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Capítulo II – Enquadramento Teórico

3. Desporto para atletas com deficiência intelectual

3.2 Contexto Internacional

3.2.1 Jogos Paralímpicos

Ao contrário dos Jogos Olímpicos (JO), a história dos JP não remonta à antiguidade, mas sim ao século passado. A sua história é relativamente recente comparada com o universo desportivo, pelo menos enquanto desporto para pessoas com deficiência e desporto onde os melhores possam demonstrar as suas capacidades.

Segundo a literatura (Bailey, 2008; Brittain, 2010; DePauw & Gavron, 2005), o grande início da era dos JP ocorreu após a II Guerra Mundial, impulsionado pelo Dr. Ludwig Guttmann, que utilizava o desporto para a recuperação de soldados feridos em combate. A Guttmann foi solicitada pelo governo britânico a fundação de um centro de recuperação de veteranos de guerra – o Centro Nacional de Lesões na Espinhal Medula/ Medulares, no Hospital de Stoke

Mandeville. Foi neste espaço que ele e a sua equipa tornaram o desporto parte fundamental da recuperação, não só física, mas também psicológica e social dos seus pacientes (Brittain, 2010; Howe & Jones, 2006).

As primeiras atividades desenvolvidas por Guttmann para os veteranos em cadeira de rodas foram o Basquetebol e o Tiro com Arco. Os primeiros Jogos de Stoke Mandeville realizaram-se em 1948, em simultâneo com os JO que decorriam em Londres, mostrando o desejo de Guttmann de que no futuro os jogos por si iniciados se tornassem equivalentes aos JO para atletas com deficiência (Wood, 2011).

O sucesso do programa de Guttmann espalhou-se pelo mundo e outros quiseram desenvolver programas semelhantes. Em 1952, uma equipa de reabilitação militar em Doorn, Holanda, deslocou-se para competir nos Jogos de Stoke Mandeville, tornando esta competição internacional (DePauw & Gavron, 2005; Wood, 2011).

As pessoas com deficiência auditiva foram as primeiras a praticarem desporto de forma organizada (DePauw, 2009). Até à década de 60 apenas existiam competições desportivas organizadas para a deficiência auditiva (Jogos Mundiais) ou para a deficiência motora (Jogos Internacionais de Stoke Mandeville). A partir desta data, surgem novas competições, organizadas para outras áreas de deficiência (DePauw & Gavron, 2005). Surgem então em 1960 os primeiros JP, em Roma (Wood, 2011), apesar do termo paralímpico só ter surgido em 1964 com os Jogos de Tóquio.

Ao contrário dos JO, que estão organizados por modalidades desportivas, os JP encontram-se organizados por deficiências. Assim sendo, a primeira comissão organizadora dos JP foi a International Sport Organization for the

Disabled (ISOD), cujo objetivo era fornecer oportunidades de prática para atletas

com deficiência visual, amputações ou outras deficiências motoras. Inicialmente, este evento desportivo destinava-se apenas a atletas com deficiência motora, primeiramente lesões vertebro-medulares e posteriormente amputações. Mais tarde, a competição foi alargada aos atletas com deficiência visual e com

paralisia cerebral. Em 1996, os atletas com DI juntam-se ao leque de atletas participantes dos JP (Sousa et al., 2013).

Em 1982, a ISOD, em conjunto com a Cerebral Palsy – International Sport

Recreation Association (CP-ISRA), a International Blind Sport Association

(IBSA), e a International Stoke Mandeville Wheelchair Sport Federation (ISMWSF) formam o International Coordinating Committee (ICC). Porém, a evolução do desporto paralímpico conduziu a constantes alterações na história das organizações e o ICC foi, posteriormente, substituído pelo International

Paralympic Committee (IPC), atualmente composto pela ISOD, ISMWSF, IBSA,

CP-ISRA e pela International Sport Federation for Persons with Intellectual

Disability (INAS-FID), denominada INAS. Esta última manteve-se separada do

IPC até aos JP de Barcelona em 1992.

Adicionalmente, apesar de nunca ter participado nos JP, o International

Committee of Sport for the Deaf manteve-se membro do ICC e, posteriormente,

do IPC até 2005, sendo atualmente uma entidade independente. O IPC foi formalmente estabelecido em 22 de Setembro de 1989, em Dusseldorf, na Alemanha, mas com sede em Bonn. O seu objetivo é organizar, supervisionar e coordenar os JP, garantindo a sua realização a cada quatro anos (DePauw & Gavron, 2005).

Desde a primeira edição, os JP têm-se realizado a cada quatro anos, com representantes das várias organizações membro do IPC, à exceção dos atletas com DI. No entanto, entre 1968 e 1984 não se realizaram no mesmo local que os JO. Só a partir dos Jogos de Seoul, em 1988, é que JO e JP (de Verão) partilharam a mesma cidade anfitriã (Brittain, 2010), como é possível observar no quadro 6. O quadro que se segue permite-nos também compreender a dimensão dos JP e o seu crescimento e desenvolvimento ao longo dos anos, nomeadamente, no que refere ao número de atletas e delegações participantes, bem como as modalidades existentes e os tipos de deficiência dos atletas a que se destinavam.

