1.4. Tratados de instrumento e canto
1.4.1. Johann Joachim Quantz
O tratado Versuch einer Anweisung die Flöte traversiere zu spielen (1752) de Quantz é vital para a compreensão da prática musical setecentista graças às discussões do autor que vão além do ensino puro da técnica do instrumento e que visam enriquecer o intelecto do aprendiz, apresentadas no decorrer do texto (REILLY, 2001, p. ix). Dividido em três partes, o tratado compreende a educação do solista (capítulos I–XVI), o ensino do acompanhamento (capítulo XVII) e a última parte, com o intuito de expor as diversas formas e estilos de composição, é dedicado à maneira como a performance e composição musical pode ser julgada. Quantz aponta nesta etapa final do aprendizado de seu tratado para a necessidade de amplo horizonte de conhecimento musical necessário para se julgar uma composição:
To judge properly the composition and the performance of a musical composition as a whole, […] you not only must have perfect good taste and an understanding of the rules of composition, but also must posess sufficient insight into the nature and characteristics of each piece (QUANTZ, 2001, pp. 304-305).
Natureza e característica aqui são ligadas com o propósito da obra, ou seja, qual a função e local de execução desta, o que acarreta na problemática do decoro, visto que “The purposes for which pieces are composed may be very diverse, and thus a piece that is good for one purpose may be bad for another” (Ibidem, p. 305).
Estes propósitos musicais podem ser descritos nos diversos estilos de composição e seus tipos de peças (gêneros), escritos para voz ou instrumentos (estes estão presentes na maioria das composições, visto que de acordo com o autor apenas alguma parte das composições musicais seriam para vozes somente), sendo que cada um contempla propósitos e organizações diferentes (Ibidem, p. 305). Ademais, “[…] but also in their subdivisions, each of which has its particular laws, and requires its particular style of composition. Vocal music is intended for the church, the theatre, or the chamber. Instrumental music is likewise performed in all these places” (Ibidem, p. 305). A divisão proposta por Quantz, com as suas respectivas subdivisões e gêneros referente a cada um destes estilos encontra-se disposta na tabela 1.5.
Tabela 1.5 – Divisão dos estilos musicais para Quantz.
O estilo eclesiástico estaria dividido entre aquele praticado na igreja romana católica e na igreja protestante, a diferença entre estes dois estilos seria principalmente na permissão por parte da igreja católica de maior vivacidade nas composições a ela dedicadas. Porém, o estilo como um todo, incluindo as duas igrejas, é descrito por Quantz da seguinte forma:
In general a serious and devout style of composition and performance is required in church music of any type. […] Here the composer has the opportunity to demonstrate his ability both in the so-called elaborate style and in the touching and affecting style of composition (the latter requiring the highest degree of musical skill). (Ibidem, p. 306).
Longe de ser apenas uma técnica meticulosa de composição, cabe à música para igreja demonstrar suas paixões e excitar os ouvintes tanto quanto a música teatral, um compositor que não consiga realizar este fato no estilo da igreja, dificilmente o fará no estilo teatral (Ibidem, pp. 306-307).
No que toca o estilo teatral, os gênero da ópera para Quantz seriam sempre ou uma tragédia ou tragicomédia, e
Although each class of theatrical piece requires and individual and particular style of composition, on the whole composers take more liberties in them, and give freer rein to their fancies; but they must still respect their obligations, and regulate themselves in accordance with the words and with the nature and content of the subject represented. (Ibidem, p. 307).
Por meio desta regulação, o autor descreve as melhores maneiras de se julgar uma ópera e suas partes, sendo elas a sinfonia, as árias com ritornello e os recitativos. Os principais critérios de julgamento propostos por Quantz encontram-se relacionados com a correta expressão das paixões do texto, a adequação da música à voz do cantor, o cuidado nas árias para os momentos de ação teatral, a inteligibilidade dos recitativos e a adequação das sinfonias com os temas da ópera (Ibidem, pp. 307-308).
Igreja Teatro Câmara
Tipos Católico Romano Protestante
Gêneros
Missa, Salmos das Vésperas, Te Deum laudamus, Salmos penitenciais, Requiem ou missa para os mortos, hinos, motetes, oratório, concerto, sinfonia, pastoral.
Partes da Missa, como Kyrie e Glória, Magnificat, Te Deum, alguns salmos, oratório e a Paixão. Óperas, Pastorais, Intermezzi. Serenata, Cantata, Madrigal, Dueto, Terceto sem instrumentos, Solo cantata.
A música de câmara, por sua vez, é a que permite maior liberdade de composição em relação aos outros dois estilos: “[…] the chamber style requires more liveliness and freedom in its ideas than the church style; and since it has no action, it permits greater elaboration and artifice than the theatre style” (Ibidem, p. 309). Para Quantz, caso uma ária escrita para a igreja e para o teatro seja executada no ambiente camerístico, por estar deslocada de seu propósito, acabaria por ser menos agradável do que uma ária que não expressa nada de particular em suas palavras, mas que consta de uma melodia bonita e aprazível (Ibidem, p. 309).
Embora perpetue a divisão tripartida dos estilos musicais, este último capítulo do tratado de Quantz está mais preocupado em oferecer ao instrumentista extenso conhecimento de diversas formas musicais, principalmente os gêneros mais comuns para a prática do solista como concertos, aberturas, quartetos e sinfonias. Sobrepondo-se aos estilos da câmara, do teatro e da igreja, o autor ainda descreve os estilos nacionais e suas formas de compor e interpretar a música, sendo estes o Alemão, Italiano e Francês. Quantz dedica grande parte deste capítulo final a estes dois pontos (gêneros instrumentais e estilos nacionais), porém, sem diminuir a importância da correta disposição dos estilos musicais.