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3.2 JOHN LOCKE

3.2.1 John Locke e Azeredo Coutinho: Necessidade do Trabalho

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Apontando a necessidade do trabalho na preservação da existência humana, “por todos os meios que a mesma natureza pôs das suas mãos”, Coutinho elege essa categoria como um dos pilares de sua refutação.

É interessante, nesse caso, fazer um paralelo com Locke, porque o trabalho” é um dos pilares de sua teoria a respeito da propriedade. Segundo ele, em um primeiro momento, “no estado de natureza”, o homem trabalha para sua subsistência. No segundo, trabalha para estabelecer o direito de propriedade. Depois das terras cercadas, o homem é obrigado o “vender o seu trabalho” para o seu sustento, isto é, sobrevivência.

Locke (1998, p. 416) entende que é apenas por meio do trabalho que o homem valoriza a terras e suas riquezas: “sem trabalho, a extensão da terra é de tão pouco valor [...]”

Argumenta ele:

Não pode haver demonstração mais clara disso do que a feita pelas diversas nações americanas, que são ricas em terras e pobres em todos os confortos da vida; às quais a natureza abasteceu tão generosamente quando a qualquer povo com os materiais da fartura, ou seja, um solo fecundo, apto a produzir em abundância o que poderia servir de alimento, agasalho e deleite. E contudo, por não ser melhorado pelo trabalho, não tem um centésimo das conveniências de que desfrutamos. E o rei de um território largo e fértil de lá alimente-se, veste-se e mora pior que um trabalhador diarista da Inglaterra. (LOCKE, 1998, p. 421)

As nações americanas, na concepção de Locke, são ricas em terras, porém pobres porque não as aproveitam bem, o que gera a produção de subsistência. Já as terras “cercadas” da Inglaterra produzem mais manufaturas e riquezas para o comércio e indústria. O trabalho valoriza as riquezas da terra, por meio dele, o homem produz riquezas para seu país.

Na teoria econômica de Coutinho, o trabalho também é um meio de produzir riquezas para Portugal e Brasil colônia. Na obra Ensaio, considera a América como um terreno abundantíssimo e o Brasil como o mais abundante da América:

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Portugal tem duas sortes de estabelecimento nas duas Índias e na costa da África. Os das Índias e da costa da África só têm por objeto o comércio e os da América a cultura e o comércio juntamente; e, por isso, de todos os estabelecimentos de Portugal o Brasil é não sómente o mais rico, mas também é aquêle que merece mais cuidado e mais atenção. (COUTINHO, 1966, p. 138)

Portugal poderia usufruir das riquezas das terras abundantes do Brasil, mas era preciso investir na produção dessas riquezas, o que incluía o trabalho escravo. Segundo Coutinho, era abundante a riqueza que possuía o Brasil colônia, bastava saber usufruir dela.

Para o pensador brasileiro, a Metrópole e as colônias deveriam considerar a agricultura e tudo o que a terra produzia como o prédio de um agricultor,

cujo fim é conservar a sua casa em abundância e ter um grande supérfluo para vender aos estranhos. Ao possuidor de muitas quintas não importa, nem deve importar, que esta ou aquela lhe renda mais: só assim, que tôdas lhe rendam muito. (COUTINHO, 1966, p. 153)

Quanto à necessidade de saber usufruir das terras abundantes da América, Coutinho se aproxima em alguns pontos de Locke. Coutinho afirma, no Ensaio, que nenhuma nação tem um terreno tão criador como a América portuguesa, já que este se compreende nos dois melhores climas das zonas tórrida e temperada;

E o que falta num, sobeja no outro, e ambos entre si produzem mais do que todos os outros da Europa juntamente (a). O Rio Grande, principalmente, produz todos os frutos da Europa, muito melhores e em muito maior abundância; só ele é capaz de dar trigos a todo Portugal e a muita parte da Europa; da mesma sorte, o lindo-cânhamo para a sua marinha e outros gêneros de primeira necessidade. (COUTINHO, 1966, p. 140- 141)

Nessa passagem, Coutinho menciona as riquezas da colônia, especificamente os frutos e gêneros de primeira necessidade. A terra é abundante e rica em frutos, mas é necessário homens e técnicas para

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aproveitá-las. Para Locke (1998, p. 422), “deve-se preferir a abundância de homens à vastidão dos domínios”. Segundo ele, a grande arte de governar consiste na ampliação das terras e no uso correto delas. Nesse sentido, Coutinho e Locke compartilham da ideia de que “a grande arte de governar consiste no uso correto das terras”, embora suas realidades sejam diversas. Ao passo que Locke se refere às terras da Inglaterra, isto é, terras cercadas, Coutinho se refere às terras abundantes do Brasil, porém pouco utilizadas e dependentes da mão-de-obra escrava.

Na concepção de Coutinho, (1966, p. 152) “a arte do negociante consiste em se fazer senhor dêste ou daquele ramo de comércio”. Dito de outra forma, sua arte é promover um bom mercado para que o comércio e a indústria possam comercializar seus excedentes de primeira necessidade, sem concorrentes, de preferência.

Coutinho defende a riqueza e o comércio em um país de terras incultas e abundantes. Por isso, considera que o sistema escravista é o mais viável. Ao defender essa instituição, ele argumenta com o direito de propriedade. Na concepção de Coutinho, a mesma natureza que criou os homens para a sociedade os fez dependentes uns dos outros para se ajudarem, ou seja, não há sociedade sem “cooperação” ou auxílio mútuo para que os homens possam interagir, sobreviver e desenvolver o comércio entre si.

A força do comércio está no trabalho, é este que proporciona “meios” para incentivar e promover a indústria da nação. Nos argumentos elaborados por Coutinho, o homem não é um “indivíduo dentro da sociedade”, mas a própria sociedade para a qual foi destinado, ou seja, por natureza, ele não tem a liberdade que os precursores revolucionários alardeavam.

Quem garante justiça ao direito à propriedade? As leis? Segundo Coutinho, em razão das diferenças existentes entre os membros da sociedade, é preciso ter uma lei geral que regule o melhor bem de cada membro. A lei que regula os direitos de cada um dos homens na sociedade é a lei natural, mas uma lei da mesma natureza que criou o homem para a sociedade. Essa lei,

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segundo Coutinho, deverá ser ditada por um “meio humano”, isto é, uma lei humana que respeite o costume, a família, sociedade, “o meu e o teu”, ou seja, o direito de propriedade.