CAPÍTULO I: DOMÍNIOS DE ATUAÇÃO E AGENTES MULTIPOSICIONADOS.
1.3 Perfis de agentes multiposicionados
1.3.4 José do Nascimento Moraes
A tentativa de reconstituição do perfil social de um agente esbarra muitas vezes em dificuldades que se parecem à primeira vista instransponíveis. É o que se sucede com o caso do “escritor”, “polemista”, “jornalista” e “professor” José do Nascimento Moraes, pelo menos no que refere às origens familiares e geográficas, bem como sobre os condicionantes sociais que lhe possibilitaram tornar-se um intelectual e jornalista consagrado. A dificuldade para construir dados que permitam situar o agente no espaço de posições nas quais ele se movimentou intensifica-se quando as pesquisas acadêmicas tendem a reproduzir uma ideia de excepcionalidade que pouco contribui para pensar o agente em carne e osso (e relações sociais), especificamente no que se refere às origens sociais, socialização e sociabilidades, dimensões centrais para se compreender o seu percurso social e pensá-lo num espaço relacional, seja enfocando o domínio intelectual, jornalístico ou político.
93 Tendo nascido em São Luís no dia 19 de março de 1882, seus pais eram negros recém alforriados e analfabetos. Apesar dessa condição adversa ele conseguiu “fazer- se” um jornalista reconhecido na cidade de São Luís, onde tornou-se ainda professor catedrático de geografia no prestigiado Liceu Maranhense através de concurso público realizado no ano de 1913.
Além das informações citadas, quando se consulta alguns trabalhos que se voltam de alguma forma seja para a “trajetória intelectual” (BRAS, 2014), “trajetória do jornalista-professor” (ARAÚJO, 2011), ou ainda para uma “trajetória docente” de Nascimento Moraes (GOMES, 2015), o ponto de partida é a sua condição de estudante do Liceu Maranhense que buscava afirmar-se enquanto literato, jornalista e, logo depois de concluído o curso no Liceu, também como professor. O agente é tomado em perspectiva histórica por Barros (2015) que apreende suas produções jornalísticas no contexto das disputas políticas nas quais o mesmo estava envolvido durante a chamada Primeira República. Todavia, enfatiza a atuação de Moraes nos jornais como marcada por uma postura “oposicionista” e crítica do “sistema oligárquico”, o que não deixa de significar certa capitulação diante das representações que o próprio agente tecia acerca do seu trabalho e de seus posicionamentos políticos.
O percurso social do agente que neste trabalho apresentamos partiu dos referidos trabalhos historiográficos e/ou de crítica literária, porém explorou outros materiais, como recortes de jornais da época em que se deu o transcurso da vida pública do agente, principalmente em sua fase inicial, os anos de formação e socialização secundária. Lançamos mão ainda de entrevistas com duas familiares (neta e bisneta) de Nascimento Moraes, a partir das quais foi possível construir alguns dados sobre a sua socialização primária. Em seguida acreditamos poder analisar as representações sociais e as principais temáticas recorrentes na obra de Nascimento Moraes, objeto de um tópico específico do segundo capítulo, no qual serão analisadas as tomadas de posição do conjunto de agentes enfocados nesta primeira conjuntura histórica.
Quando José do Nascimento Moraes nasceu, já fazia alguns anos que o seu pai havia conseguido a alforria, o que ocorreu por ter sido ele um dos muitos negros escravizados, alguns deles recrutados a força, que lutaram na Guerra do Paraguai (1864- 1870). Depois de liberto desempenhou atividades manuais como “servente” [sic] e porteiro do Tesouro estadual (BRAS, 2014, p.24). Machado caracteriza-o ainda como “sapateiro analfabeto” (MACHADO, 1996, p. 40). Araújo (2011, p. 16) aponta esta
94 falta de instrução escolar como justificativa (usada pelas autoridades) para o fato de, apesar de ex-combatente, “não [ter sido] premiado, tampouco merecido qualquer promoção ao final desta [Guerra do Paraguai]”. A mãe é descrita como “uma negra liberta que trabalhava como cozinheira e lavadeira para os brancos” (BRAS, 2014, p.24) e ainda: “negra que vendia peixe-frito” e “muito corajosa” (MACHADO, 1996, p. 40). Já em Araújo (2011) encontramos: “de posse de seu ‘alvará de libertação da escravatura’ passou a vender bananas para ajudar no sustento da família” (ARAÚJO, 2011, p.16). As origens sociais contrastam com as dos outros agentes enfocados neste trabalho. Percebe-se a diferença já nessa tentativa de levantar dados sobre os ascendentes familiares mais próximos, dos quais nem mesmo os nomes conseguimos saber, o que deixa evidente uma distância social em relação aos outros casos objetivados nesta pesquisa, cujas famílias tem uma verdadeira preocupação em manter uma genealogia, inclusive administrando os nomes próprios (homenagens aos pais, tios, avós) e os sobrenomes, mas, principalmente publicando ou registrando as informações biográficas dos seus ascendestes familiares.
