Há uma evolução da cultura da mobilidade, a partir de cada perí- odo histórico (LEMOS, 2009), mas foi a partir do século XIX que as condições de mobilidade aceleraram-se devido às revoluções de transporte e de comunicação (SILVA, 2013). Os computadores e os telefones, estruturantes do atual ecossistema midiático, foram ca- racterizados por muitos anos pelo gigantismo e imobilidade (PA- LACIOS, 2013). O processo de miniaturização desses artefatos só começou a ocorrer a partir da década de 1970. Aos poucos, com- putadores e telefones foram transformados em equipamentos portáteis e de conexão ubíqua:
A soma dos fatores de miniaturização de com- ponentes eletrônicos com a expansão das redes sem-fio de vários formatos e abrangências tornou a existência de aparatos de comunicação móvel possível. Esses meios portáteis de computação conectados à rede proporcionam o deslocamento do acesso à Internet para qualquer lugar do globo. Essa nova configuração não representa somente uma facilidade de conexão, mas toda uma poten-
cialidade de novos usos, bem como a transforma- ção dos existentes. A questão inclui não só o lugar (espaço), mas também a quantidade (tempo) de exposição à conexão na qual indivíduos passam a estar inseridos (PELLANDA, 2009a, p.90).
Cada nova funcionalidade incorporada nestes dispositivos os torna ainda mais semelhantes aos computadores, surgindo o ter- mo “Pós-PC” para caracterizar o grau de evolução da computação caracterizado pela portabilidade e pela ubiquidade (SILVA, 2013; PELLANDA, 2009a). Na figura abaixo (Figura 1) é possível ver as principais mudanças pelas quais os computadores passaram: de formatos fixos e grandes até os atuais portáteis e pequenos. Esses artefatos estão cada vez mais próximos de nós. Podem andar no nosso bolso ou na nossa bolsa e até no nosso corpo, constituindo assim uma relação muito mais próxima com usuário.
Figura1: Mudanças nas plataformas de computação
Fonte: Organização da autora.
A principal transformação que os dispositivos móveis trazem é a conexão contínua – denominada de always on (PELLANDA, 2009a, 2009b). Cada vez estamos mais conectados, seja por smartphones,
tablets ou pelos wearables. Nesse sentido, Turkle (2011) afirma que
estamos nos tornando robôs sociáveis e sem os nossos dispositivos nos sentimos desconectados. Consequentemente, não estar conec-
tado seria algo perigoso para o desempenho social e profissional de uma pessoa. Igarza (2009) define dois tipos de conectividade: a co- nectividade fixa que seria quando estamos todo tempo “conectado a” pelo menos um dispositivo, sugerindo algo fixo, e, a hiperconecti- vidade, quando estamos todo tempo, potencialmente, “conectado através de” pelo menos um dispositivo em rede.
Se nós estamos mais conectados, o jornalismo também tem se transformado e investido na distribuição de conteúdos em table-
ts, smartphones, e mais recentemente, em smartwatches. Nesse
sentido, Franciscato (2014) afirma que o jornalismo também vem sendo reconfigurado pelas tecnologias digitais a partir de uma tendência crescente de digitalização de dados e produtos, inter- ligação da sociedade em redes de comunicação, miniaturização, automatização e comunicação móvel. Dessa forma, grande parte dos produtos jornalísticos são disponibilizados em formato digi- tal, e cada vez mais, é possível consumi-los de forma móvel, ubí- qua e social.
O jornalismo móvel, como entendido hoje, surge em meados da década de 1990 com a internet comercial e a consolidação da microeletrônica e das telecomunicações e se intensifica a partir de 2000 com o surgimento de novos produtos portáteis (SILVA, 2013). Considerando a relação jornalismo e mobilidade, Silva (2013) aponta que desde 2010 vivemos uma quinta fase32 do jornalismo
32As fases que antecedem a atual são: 1ª Fase - Tele-analógica (entre 1960 e 1970): tem influência dos recursos do telegráfo e da transmissão por ondas de rádio. 2ª Fase - Portátil analógica (1980): transição entre a tele-analógica e a mobilidade expansiva. 3ª Fase - Mobilidade expansiva (1990): os recursos das tecnologias sem fio e portáteis ain- da eram limitados. Foi no final desta fase que surgiu o jornalismo móvel como enten- demos hoje - caracterizado pela mobilidade e portabilidade - a partir da digitalização do aparato e da emergência de novos dispositivos. 4ª Fase - Ubíqua (2000): é quando o jornalismo móvel digital realmente tem início, devido a expansão da relação entre o jornalismo e a mobilidade causada pelo crescimento das redes sem fio ubíquas e dos computadores portáteis (SILVA, 2013).
