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CAPÍTULO 2. Wittgenstein e a segunda fase de seu pensamento: por uma terapia filosófica terapia filosófica

2.4. Jogo de linguagem e semelhanças de família

Caímos numa superfície escorregadia onde falta o atrito, onde as condições são, em certo sentido, ideais, mas onde por esta mesma razão não podemos mais caminhar, necessitamos então o atrito. Retornemos ao solo áspero!

(WITTGENSTEIN, 1999, p. 64, §107, grifo do autor)

A expressão jogo de linguagem apresenta a nova imagem da linguagem, apresentando- se como a unidade entre o uso da língua a partir de regras, como condição para a interpretação de uma situação que está relacionada a uma forma de vida. Entre os mais diversos jogos de linguagem possíveis, o que talvez pudesse ser considerado elemento comum seria o uso

normativo de símbolos linguísticos, em um processo de internalização de normas dentro de uma forma de vida.

Como podemos observar no parágrafo §65, Wittgenstein não oferece, contudo, uma explicação do que seja, precisamente, jogos de linguagem, pois incorreria em algum tipo de essencialismo:

aqui nos deparamos com a grande questão que está por trás de todas essas considerações. É que alguém poderia retorquir: “Você facilita muito a coisa! Você fala de todos os jogos de linguagem possíveis, mas não disse, em nenhum lugar, o que é a essência do jogo de linguagem, e portanto da linguagem. O que é comum a todos esses processos e os torna uma linguagem ou peças da linguagem. Você se dá de presente, portanto, exatamente a parte da investigação que, a seu tempo, lhe deu as maiores dores de cabeça, a saber, a parte que diz respeito à forma geral da proposição e da linguagem”. E isso é verdadeiro. Ao invés de indicar algo que seja comum a tudo que chamamos de linguagem, digo que não há uma coisa sequer, que seja comum a estas manifestações, motivo pelo qual empregamos a mesma palavra para todas, – mas são aparentadas entre si de muitas maneiras diferentes. Por causa deste parentesco, ou destes parentescos chamamos a todas de “linguagens”. Quero tentar elucidar isto. (WITTGENSTEIN, 1994, p. 51, §65, grifos nossos)

O parágrafo acima aponta para uma concepção de linguagem, na qual o sentido de uma palavra é dado pelo próprio jogo de linguagem, onde ela é aplicada, e não por uma suposta essência. Dessa maneira, na multiplicidade de manifestações da linguagem, encontramos apenas parentescos e, por isso, não seria possível encontrarmos uma essência.

Oliveira (2004, p. 342) observa que Wittgenstein remete o jogo de linguagem ao caráter linguístico de toda e qualquer construção de sentido, integrando linguagem e ação no mundo real. No entanto, aponta que o filósofo não estava preocupado com a comunicação, e sim com a filosofia. E, sobretudo, ao praticar a terapia filosófica não se propôs a elaborar uma teoria, mas, ao contrário, questiona a aspiração universalista de qualquer teoria. Nesse sentido, o autor ressalta que:

Em Wittgenstein, o termo “teoria” diz respeito à elaboração de hipóteses a serem verificadas empiricamente, que podem ser verdadeiras ou falsas. Já o jogo da linguagem da filosofia não se atém à empiria, investigando antes as condições de possibilidade do sentido – articulado necessariamente de forma linguística, e não de modo transcendental-metafísico, como na tradição. Por isso não se trata de buscar uma explicação (pensar), e sim de uma descrição (olhar), §66). (OLIVEIRA, 2004, p. 342, grifos do autor).

O segundo Wittgenstein, desse modo, não se restringirá a falar sobre a linguagem, mas de diferentes usos da linguagem, ou seja, sobre jogos de linguagem. Assim, com base nesse pressuposto, não há mais critérios absolutos de significado, nem mesmo carência de significado, comenta Fann:

cuando decimos “este no tiene sentido” queremos decir: “esto carece de significado en el este juego (lingüístico) concreto”. En efecto, Wittgenstein llegó a afirmar que “tiene sentido” es vago, y tendrá usos distintos en casos distintos, pero… la expresión “tiene sentido” es tan útil como “juego”, aunque, al igual que “juego”, cambia su significado cuando pasamos de una proposición a otra. Así, pues, la crítica de una aserción al tachársela de sinsentido, será siempre un argumento ad hoc que hace referencia a un contexto. (FANN, 1975, p. 104-105, grifo nosso)

O “novo método” não consiste, para Wittgenstein, em apresentar um conjunto de regras a serem aplicadas, mas em treinar o interlocutor a organizar a “visão panorâmica” de cada problema filosófico, tratando-se de situar cada problema no amplo contexto de uso dos conceitos nele envolvidos, através da criação de exemplos de casos intermediários que levassem ao tratamento, como processo terapêutico, do pensamento sobre o sentido do problema (MORENO, 2009, p. 144).