Quadro 6 - Perspetiva histórica dos Jogos Paralímpicos de Verão: 1960-2012, adaptado de IPC (2015)

JO JP

Participações nos JP

Atletas Delegações Tipos de

Deficiência Modalidades

1960 XVII Rome I Rome (ITA) 400 23 LVM 8 1964 XVIII Tokyo II Tokyo (JAP) 375 21 LVM 9 1968 XIX Mexico III Tel-Aviv

(ISR) 750 29 LVM 10 1972 XX Munich IV Heidelberg

(GER) 984 43 LVM 10 1976 XXI Montereal V Toronto

(CAN) 1657 38

LVM, A, DV,

LA 13 1980 XXII Moscow VI Arnhem

(NED) 1973 42 LVM, A, DV, PC, LA 13 1984 XXIII Los Angeles VII Stoke Mandeville (GBR) & New York (USA) 1100 (GBR) 1800 (USA) 41 (GBR) 45 (USA) LVM, A, DV, CP, LA 18 1988 XXIV Seoul VIII Seoul

(KOR) 3057 61 LVM, A, DV, PC, LA 18 1992 XXV Barcelona IX Barcelona (ESP) 3001 83 LVM, A, DV, PC, LA 16 1996 XXVI Atlanta X Atlanta (USA) 3259 104 LVM, A, DV,

PC, LA, DI 19 2000 XXVII Sidney XI Sydney

(AUS) 3881 122

LVM, A, DV,

PC, LA, DI 18 2004 XXVIII Athens XII Athens

(GRE) 3808 135

LVM, A, DV,

PC, LA 19 2008 XXIX Beijing China (CHN) 3951 146 LVM, A, DV,

PC, LA 20 2012 XXX London London (GBR) 4237 164 LVM, A, DV,

PC, LA, DI 20

Legenda:

A – Amputação LA – Les Autres

DI – Deficiência Intelectual LVM – Lesões Vertebro-Medulares DV – Deficiência Visual PC – Paralisia Cerebral

As modalidades de Atletismo, Basquetebol, Esgrima, Natação, Ténis de Mesa e Tiro com Arco, fazem parte do programa paralímpico desde o início. O Basquetebol, que inicialmente apenas se apresentava na “versão” em cadeira de rodas, alargou-se, posteriormente, a outros tipos de deficiência.

Atualmente são consideradas modalidades paralímpicas: Atletismo, Basquetebol, Boccia, Equitação, Esgrima, Futebol de 5, Futebol de 7, Goalball, Halterofilismo, Judo, Natação, Para-Canoagem, Para-Ciclismo, Para-Triatlo, Remo, Rugby, Ténis de Mesa, Ténis em Cadeira de Rodas, Tiro, Tiro com Arco, Vela e Voleibol (Comité Paralímpico Portugal [CPP], 2015). Em 2016, no Rio de Janeiro, serão adicionadas duas novas modalidades desportivas: Para- Canoagem e Para-Triatlo, elevando o número de modalidades paralímpicas a 22 (IPC, 2015). Do enunciado, destaca-se que o Andebol continua a não pertencer ao leque de modalidades paralímpicas.

Tal como os JO, os JP encontram-se divididos em Jogos de Verão e Jogos de Inverno. Apesar de Portugal não participar nos JP de Inverno, nem existir competição de Andebol ou competições para atletas com DI, parece-nos importante salientar que a comissão organizadora dos JP de Inverno de Lillehammer – Noruega, 1994, incluiu duas demonstrações de eventos para atletas com DI (DePauw & Gavron, 2005).

Segundo Brittain (2010), em 1992 foram realizados, em Madrid, eventos dos JP de Barcelona para atletas com DI, com o objetivo desta área da deficiência ser incluída nas competições dos JP, o que se concretizou com o desporto para atletas com DI a ser oficialmente introduzido nos JP em 1996, em Atlanta (IPC, 2012a).

Porém, no ano de 2000, em Sidney, a equipa espanhola cometeu fraude, ao participar com atletas sem DI nas competições de Basquetebol, motivo que levou o IPC a excluir todos os participantes com DI dos Jogos (Corr, 2008). Os atletas com DI estiveram, assim, afastados 12 anos dos JP, retomando-os na última edição dos mesmos, em Londres 2012 (Sousa et al., 2013). Esta inclusão dos atletas com DI nos JP foi possível, devido ao esforço conjunto da INAS e do IPC em melhorar o sistema de elegibilidade e classificação desportiva dos atletas

com DI, para que não ocorressem mais casos de fraude. Assim sendo, nos Jogos de Londres, em 2012, os atletas com DI participaram nas modalidades de Atletismo, Natação e Ténis de Mesa, todas elas com um sistema de classificação desportiva específico (IPC, 2012a).