móvel, chamada de Alta performance e Era Pós-PC e caracteriza- da por um conjunto de tecnologias de alta velocidade e definição, além do surgimento de smartphones e tablets com crescente capa- cidade de armazenamento e processamento e diversos tamanhos de telas. Esta fase também abarca a demarcação da “Era Pós-PC” (computação em nuvem) e cultura dos aplicativos.
É possível que com a popularização dos dispositivos vestíveis, tenha início uma nova fase do jornalismo móvel caracterizado por tecnologias que possibilitem a produção, a circulação e o consumo de informações de forma ainda mais ubíqua, uma vez que esses dispositivos andarão constantemente com a gente. Logo, teremos uma tela mais ubíqua e de interação supra momentânea.
Apesar de estarem relacionadas, a mobilidade e a ubiquidade são conceitos diferentes. Enquanto a mobilidade está relacionada ao movimento, a ubiquidade diz respeito ao estar em todos os lu- gares. Mark Weiser definiu pela primeira vez o que seria a compu- tação ubíqua em 1991: “não significa apenas que os computado- res podem ser levados para a praia, selva ou aeroporto. Mesmo o notebook mais poderoso, com acesso a uma rede de informação mundial, ainda concentra a atenção em uma única caixa” (WEI- SER, 1991, p.1, tradução nossa). Para o autor:
As tecnologias mais profundas são aquelas que de- saparecem. Tecem-se no tecido da vida cotidiana até que elas são indistinguíveis a partir dele. [...] Es- tamos a tentar conceber uma nova forma de pen- sar sobre computadores do mundo, que leve em conta o ambiente natural do ser humano e permita que os próprios computadores desapareçam do fundo (WEISER, 1991, p.1, tradução nossa).
Talvez as tecnologias vestíveis sejam aquelas que melhor con- sigam apresentar as características da ubiquidade pensadas por
Weiser (1991), justamente por serem usadas junto ao corpo, como um relógio ou um óculos, tornando-se quase transparentes.
A ubiquidade tem sido impulsionada pela conexão sem fio por banda larga em escala global e pela miniaturização de mídias mó- veis a preços baixos, passando a ser considerada como mais uma característica do jornalismo em ambientes digitais e sendo defini- da por Pavlik (2014) como:
No contexto da mídia, ubiquidade implica que qualquer um, em qualquer lugar, tem acesso po- tencial a uma rede de comunicação interativa em tempo real. Quer dizer que todos podem não ape- nas acessar notícias e entretenimento, mas partici- par e fornecer sua própria contribuição com conte- údos para compartilhamento e distribuição global. Além disso, o conteúdo noticioso emana de uma variedade de fontes cada vez mais ubíquas, incluin- do câmeras de segurança ou vigilância bem como sensores de muitos tipos e formatos, frequente- mente ligados à internet (PAVLIK, 2014, p.160). O autor considera crucial a transformação da tradicional indús- tria jornalística de um modelo da era industrial para outro intei- ramente adaptado à atual era global, móvel e conectada (PAVLIK, 2014, p.163). A Ubiquidade aponta ao menos quatro consequên- cias para o jornalismo no século XXI, segundo Pavlik (2014): 1. A onipresença do jornalismo cidadão conforme as tecnologias wea-
rable se tornem comuns na próxima década. 2. O crescimento
de novas formas narrativas geolocalizadas e imersivas. 3. O cres- cimento do Big Data e do jornalismo orientado por dados. 4. O declínio da privacidade e sua substituição por uma sociedade da vigilância global.