Segundo Moreno (2009), a eficácia do “método” wittgensteiniano, como terapia conceitual, dependerá do interlocutor aceitar submeter-se a ele, ou seja, para isto necessita ser persuadido a se tornar um paciente a ser tratado. O interlocutor precisa reconhecer que está imerso em uma confusão conceitual, sempre que vier a afirmar, com convicção, a verdade absoluta de uma tese filosófica; e, neste caso, as barreiras da sua vontade precisam ser vencidas. Nesse sentido, o autor oferece-nos um exemplo ao destacar que o terapeuta deve, previamente, submeter-se ao tratamento, para que possa aplicá-lo:

Esta última condição, no caso do tratamento filosófico e conceitual – e diferentemente da terapia psicanalítica – corresponde ao exercício de autoterapia que é uma habilidade a ser desenvolvida solitariamente, ou melhor, com interlocutores virtuais que expressam teses filosóficas arraigadas no próprio terapeuta. A discussão empírica não é imprescindível para o método – senão circunstancialmente, como por exemplo, para ensiná-lo através de amostras de aplicações a casos particulares, tal como Wittgenstein fazia com seus alunos. (MORENO, 2009, p. 145, grifo nosso)

Como podemos notar, suas reflexões contribuem para elucidar a ideia da constituição de sentidos no interior das práticas sociais que pertencem à linguagem:

[…] assim como em todos os jogos de linguagem, os conceitos de sensação e de cor são construídos no interior de práticas sociais, como parte de instituições: dependem de comportamentos habituais, de “expressões naturais” que fazem parte da gramática das expressões linguísticas. Associar um comportamento à expressão “dor de dente” ou um objeto à palavra “azul” equivale a associar um movimento de peão, no jogo de xadrez, à expressão “jogar xadrez”. Por outro lado, não é a existência de cores ou de entidades mentais que “justifica” o emprego que fazemos das expressões correspondentes. Os critérios de verdade para tais expressões estão na linguagem e não fora dela. (MORENO, 1995, p. 62, grifo nosso)

Dentro deste contexto terapêutico, em que os critérios de verdade estão na própria linguagem e não fora dela, vários jogos de linguagem não possuem uma única coisa em comum, mas apenas semelhanças, formando uma família. Dessa maneira, podemos entender a linguagem adicionando e inventando novos jogos de linguagem, da mesma forma que ao fiar trançamos fibra com fibra “e a força do trançado não reside no fato de que alguma fibra percorra todo comprimento do fiado, senão no entrelaçamento de várias fibras” (WITTGENSTEIN, 1999, p. 52-53, §67).

Os jogos de linguagem, portanto, caracterizam-se como práticas reguladas por padrões públicos que mostram quais ações, lances ou signos são admitidos. Nenhuma expressão tem sentido por si mesma, mas este emerge em função da posição no jogo em que ela se situa. A depender da situação em que o jogador se encontra, certas jogadas serão presumíveis ou surpreendentes, bem como as reações a elas.

Desse modo, o sentido de uma expressão é fruto de uma Gramática, nome dado por Wittgenstein às regras do jogo que determina os possíveis lances de um signo e, portanto, seu significado. Ao descrever as regras do jogo, o filósofo não determina o que é verdadeiro, mas mostra o que pode ser dito com sentido, seja verdadeiro ou falso.

