funções do direito social trabalhista na formação do ca- ca-pitalismo brasileiro
JORGE STREET E O DIREITO SOCIAL-TRABALHISTA
O industrial Jorge Street, talvez seja pela sua ambiguidade, seja re-presentante um de distinção da classe burguesa industrial, um “homem do seu tempo”, tanto nos debates de política econômica protecionista, quanto no debate social.
J. Street era chamado por seus pares de “poeta da indústria” e “socia-lista utópico” e pelos jornais operários de “burguês hipócrita”. Alguns relatos de seus operários à época da Vila Maria Zélia diziam que era um “Pai”, “pa-trão diferente” (cf. TEIXEIRA, 1990). O jurista Evaristo de Morais Filho na obra por ele organizada Ideias Sociais de Jorge Street o trata como “o bom patrão” (cf. MORAES FILHO, 1980).
Desde o início do século XX, sua “vanguarda” entre os industriais se destacava na questão social de defesa do direito social-trabalhista. Já em 1917-19, empreendeu a construção da primeira vila operária em São Paulo com casas “higiênicas” para os operários (ibid., p. 23).
Ainda em 1919, na revista A Razão dizia que “O direito de reunião e o direito de greve são tão incontestáveis que não admitem discussão (...) e que o direito de greve pacífica é reconhecido pelas leis” (apud TEIXEIRA, 1990, p.33).
A construção da vila operária Maria Zélia, inaugurada em 1917, foi usada como modelo de moradia operária no Brasil, replicada pelo Estado como política pública e contava com:
creche, jardim de infância, dois grupos escolares, restaurante, sede de sociedade operários da fábrica e escoteiros, armazém de comestíveis e fazendas, farmácia e gabinete médico, igreja, cassino e 181 casas tér-reas para residência de empregados e operários, mais um edifício térreo com 26 apartamentos para residência de operários solteiros. (TEIXEIRA, 1990, p. 28).
Sua riqueza tinha origem no capital mercantil, em torno do café, no giro importação-exportação e comércio interno, como fonte importante de investimento industrial. A importação não constituía obstáculo direto aos interesses industriais à época. Foram os negócios de importação de tecidos a fonte originária do capital industrial de Street (TEIXEIRA, 1990, p. 17), de forma que “as possibilidades manufatureiras surgiram na esteira da economia exportadora” e “o mercado consumidor de manufaturados ligava-se à dinâmi-ca da economia cafeeira e à ascensão da nova burguesia” (ibid., p. 18). No caso do setor têxtil, por exemplo, o desempenho das exportações – café, algodão, açúcar, fumo e cacau – gerava aumento da demanda por ensacamento, enfar-damento, vestuário e cobertores para as classes trabalhadoras.
Apesar do parque industrial paulista ser maior, as associações de in-dustriais, como o Centro Industrial do Brasil (CIB) e a Companhia Nacional
de Tecidos de Juta (CNTJ) mantinham-se no Rio de Janeiro por conta da proximidade com o poder político, demonstrando as relações entre burguesia industrial e Estado ainda nos primeiros anos do século XX. Jorge Street ti-nha claramente aspirações políticas (ibid., p. 21).
O “poeta da indústria” desempenhou muitos cargos de presidência e diretoria nas principais associações classistas da indústria à época. Estas de-claravam, como nas atas do CIB, que “diante da nova mentalidade proletária” é necessário demonstrar a força da união da “classe toda dos patrões, feita num bloco sem falhas, e daí a sensação de força irreprimível que dele prema-na.” (ibid., p. 48).
Em 1931, na gestão de Lindolpho Collor no recém criado Ministério do Trabalho, Iindústria e Comércio, J. Street é nomeado diretor-geral do Departamento Nacional de Indústria de Comércio, órgão do referido Minis-tério. Neste período, o ministério passa por uma série de estudos sobre a realidade dos operários e criam vários projetos de lei. Ainda que a maioria só tenha sido efetivada nas gestões seguintes a de Collor (TEIXEIRA, 1990, p. 157), duas leis foram aprovadas no período: a de Sindicalização e a de Nacio-nalização do Trabalho.
Entre esses projetos se destacam: horário de trabalho; regulamenta-ção do trabalho feminino e do menos; convenções coletivas de Trabalho, Jun-tas de Conciliação, Julgamento e Salário Mínimo. (ibidem)
Em 1935, Jorge Street, então diretor do Departamento Estadual do Trabalho de São Paulo, pronunciou uma conferência no Instituto de Enge-nharia, onde se propôs a palestrar sobre a legislação social trabalhista, convi-dado pelo líder industrial e presidente do Instituto, o paulista Roberto Si-monsen. Nesta palestra, algumas defesas e declarações são relevantes para compreender a compreensão funcional do direito em Street, seu “vanguar-dismo” e a posição diversa entre os empresários.
A narrativa busca sensibilizar os empresários quanto a necessidade humana das leis, uma “necessidade hoje inelutável”, em busca de “paz materi-al”, “justiça socimateri-al”, “pacificação dos espíritos”, “bem-estar físico, moral e inte-lectual dos assalariados” e “ato de fé e esperança”, afirmando ainda que a “questão social” já é um consenso entre as nações do mundo no pós primeira guerra, em referência ao Tratado de Versalhes e a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 1919. De forma que, o trabalho “não deva ser considerado como uma mercadoria” (MORAES FILHO, 1980, p. 422).
