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2.3 Jogos cooperativos
Enquanto a fluidez das ações se coloca como uma realidade cada vez mais próxima do teatro, essa mesma fluidez tem acontecido de maneira inversa por diversos setores da sociedade, gerando grandes preocupações e conflitos seja no âmbito das relações sociais, políticas, econômicas, ecológicas, culturais ou educacionais, pois os impactos dessa densidade comportamental revelam sérios reflexos na humanidade e na vida do planeta, como um todo.
A história da civilização revela que entre a maioria dos povos e países as relações não aconteceram em situações de igualdade, de respeito mútuo, de solidariedade e de cooperação, pelo contrário, prevaleceram a dominação, a exploração e a competição.
Segundo Correia (2006), autores como Capra (1982 e 2001), Boff (2000), Santos (2001) e Russel (1992) identificam crises e problemas que justificam a preocupação com o futuro e que se mantidas as concepções vigentes que os sustentam, corremos o risco de conduzir o planeta e a humanidade a condições próximas aos tempos de barbárie ou, até mesmo, de não termos futuro.
O autor ainda aponta a necessidade de revisar, renovar e reorientar paradigmas e valores do mundo dito civilizado e destaca a importância dos sistemas educacionais para condução desse processo:
Com isso, pretende-se também evidenciar que dificilmente garantiremos algum futuro dignamente humano se a cooperação não for imediatamente 7estimulada e amplamente vivenciada em nossa sociedade e se os sistemas educacionais, escolas e professores não assumirem o papel de condutores desse processo de mudança e revisão que se fazem urgentes (CORREIA, 2006, p.23).
Vale ressaltar que a atuação e a intervenção do professor nesse contexto de aplicação dos jogos, no âmbito escolar, especificamente em sala de aula, passam a significar uma alternativa simples para a realização dessas possibilidades de mudanças sociais.
Friedmann (1996, p. 74) destaca que o professor deve estruturar a utilização de jogos no seu planejamento de modo a contemplar o aluno com a aquisição ou desenvolvimento de algumas habilidades:
• Propor regras e leis, em vez de impô-las. Os alunos ao elaborarem e decidirem sobre as regras exercitarão uma atividade política e moral;
• Possibilitar a troca de ideias para chegar a um acordo sobre as regras, praticando a descentralização e coordenação de pontos de vista;
• Dar responsabilidade para fazer cumprir as regras e inventar sanções e soluções;
• Permitir julgar qual regra deverá ser aplicada; • Fomentar o desenvolvimento da autonomia;
• Possibilitar ações físicas que motivem as crianças a serem mentalmente ativas.
O jogo como uma prática educacional abre caminhos para a ampliação da percepção de mundo e de valores agregados a uma prática sólida e constante, o que coaduna com a função do teatro no sentido de transformar e ressignificar o seu espaço social a partir da mudança de comportamento e pensamento crítico dos sujeitos envolvidos.
De acordo com Brotto, a aplicação do jogo como pedagogia possui algumas condições e implicações que podem surgir a partir desta prática:
Ao adotarmos o Jogo como uma pedagogia, assumimos o compromisso de recriá-lo constantemente, visando o exercício crítico-criativo permitindo àquele que participa do jogo conhecer e experimentar, tanto o já existente, como o que ainda está para existir. A percepção das possibilidades de
ExerSer (pôr o Ser em exercício) e de InterSer (Ser com os outros) em sociedade, dada pelo Jogo, é uma das primeiras condições para que possamos escolher entre aceitar ou discordar de certas convenções, e então, participar efetivamente do projeto de construção da sociedade em que vivemos (BROTTO, 1999, p.26, grifo do autor).
Nesse sentido, o alinhamento proposto evidencia o estímulo e a vivência da cooperação e não da competição perpassando os campos dos sistemas educacionais e a necessidade da atuação do professor como condutor de um processo de mudança e revisão social. Concernente a essa ideia, a proposta encaminhada nessa vertente trata-se de uma atuação pedagógica aplicada por meio de Jogos Cooperativos.
Os jogos cooperativos não são uma manifestação cultural recente e tampouco uma invenção moderna. Ao longo dos tempos, o jogo sempre foi utilizado de maneira conveniente pelos diferentes povos, preservando os seus rituais e crenças, através das culturas e o meio social.
