Inquisição não possui materialmente a carta, pedindo-a ao bispo, por meio de outro mandado expedido pelo Conselho Geral da Inquisição, que venha à mesa novamente para entregá-la. Esta correspondência é datada do dia 13 de abril de 1660 e assinada pelos inquisidores Pantaleão Rodrigues Pacheco, Fr. Pedro de Magalhães, Antônio Soares de Castro, Diogo de Souza e Luís Álvares da Rocha. No dia 14 de abril de 1660, o notário José Cardoso
1 FABRI, Pierre. Le Grand et Vrai Art de Pleine Rhétorique. Publié avec introduction, notes et glossaire par A. Héron. Premier Livre: Rhétorique. Genebra, Slatkine Reprints, 1969, p.196.
2 MUHANA, Adma. “Introdução” in Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, op.cit., p.14. Tal finalidade da correspondência é evidente no Regimento do Santo Ofício: “Não passaraõ mandados, cartas de inquirição, com missões, requisitorias, ou certidões, nem papel outro algum para fóra do Santo Ofício sem despacho assinado pelos Inquisidores (precedendo tabẽ despacho do Conselho naquelles, em que confórme ao Regimento he necessario) & todos os que em virtude de seus despachos passarem, antes de os levarem a assinar ou entregarem às partes, lançaraõ no livro de registro, declarando o dia, mez, & anno, em que passarão, para que effeito, a quem forão dirigidos, & porque via: & nos proprios papeis poraõ cotta, q declare, como ficaõ registrados, & a quantas folhas (..) Regimento do Santo Officio da Inquisição dos
Reynos de Portugal. Ordenado por mandado do Ilustrissimo e Reverendissimo Senhor Bispo Dom Francisco de Castro. Inquisidor Geral, do Conselho d’Estado de Sua Majestade. Lisboa, por Manuel da
Silva, 1640. L.I, título 7, 15.
3 Adma Muhana diz que há documentos faltantes no processo de Vieira, entre eles a primeira carta enviada pela Inquisição Portuguesa para pedir a qualificação das Esperanças em Roma. Idem, op. cit. p.14.
expede uma certidão para notificar que o padre André Fernandes não está com a carta em seus poderes.
Entretanto, em um mandado do dia quinze do mesmo mês e ano, o notário José Cardoso diz ter recebido das mãos do também notário Diogo Velho papéis e maços de papéis os quais pareciam ser do Bispo eleito do Japão, fazendo parte destes papéis quinze folhas, em que primeira vinha com o título “Esperanças de Portugal”. André Fernandes, em cumprimento ao mandato inquisitorial, justifica em carta, o caráter familiar e falível com que escreveu o Padre Antônio Vieira sobre o espírito profético de Bandarra e a ressurreição de D. João (semelhante às palavras de André de Barros a respeito do Sermão das Exéquias4):
Em cumprimento do mandato de V.S. remeto o papel incluso; cujo Autor falou só segundo sua opinião, ou afeição; que lhe fez avaliar ao Bandarra por profeta d’el-Rei Dom João, como a outros Del-Rei Dom Sebastião. Guarde Deus a V.S. etc. Em 15 de Abril de 660.5
O próximo passo, portanto, estando a carta em posse dos inquisidores, será a submissão da mesma a uma qualificação. Isto ocorre por meio de um mandato do dia vinte de abril de 1660. Em tal mandato, pede-se que a carta seja submetida ao juízo de três qualificadores. A fim de verificarem o alcance dos escritos sapientes à heresia de Vieira, após interrogarem André Fernandes, é chamado à mesa do Santo Ofício outro autor, suspeito de compartilhar com Vieira as idéias de ressurreição de D. João IV. Nicolau Bouray é chamado à mesa, por um mandato do dia cinco de maio de 1661, em cuja margem, aparece datado o dia seguinte. Dizem os inquisidores que, como o autor não defende as idéias de seus papéis com pertinácia, e não há riscos de outras pessoas seguirem as suas idéias, pois o próprio Nicolau, em exame, diz que zombaram de tais esperanças, deve-se arquivar tal matéria, ou seja, estava livre do encalço inquisitorial, que estava interessado em Vieira. Nota-se que possivelmente os papéis de Bouray continham proposições sapientiae haeresim, mas os inquisidores fiam-se, para não instaurar um processo contra ele, no fato de que, Nicolau Bouray não possuía o mesmo ethos de antigo
4 Vide análise supra do Sermão das Exéquias.
pregador régio, mestre de teologia, orador e missionário afamado e, por isso, suas proposições não corriam o risco de se propagar e serem assimiladas.