É como se tivéssemos que penetrar os fenômenos: mas nossa investigação não se dirige aos fenômenos, e sim, como poderia dizer, às “possibilidades” dos fenômenos. Isto quer dizer que meditamos sobre a espécie de asserções que fazemos sobre os fenômenos […]. Por isso, nossa reflexão é uma reflexão gramatical. E esta reflexão ilumina o nosso o problema, removendo mal entendidos. Mal-entendidos que dizem respeito ao uso das palavras, provocados, entre outras coisas, por certas analogias entre as formas de expressão em diversas áreas de nossa linguagem […]. (WITTGENSTEIN, 1994, p. 65, §90, grifos nossos)

A Gramática, por sua vez, não é objeto de verificação, mas de aceitação, pois o jogador não questiona as regras convencionais84 enquanto joga, visto que o jogo só existe na

medida em que elas são seguidas. Sendo assim, Wittgenstein procura esclarecer quais seriam as possíveis fontes de nossa falta de compreensão:

Uma das principais fontes de nossa falta de compreensão é que não dominamos com uma clara visão o uso de nossas palavras. Falta à nossa gramática uma disposição clara. Uma exposição de conjunto transmite a compreensão, que consiste exatamente em “ver conexões”. Daí a importância de se achar e de inventar conectivos. (WITTGENSTEIN, 1994, p. 74, §122, grifo do autor)

Para Wittgenstein (1999, p. 51), não necessitamos de pressupostos metafísicos para justificar a possibilidade do conhecimento. No parágrafo §66, constatamos que são semelhanças de família85 que passam a constituir instâncias do jogo, ou seja, não há uma

essência, ou um fundamento último em todos os jogos de linguagem, mas “traços comuns” que “desaparecem e aparecem”, pois as regras gramaticais se ampliam como, por exemplo, no caso da palavra “jogo”:

Como disse: não pense, mas olhe! – Olhe, por exemplo, os jogos de tabuleiro com seus variados parentescos. Passe agora para os jogos de carta: aqui você encontra muitas correspondências com aquela primeira classe, mas muitos traços comuns desaparecem, outros se apresentam. Se passarmos agora para os jogos de bola, veremos que certas coisas comuns são mantidas, ao passo que muitas se perdem. Prestam-se todos eles ao entretenimento? Compare o xadrez com o ludo. Ou há, por toda parte, ganhar e perder, ou uma concorrência dos jogadores? […] E assim podemos percorrer os muitos, muitos outros grupos de jogos, ver as semelhanças aparecerem e desaparecerem. E o resultado desta observação é: vemos uma complicada rede de semelhanças que se sobrepõem umas às outras e se entrecruzam. Semelhanças em grande e em pequena escala. (WITTGENSTEIN, 1994, p. 51-52, §66, grifos nossos)

84 De acordo com a perspectiva das filosofias pragmáticas, cabe o esclarecimento de Granger (2013) a respeito da palavra “convenção”: “Dois traços emprestados do seu uso comum nos parecem aqui ser preponderantes. De um lado, uma convenção supõe aceitação de um enunciado ou de uma regra de conduta, por vários sujeitos, nem que estes sejam fictícios. Ela supõe uma intersubjetividade de princípio, um acordo, sem exigência de justificação por quem a propõe. Por outro lado, uma convenção leva a um enunciado ou a uma regra livremente escolhida, entre outras possíveis, ou mais exatamente, de outras ‘virtuais’. Não são necessariamente arbitrárias, mas também não são dadas explícita e originalmente, as razões de sua escolha” (p. 291, grifo nosso).

85 No parágrafo §67 das Investigações Filosóficas, Wittgenstein (1994) esclarece o que foi apresentado no parágrafo §66, como “semelhanças em grande e pequena escala”. Vejamos a explicitação de uma das ideias centrais de sua terapia filosófica: “Não posso caracterizar melhor essas semelhanças do que por meio das palavras ‘semelhanças familiares’; pois assim se sobrepõem e se entrecruzam as várias semelhanças que existem entre os membros de uma família: estatura, traços fisionômicos, cor dos olhos, andar, temperamento etc. E eu direi: os ‘jogos’ formam uma família” (p. 52, §67, grifos nossos).

Contrapondo-se às teorias essencialistas do conhecimento, Wittgenstein sugere que não pensemos, mas olhemos; propondo, assim, que não formulemos teorias e teses, mas vejamos como realmente empregamos nossos conceitos, ou seja, que olhemos como agimos ao usar os conceitos, pois, na terapia filosófica, o que se busca com o esclarecimento das confusões linguísticas é a cura do pensamento dogmático, quando este se encontra perdido ao buscar sentidos essenciais e extralinguísticos.

Como podemos observar, a concepção de linguagem do filósofo austríaco é absolutamente pragmática e rompe radicalmente com a tradição. Em diferentes pontos de sua obra, Investigações Filosóficas, Wittgenstein explicita o que entende por jogo de linguagem, mas, no parágrafo §66, encontramos uma elucidação do conceito de jogo, ou de jogar, que serve para apresentar outro conceito, o de semelhança de família (cf. OLIVEIRA, 2004, p. 339-340).