A essência dos jogos cooperativos “começou a milhares de anos, quando membros das comunidades tribais se uniam para celebrar a vida” (Orlick apud Brotto 1997, p. 66).
De acordo com Brotto (1997), os Jogos Cooperativos surgiram da preocupação excessiva da valorização dada ao individualismo e à competição exacerbada, na sociedade moderna, mais especificamente, pela cultura ocidental, sendo considerada como um valor natural e normal da sociedade humana.
O autor destaca ainda que a competição tem sido adotada em praticamente todos os setores da vida social, o que nos leva a competir com pessoas em lugares e momentos que não deveríamos e, muito menos, precisaríamos, agindo como se essa fosse a única opção.
Correia (2006) destaca que o canadense Terry Orlick pode ser considerado o principal arqueólogo virtual dos jogos cooperativos em razão de seus trabalhos de pesquisa e que, embora Orlick cite como pioneiro o americano Ted Lentz, como o responsável por introduzir os jogos cooperativos na década de 1950, ele é atualmente a principal referência sobre jogos cooperativos.
No Brasil o principal precursor e divulgador dos Jogos Cooperativos é o professor Fábio Otuzzi Brotto,
De acordo com Correia (2006, p. 50), Brotto acredita que os jogos cooperativos criam situações mais favoráveis para atingirmos o objetivo de nos relacionarmos com o outro e com a vida. Acrescenta ainda que, nas diversas oficinas
que realizou com jogos cooperativos, observou que a participação das pessoas ocorria com muito mais sinceridade, despreocupação, respeito mútuo, alegria, união e prazer.
Embora não negue a competição na nossa sociedade, o autor resume de forma clara e simples a sua posição:
O propósito essencial dos Jogos Cooperativos é colaborar para a construção de um mundo melhor para todos... sem exceções, onde “se o importante é competir, o fundamental é cooperar.” Jogando dentro desse Estilo Cooperativo podemos desfazer a ilusão de sermos separados e isolados uns dos outros e percebermos o quanto é bom e importante ser a gente mesmo, respeitar a singularidade e JOGAR PARA VENCER... JUNTOS! (BROTTO, 1999, p.26, grifo do autor).
Apesar dos jogos cooperativos serem bastante difundidos e estudados na área de Educação Física, percebo que sua aplicação dialoga harmoniosamente com a Pedagogia Teatral, pois seu processo envolve a formação e ampliação de valores dos sujeitos envolvidos.
Sobre esse prisma, Brotto afirma que:
Além disso, uma Pedagogia da Cooperação pode ajudá-los a dialogar, a decidir em consenso e a praticar as mudanças desejadas. Exercitando a reflexão criativa, a comunicação sincera e a tomada de decisão por consenso para aprimorar o jogo, as crianças e jovens - e nós, educadores, também - poderão descobrir que têm plenas condições de intervir positivamente na construção, transformação e emancipação de si mesmos e da comunidade onde convivem (BROTTO, 1997, p.3).
A visão de proximidade entre Jogos Teatrais e Jogos Cooperativos convergem para o que considero o resultado da aplicação e vivência dessas práticas pedagógicas, ou seja, o desenvolvimento e a aquisição de habilidades consideradas fundamentais para a construção de elementos favoráveis ao processo de revisão, renovação e reorientação de paradigmas e valores.
Nesse sentido, inserir a experiência com Jogos Cooperativos como recurso metodológico alinhado ao fazer teatral potencializa, naturalmente, um exercício de reflexão sobre práticas, valores e atitudes essenciais para o desenvolvimento da sociedade que segue em formação e transformação permanentes.
As crianças dos anos iniciais sinalizam suas predileções e seus interesses pedagógicos, os quais devem ser observados e utilizados nas abordagens metodológicas educacionais. A atuação em jogos é mantida no campo lúdico, assim como a perspectiva narrativa com os títeres. E nesse interesse pela ludicidade, necessidades e interesses de aprendizagem e experiências sociais, a vivência com
bonecos tende a favorecer esse processo narrativo, dentro de uma proposta pedagógica.
A seguir, apresento um breve histórico sobre Teatro de Bonecos, evidenciando sua história relacionada aos aspectos de caráter animista e de expressividade social, poética e cultural.