Dois anos depois, em um decreto do dia dezesseis de fevereiro de 1663, assinado por membros do Conselho Geral, Vieira é chamado a prestar esclarecimentos acerca do papel que compôs. Neste mesmo decreto, aparecem instruções aos inquisidores de como proceder no interrogatório: se Vieira confessasse que verdadeiramente havia composto o papel, deveria ser argüido se cria no que escrevera, em que se fundamentara para compor tais esperanças e prognósticos; da mesma maneira, foram orientados a proceder se, por outro lado, o padre negasse a composição da carta; ou seja, de qualquer maneira o processo seria encaminhado.
Em cinco de junho de 1663, são trasladados papéis com as censuras propostas pelos qualificadores, censuras estas que foram efetuadas no ano de 1661 e confirmadas em Roma no mesmo ano, num intervalo de menos de um mês6. É interessante observar que não são arquivadas no processo outras cartas, no período que vai da qualificação à audiência dos inquisidores com Frei Jorge de Carvalho, que ao contrário de Nicolau Bouray, presta-se mais como acusador que suspeito de cumplicidade com o jesuíta. Isso acontece porque Vieira recebe intercessão da Rainha e de D. Rodrigo de Meneses junto à Inquisição; porém, quando o governo é transferido de mãos, os inquisidores continuam o processo com a carta-mandato dos inquisidores do Conselho geral, para que se averiguassem as notícias de que Vieira andava compondo um livro acerca da interpretação dos profetas7.
Segue-se, então, uma correspondência que narra as audiências e declarações do Padre Dr. Jorge de Carvalho. Em audiência, registrada em cinco de abril de 16638, Jorge de Carvalho diz que Vieira, em 1662, estava no Porto para imprimir 16 tomos de sermões pregados e que, em mente, tinha composto um livro intitulado Clavis Prophetarum, alegando que o mais que sabia escreveria em papel missivo aos inquisidores, por se tratar o tal livro de matéria larga. Tal papel é recebido pela Inquisição e registrado com um
6 Vide anexo 9 dos autos.
7 A este respeito ver História de Antônio Vieira, vol.II, p.9-10 e cartas escritas em 26 de janeiro e 14 de setembro de 1665 a D. Rodrigues.
atestado do dia dezessete de abril de 1663, juntamente com uma carta do frei, desculpando-se da demora com que compôs o papel:
Com este remeto a V.M. o papel que na Mesa se me ordenou fizesse; eu ando muito doente e foi a razão porque até agora o não pude fazer. A letra não é melhor, e o segredo do Santo Ofício não permite traslados. Guarde Deus a V.M. De casa 2a. feira.9
Após ser dado e aceito o testemunho de Jorge de Carvalho, no mesmo dia os inquisidores do Conselho Geral pedem que Vieira preste declarações acerca do que na carta ficara censurado e sobre as acusações; no entanto, cada um com um parecer. O inquisidor Dom Veríssimo de Lancastre diz que nada restava ao Santo Ofício quanto a essa matéria, pois só se veria o que o jesuíta tencionava com o livro Clavis Prophetarum somente se resolvesse imprimi-lo10; Francisco Barreto remete os papéis para Coimbra, onde Vieira se encontrava, a fim de que lá, mais convenientemente, se executassem os interrogatórios; e Fernão Correia de la Cerda, por sua vez, pede a qualificação do conteúdo do papel de Jorge de Carvalho, e que se remeta tudo ao Conselho Geral na forma de decreto, ordem que o notário do Conselho Geral, Manuel da Costa Brito, no dezoito de abril, executa em uma carta-decreto, estabelecendo o início dos exames a que Vieira fora submetido:
Acompanha esta uns papéis que vão ao negócio do Padre Antônio Vieira, e me ordenaram os Senhores do Conselho os remetesse logo a Vs. Ms. (como faço) para que juntos aos que aí houver seja o dito Padre examinado por tudo, com a brevidade que no correio passado {se} encomendou a Vs. Ms. E esta não é para outro efeito. Deus guarde a Vs. Ms. muitos anos.11
Portanto podemos dizer que toda a correspondência da Inquisição, de 1661 a 1663, funciona como um ajuntamento de provas com o fim de instaurar o processo. São testemunhos e acusações que, juntos, escrituralmente estabelecidos nas normas da