Isso implica que toda observação dessa multiplicidade é também uma análise parcial de determinada forma de vida (Lebensform), pois, à medida que se torna claro como uma determinada expressão ou determinada locução deve ser empregada numa situação (bem como em que espécie de situação o emprego é permitido), conseguimos uma informação parcial a respeito das “regras para o uso” e do significado da locução ou da expressão. Este método de sucessivas introvisões acerca dos significados, das igualdades de significados e das diferenças de significados, é demorado e cansativo (STEGMÜLLER, 1976, p. 453).

Ainda sobre este aspecto, Gottschalk (2007b) aponta que uma das contribuições de Wittgenstein para o esclarecimento da concepção referencial da linguagem foi ter sugerido que “não pensemos, mas olhemos” como de fato utilizamos a linguagem. Para o pensador, o significado de uma palavra está no uso que fazemos dela no interior do jogo de linguagem, em um determinado contexto. A expressão jogo de linguagem é utilizada para enfatizar que não há significados fixos e imutáveis, que seriam apenas etiquetados por meio das palavras. Sobre essa questão, a pesquisadora esclarece que as palavras

são imersas em diferentes atividades e é apenas quando as aplicamos em um determinado contexto que adquirem significado. Assim, da mesma forma que uma peça de tabuleiro em um jogo de xadrez difere de uma mera peça de madeira em virtude de seu papel no jogo, as palavras só adquirem sentido ao serem empregadas dentro de um jogo de linguagem. (GOTTSCHALK, 2007b, p. 464-465, grifos nossos)

Para Wittgenstein, agimos com sentido em uma determinada instituição, segundo o que se espera em seu interior86:

o significado da palavra cadeira vai ser dado pela regra, ou por um conjunto de regras que estou seguindo ao empregar essa palavra em um determinado contexto, e não por uma experiência que seja extraída de determinados objetos empíricos. Daí o termo jogo de linguagem. Utilizamos as palavras dentro de uma linguagem que tem regras de uso, que não se confundem com nossas experiências empíricas. São regras públicas, que são ensinadas e aprendidas. (GOTTSCHALK, 2007b, p. 465, grifos nossos)

Podemos concluir que aprendemos o significado das palavras aprendendo a utilizá-las, da mesma forma que aprendemos a jogar xadrez: “não pela associação de peças a objetos, mas sim pelo aprendizado dos movimentos possíveis para tais peças”. Dessa forma, os jogos de linguagem são ensinados como “modos de usar” signos, que são mais simples do que aqueles usados em nossa linguagem cotidiana como “formas primitivas de linguagem”, com as quais “uma criança começa a usar as palavras” (GLOCK, 1998, p. 226).

O parágrafo §476 da obra Da Certeza (2012) exemplifica a relevância das práticas de usos na linguagem para o aprendizado da criança quanto à compreensão de diferentes sentidos das palavras:

A criança não aprende que há livros, que há poltronas etc; mas sim aprende a ir buscar livros, sentar-se em poltronas etc. Evidentemente, depois surgirão também questões de existência: “Existe um unicórnio?”, etc. Mas uma questão dessas só é possível porque geralmente não surge uma que lhe corresponda. Pois como se sabe como fazer para nos convencermos da existência de unicórnios? Como se aprendeu o método para determinar se algo existe ou não? (WITTGENSTEIN, 2012, p. 285, §476, grifo nosso)

O conceito de uso, dessa forma, deverá ser entendido de um modo muito amplo, abrangendo tanto o uso da expressão linguística por parte do falante, como também o uso por parte de quem pode compreendê-lo, ou não.

Já no parágrafo §501, da mesma obra citada acima, observamos que na segunda fase de seu pensamento, até mesmo as regras da lógica devem ser concebidas como mais um jogo

86 Inspirada na teoria da Epistemologia do Uso de Moreno, Gottschalk (2007b) destaca que recortes do empírico passam a ter uma função transcendental, tornando-se regras para o uso das palavras ao organizar a nossa experiência, tanto externa como interna, tais como: tabelas, gestos ostensivos, amostras de objetos empíricos, entre outros fragmentos que são utilizados como meios de apresentação de objetos associados a palavras e, por conseguinte, passam a fazer parte da linguagem, deixando de ser elementos meramente empíricos para se tornarem instrumentos linguísticos.

de linguagem87, no qual o sentido também é apreendido a partir da prática. Ou seja, por meio

de práticas de usos, estas regras constituem sua significação dentro da linguagem88, pois

segundo o filósofo: “Não estou cada vez mais perto de dizer que, afinal de contas, a lógica não se deixa descrever? Tu tens de observar a prática da linguagem, então tu a vês” (WITTGENSTEIN, 2012, p. 295, §501, grifo nosso).