Essa é uma referência direta ao primeiro princípio da OIT, “trabalho não é mercadoria”, o que já aponta a heterogeneidade do direito como ideologia em relação à realidade de exploração da força de trabalho, ao certo, utilizada como mercadoria na extração de mais-valor.
Na conferência, o industrial segue afirmando que o argumento eco-nômico não deve contrariar o argumento social, pois a força da ideia de justi-ça “hoje foi vencedora em toda a parte” e que “Negar a existência de uma questão social no Brasil foi um erro” (ibid., p. 424), pois o problema existia. “(...) incontestavelmente abusos e injustiças contra crianças, mulheres e mesmo operários homens, no que diz respeito à idade de admissão, do horário e do salário, principalmente, (...) sabeis que falo por experiência própria” (ibid., p. 425).
Tendo sido dono de fábricas durante 35 anos, Street “confessa”:
Confesso que trabalhei com crianças de 10 ou 12 anos e talvez menos, porque nesses casos os próprios pais enganam. O horário normal era de 10 horas e quando necessário de 11 ou 12. O que vos dizer das mu-lheres grávidas que trabalhavam até a véspera, que vos digo? Até qua-se a hora de nascer o filho? (MORAIS FILHO, p. 1980, p. 425).
Segue afirmando, demonstrando a relação entre os anos trinta e a função do direito social, que esse foi o “compromisso de honra” que a “Revo-lução de 30” assumiu durante o Governo Provisório e com a “força tumultuá-ria e irresistível, pelas reivindicações das massas trabalhistas (...) essas ideias não param mais, até se tornarem realidade” (ibid., p. 424).
Discorre ainda, sobre a “necessidade da sindicalização” (ibid., p. 428), realçando a funcionalidade da regularização sindical e a preocupação com as diversas greves. Para isso, indispensável também o papel de um elemento indispensável, a saber, o Estado:
interdependência, que torna estéril o capital sem o braço (...) [surge] Daí a necessidade de órgãos, que estabelecessem o equilíbrio de recíprocos deveres e direitos (...) só atingível pelas uniões de classes, em cuja direção fossem colocadas as elites de boa-fé, fiscalizadas por sua vez pelas massas constituí-das pelos membros dessas associações, que na nossa legislação são os sindica-tos (ibidem)
Assim, ante a necessidade de um terceiro elemento coordenador com força de intervenção, este papel só poderia ser assumido pelo governo, bus-cando a “realização jurídica e econômica da colaboração de classes” e “equilí-brio de interesses divergentes ou opostos”, tomando o sindicato “uma insti-tuição de defesa de direitos, mas que também deve regular deveres.” (ibid., p. 429).
O industrial não “confessa”, entretanto, que o Estado, através dos operadores da burocracia jurídica, sendo o “terceiro elemento coordenador”, é constituído pelos interesses e por membros da burguesia industrial e comer-cial e não pelos interesses e membros da classe trabalhadora.
Além disso, apesar da crítica “romântica”, ele deixa claro a função da sindicalização de dissipar o “risco” de radicalização e agitação “tirânica e per-turbadora” das organizações coletivas do trabalho.
Assim, apesar de defender greves “justas e pacíficas” como um direi-to, o sindicato seria um meio de organização capaz de controlar o número de greves, ou seja, em verdade, caberia ao sindicato o papel regulador de greves e desmobilizador da classe proletária (ibid., p. 430).
O industrial, como membro dos Departamentos de Trabalho, tanto em nível federal, no ministério de Lindolpho Collor, quanto em nível estadu-al em São Paulo, cumpriu papel de legislador e aproximou-se da lógica inter-na do direito, inter-na conferência de 1935 ele trata dos direitos como “princípios”, na lógica da OIT, argumentando no sentido “não só humanitário como jurí-dico, pois é bem sabido que a boa hermenêutica interpretativa das leis não se apega só à letra, e olha mais para o espírito” (ibid., p. 436).
Além disso, cita como defesa do princípio “em favor do empregado” a “abundante jurisprudência estrangeira (...) a alemã, a francesa e mesmo a italiana” (ibid., p. 444). Numa relação próxima de industriais e juristas.
Pode-se perceber a proximidade entre o discurso em 1935 de J. Street sobre os sindicatos e os de Vargas que em discurso havia dito que graças à legislação sindical, conseguiu-se que os sindicatos, “em vez de atuarem como força negativa, hostis ao poder público, se tornassem, na vida social, elemen-to proveielemen-toso de cooperação no mecanismo dirigente do Estado."
Neste mesmo sentido, também Lindolpho Collor discorreu que: "Os sindicatos ou associações de classe serão os pára-choques destas tendências antagônicas. Os salários mínimos, os regimes e as horas de trabalho serão assuntos de sua prerrogativa imediata, sob as vistas cautelosas do Estado." (cf. GOMES, 2014).
De forma que, a princípio, se ressalta a atuação direta, em órgãos administrativos do Estado, e na participação nas associações industriais, para tomar a dianteira do processo de enquadramento dos trabalhadores através do direito sindical e das habitualidades empresariais.
Seu discurso se aproxima da tecnicidade na lógica interna do direito, e ressalta o discurso de “paz social” que tinha relevo entre os juristas do tra-balho, como Oliveira Vianna e Evaristo de Moraes.