9 Anexo 14 dos autos, p.381. O papel de Jorge de Carvalho foi registrado nos autos como testemunho: é o anexo 15.
10 Nota-se que, segundo a opinião deste inquisidor, a Inquisição não poderia argüir o réu apenas sobre as idéias acerca da questão da Clavis Prophetarum, mas estas deveriam estar estabelecidas e encerradas em um gênero escrito: no caso um livro.
correspondência inquisitorial, tentam provar intenções de Vieira em querer propagar suas “idéias judaizantes”, corrompendo outros como Nicolau Bouray e André Fernandes, adquirindo inimigos zelosos da fé como o Frei Jorge de Carvalho. Portanto, nos primeiros exames, Vieira alegará que escrevera um papel particular e que não tinha por tenção fazê- lo circular. Aqui se retoma a questão da finalidade da carta. Para efeito de sua defesa, Vieira assumirá o papel como uma composição consolatória e particular, em contraposição à interpretação inquisitorial de que ele é um escrito público.
Com o início dos interrogatórios, os inquisidores lhe perguntam se pregou as tais proposições constantes no papel em sermões e Vieira responde que o fez no Sermão das Exéquias, cuja particularidade já conhecemos e em sermões pregados no Maranhão, por volta de 1660. No entanto não há sermões registrados de tal época, senão de 1659, os quais, por ora, averiguamos não conter os tópicos (Bandarra profeta, ou ressurreição de D. João, profecia e profeta alumiados pela luz divina, alguns castigos futuros à Igreja Católica, o nefasto Turco, a predestinação, judeus e o Império Temporal de Cristo na Terra); também pregara sermões de 1662, quando já estava em Portugal e quando o processo já estava em andamento.
Curiosamente, a despeito destas respostas de Vieira, os inquisidores iniciam os interrogatórios acerca da carta, não o interrogando mais acerca dos sermões. No entanto os mesmos inquisidores aparecem com dois tomos de sermões impressos em Castela para interrogar Vieira, quatro anos depois de terem sido iniciados os interrogatórios.
Nos interrogatórios, as questões a que Vieira será argüido são: de intitular o papel Quinto Império, acerca de considerar Bandarra e suas profecias alumiados por Deus, acerca do aparecimento das dez tribos, do novo estado da Igreja Católica e acerca do tempo da redução universal do mundo, nos exames terceiro ao nono. Interessante não se notar nenhum exame específico até o nono acerca da ressurreição de D. João IV, ficando a mesma restrita a poucas perguntas no primeiro e segundo exames. Devido à finalidade do estilo judicial em que as questões encerram-se, estas vão sofrendo cada vez mais distinção de tempo, lugar número etc. Nos capítulos posteriores, analisaremos mais estes exames e sua relação na composição especulativa de Vieira, verificando se tais tópicos presentes em forma infinitae nos escritos anteriores ao processo e finita segundo o decoro das Esperanças e nos primeiros interrogatórios sofrem reordenação, de modo a
comporem a obra profética-especulativa, além de se tais tópicos já fazem parte da composição escrita de outros gêneros a que o jesuíta se dedicou nos anos em que estava sob o encalço inquisitorial.