Dessa maneira, destacamos, a seguir, o parágrafo §7 das Investigações Filosóficas, que elucida práticas de uso da linguagem para as questões relacionadas também ao ensino e à aprendizagem:

Na prática do uso da linguagem (2)89 uma parte grita as palavras, a outra age de acordo com elas; mas na instrução da linguagem vamos encontrar este processo: o aprendiz dá nome aos objetos. Isto é, ele diz a palavra quando o professor aponta para a pedra. – De fato, vai-se encontrar aqui um exercício ainda mais fácil: o aluno repete as palavras que o professor pronuncia – ambos, processos linguísticos semelhantes. Podemos imaginar também que todo o processo de uso de palavras em (2) seja um dos jogos por meio dos quais as crianças aprendem sua língua materna. Quero chamar esses jogos de “jogos de linguagem”, e falar de uma linguagem primitiva às vezes como de um jogo de linguagem. E poder-se-ia chamar também de jogos de linguagem os processos de denominação das pedras e de repetição da palavra pronunciada. Pense em certo uso que se faz das palavras em brincadeiras de roda. Chamarei de “jogo de linguagem” também a totalidade formada pela linguagem e pelas atividades com as quais ela vem entrelaçada. (WITTGENSTEIN, 1994, p. 18-19, §7, grifos nossos)

Como pudemos observar no tópico anterior, Wittgenstein (1999) introduz as Investigações Filosóficas a partir da crítica à teoria referencial da linguagem, citando uma passagem das Confissões de Santo Agostinho. O filósofo observa que Agostinho não fala de uma diferença entre espécies de palavras, dessa maneira, considerando apenas nomes de

87 A concepção de multiplicidade de jogos de linguagem e suas semelhanças de família – por meio dos quais a criança aprende as regras de usos de sua língua nativa e também pelos quais esta é ensinada – ancorará as bases de nossa pesquisa, pois defendemos modos diferentes de olhar e interpretar as atividades de ensino e os processos de aprendizagem na fase inicial da alfabetização em detrimento de uma única e exclusivista concepção, que, por seu caráter generalista, pode acarretar equívocos em suas implicações pedagógicas. 88 A respeito do funcionamento específico da linguagem, Moreno (1995) afirma que ela “Não é algo de único

ou de inaudito; ela é uma dos muitos exemplos de ‘formas de vida’ tais como beber, andar, comer – diz Wittgenstein, e podemos acrescentar – perceber, ler, compreender, prestar atenção, aprender, ter sensações ou sentimentos, querer dizer, medir etc. Mas podemos perguntar-nos, qual é o solo sobre o qual repousam as formas de vida? Não é certamente, um fundamento, no sentido filosófico tradicional; é algo que poderíamos denominar de Mundo. – evocando e, ao mesmo tempo, contrastando com essa noção presente no Tractatus: a estabilidade relativa dos objetos empíricos e dos comportamentos dos seres vivos. Na ausência dessa estabilidade relativa, nossas formas de vida habituais perderiam seu sentido e, mesmo, não seriam possíveis” (p. 15).

89 Wittgenstein faz alusão ao parágrafo §2, da obra Investigações Filosóficas, bastante conhecido por apresentar o jogo de linguagem primitivo entre um construtor e o seu ajudante, que será apresentado, nessa pesquisa no tópico intitulado: 2.5. “Definição, gesto e ensino ostensivo: a relevância do treinamento para a aprendizagem das palavras”.

coisas e de pessoas, ou em outros tipos de palavras como algo que se terminará por encontrar (p. 27-28).

A partir dessa consideração, Wittgenstein demonstra que nem todas as palavras possuem a mesma função, tal como designar objetos do mundo. Por meio de exemplos, esclarece que nem todas as palavras são nomes de objetos e que, também, confundimos o significado dos nomes com seus portadores. Vejamos o primeiro exemplo, oferecido pelo