Sobre o trajeto escolar não se encontram nos trabalhos referidos dados que permitam situar os condicionantes sociais (sobre a verdadeira condição sócio- econômica dos pais) que permitiram ao agente realizar, e como “aluno brilhante” (JESUS, 2010, p.39), os cursos primário, ginasial e científico, estes últimos numa das mais prestigiadas instituições de ensino secundário do Maranhão. Imediatamente após apresentar aquelas informações biográficas dos pais, os estudiosos passam a uma narrativa que realça os feitos do agente:
Apesar de sua origem humilde, Nascimento Moraes teve acesso a uma boa educação, dentro dos padrões da época, estudando no Liceu Maranhense, o mais conceituado centro de formação educacional do Maranhão. Nesta escola estudaram jovens da elite ludovicense e lecionaram grandes figuras como o português Manoel Bithencourt, considerado um grande incentivador da juventude naquele período. (BRAS, 2014, p.24)
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Figura ímpar entre os novos atenienses, José do Nascimento Moraes impôs- se no concerto sócio-cultural maranhense do seu tempo após vencer, pela instrução formal, as barreiras sociais interpostas ao fato de ser ele originário de pais analfabetos, pobres e negros. (MARTINS, 2002, p.88)
E ainda as qualidades atribuídas à família, que se plasmaram na “trajetória” de Nascimento Moraes: “As dificuldades sociais e financeiras legaram à família Moraes um ímpeto de superação e afirmação que é percebido em toda a trajetória do jornalista- professor” (ARAÚJO, 2011, p.16). Mas ao invés de explicar o processo histórico, esse tipo de relato se aproxima muito mais das construções hagiográficas, atribuindo “poderes” e “forças” extra-mundanos aos indivíduos. Essa espécie de “teoria do gênio criador” movido por causas que são simplesmente inexplicáveis, não permanece de pé ao ser confrontada com uma análise que situa o agente numa teia de relações sociais, inclusive em relação ao espaço do poder mais amplo, buscando as condições sociais que viabilizam a emergência de um “intelectual” ou “escritor”, foco dos trabalhos sobre Nascimento Moraes. Este aspecto sociológico, no entanto, tende a permanecer invisível na perspectiva preocupada em nuançar os méritos pessoais de um determinado agente produtor de bens simbólicos, como é o caso do “intelectual”, “escritor” e “jornalista” Nascimento Moraes.
Ainda que Pierre Bourdieu esteja fazendo a crítica das “obras” ou bens simbólicos, ou seja, analisando agentes em sua fase adulta, a importância da dimensão disposicional é central no esquema de análise desse autor, e estas disposições são constituídas ao longo da vida dos indivíduos, notadamente através da socialização familiar e escolar.
A partir de entrevistas com familiares (uma neta e uma bisneta), foi possível construir alguns dados sobre a socialização primária do agente, o que nos permitiu esboçar, um pouco mais detalhadamente, seu itinerário social.