Parte II ex professo: história, defesa, apologia
Nesta seção, a História do Futuro e o seu Livro Anteprimeiro, são lidos com ênfase nos tópicos historiográficos e sua atuação defensiva como peça integrante do processo. A estes dois textos, relacionamos a análise dos tópicos anteriormente descritos que apresentamos na primeira parte do estudo, examinando-os, como contradita aos interrogatórios. Da mesma forma ocorre com a leitura das cartas concomitantes à parte do decurso do processo (1660-1665) e, principalmente, à composição da História do Futuro, que importa para a evidência desta reordenação; bem como, nos autos, as sessões preparativas da acusação: a leitura do libelo acusatório, por parte dos inquisidores, e da entrega da contradita por Vieira.
Assim, em um primeiro momento, pudemos verificar que a proposição do Quinto Império é a causa da História do Futuro nos dois sentidos que o termo comporta: como motivo, como matéria e, assim, convenientemente, a definição do estabelecimento de um império, a descrição do lugar, dos indivíduos e dos instrumentos necessários para tal estabelecimento poderiam ser feitos por meio de uma história. É o que entendemos fazer Vieira.
Enfim, tendo em vista a questão acerca da gênese da História do Futuro, como propõe Raymond Cantel e reitera José van den Besselaar, entre os anos de 1640 e 1650 Vieira já teria o projeto da História; para efeito de nos situarmos na questão, examinamos sermões, principalmente do ano de 1649, mas também de 1648, 1650 e 1651. Intentamos verificar se materialmente a suposição do estudioso confirmava-se nestes sermões1. Encontramos em nossas análises lugares comuns referentes à predestinação e à Ressurreição Universal, predestinação, à Providência, profeta, e ao Turco, todos em sua forma indefinida, nos mesmos moldes dos sermões apresentados no primeiro capítulo.
1 Sermões examinados de 1648 como o Sermão IX do Rosário e o Sermão de Santo Agostinho, de 1649 como o Sermão das Exéquias de D. Duarte, Sermão da Dominga Vigésima Segunda post Penteconten,
Sermão da Primeira Sexta Feira da Quaresma, Sermão das Exéquias da S. D. Maria de Ataíde, de
1650 como o Sermão da Primeira Dominga do Advento, Sermão da Segunda Dominga do Advento
Sermão da Terceira Dominga do Advento e Sermão da Quarta Dominga do Advento e de 1651 como
o Sermão da Primeira Dominga do Advento. Cf. Cronograma dos sermões efetuado por Margarida Vieira Mendes in A Oratória Barroca de Vieira, op. cit.,pp.547-561.
Posteriormente, como apresentação do próximo capítulo, estudaremos, com mais reflexão o sentido teológico da narração do Quinto Império, mais especificamente quanto ao aspecto da Providência. Compararemos, a partir das análises que já possuímos de alguns sermões, o sentido de tal Providência presente na História do Futuro, averiguando se há aí uma atualização do dito dever português. Será importante também destacarmos a noção deste dever para com a Providência presente na época da Restauração, representada em sermões da época, principalmente os Sermão pela Vitória de Nossas Armas contra as dos Holandeses 1640, Sermão dos Bons Anos e o Sermão de São Roque 1644, averiguando se tal noção conserva-se quando os exemplos restauracionistas são operados em prol da composição do Livro anteprimeiro. Também analisaremos a
História, descrevendo elementos da história que se apresentam como prova da verdade,
portanto, como elemento jurídico, dentro de uma causa judiciária.
Seguem-se também estudos sobre os papéis de caráter mais judicial como a
Defesa perante o tribunal do Santo Ofício e a Apologia das coisas profetizadas, sempre
na tentativa de demonstrar a ordenação com que retórica e dialeticamente Vieira define os lugares de sua profecia do Quinto Império. Outro capítulo breve arremata a questão levantada na primeira parte acerca de sermões em edição impressa e manuscrita anteriores ao processo.
Capítulo 3: Voz Histórica