Conectamos estas experiências prévias à sua entrada no Liceu Maranhense, que, aludimos acima, costuma ser tomada como ponto de partida para sua vivência no meio literário e intelectual maranhense. Situando o agente social em relação a uma sociabilidade que prosseguiu e se intensificou através de seu engajamento em grêmios literários e do contato mais próximo e cotidiano com os “mestres”. Estes são, principalmente, Manuel de Béthencourt, Juvencio Mattos, Pedro Nunes Leal e Jansen Mattos, além de outros, citados por Moraes em crônicas e artigos de jornais dos anos
96 1930 e 1940, quando relembrava sua preparação e, também, sua iniciação nas “tertúlias literárias” e “lides jornalísticas”. Importante ainda notar sua convivência, durante os anos de formação no Liceu, com figuras como Godofredo Viana e Magalhães de Almeida (PACOTILHA, 29/11/1897, p.3; idem, 27/12/1898, p.2), que foram governadores do estado (na década de 1920), inclusive integrando a mesma facção. Nos anos 1930 é em torno da liderança de Magalhães que se organiza uma nova facção política, em cujo jornal (Pacotilha) Nascimento Moraes foi redator-chefe (1934-1935), oportunidade em que esteve empenhado nos embates jornalístico-políticos56. As relações com figuras políticas não podem também brotar de repente em sua trajetória simultânea e indissociavelmente cultural e política, posto que estes domínios não se apresentavam descolados um do outro, antes, pelo contrário, estavam intrincados na configuração sócio-histórica aqui enfocada.
O pai de José do Nascimento Moraes, Manoel do Nascimento Morais57, era um escravo negro que foi recrutado para lutar na chamada Guerra do Paraguai. Porém, segundo narram os descendentes, por ser analfabeto, ele não recebeu nenhuma retribuição (material) como ex-combatente, ainda que tenha voltado com ferimentos oriundos da guerra. Fizera, então,
um juramento: que as futuras gerações seriam letradas. Queria ele dizer que iam ser alfabetizadas, escrever e ler, ele nunca imaginou que iam ser escritores, professores, etc. Então o juramento dele foi muito forte, que até hoje respingou nos netos e bisnetos.
(entrevista com neta de Nascimento Moraes, em 09/05/2018).
O relato acerca do juramento foi passado para os filhos (no caso em questão a entrevistada é filha de Nascimento Morais Filho), e destes repassados às gerações seguintes. A alfabetização e o curso primário teriam sido fornecidos em casa, por professores particulares. O que demonstra um considerável investimento familiar motivado por uma experiência pessoal frustrada: o não-reconhecimento (material, mas também simbólico) da sua condição de ex-combatente. Dos dois filhos do casal, parece
56 O jornal foi reaberto em agosto de 1934 (havia deixado de circular em outubro de 1930), especificamente com o propósito de defender os interesses da facção liderada por Magalhães de Almeida, a qual se reorganizava visando as eleições de outubro daquele ano. Para esta reorganização faccional Magalhães contou com o apoio do Interventor Antônio Martins de Almeida.
57 Segundo as descendentes entrevistadas, o nome do pai era grafado com “i”, o que foi retomado pelo filho homônimo (José do Nascimento Morais Filho), que vem a ser, respectivamente, pai e avô das entrevistadas (entrevistas 08 e 09 de maio de 2018).
97 que o caçula foi quem incorporou mais fortemente essa influência ou ensinamento acerca da importância da educação formal, visto que o irmão mais velho, Raimundo, não obteve os mesmo êxitos escolares, apesar de também ter sido alfabetizado nas mesmas circunstâncias em que o irmão, tendo inclusive estudado no prestigiado Liceu Maranhense58. José do Nascimento Moraes desenvolveu, sem dúvida através de um esforço individual considerável, as disposições exigidas pelos padrões de ensino da época, direcionando-se para aquisição da cultura considerada legítima. Assim, ele foi internalizando suas regras e valores, como por exemplo, o aprendizado da língua vernácula e o culto dos “vultos” da cultura maranhense, brasileira e portuguesa.
Em 1937, Moraes descreve, em texto publicado n’O Imparcial, um pouco da sua sociabilidade durante os cursos ginasial e secundário no Liceu. Fica claro como, juntamente com os outros estudantes daquele colégio, eles “veneravam a figura respeitável do grande mestre do vernáculo” Pedro Nunes Leal, “um dos maiores educadores maranhenses”. Estes seguidores mais aplicados eram aqueles que “se preparavam para as lides da palavra escrita e falada” e que “já sentiam decidida vocação para as letras”. Nascimento Moraes narra, então, que os estudantes não se satisfaziam com as aulas no estabelecimento escolar, e “procuravam, frequentemente, o douto professor para lhe ouvir as profundas lições”. Pedro Nunes Leal não era encontrado sem que estivesse “acompanhado de um grupo de rapazes. Se parava numa praça ou numa esquina, para logo se formava uma roda de estudantes para conversar sobre questões de boa vernaculidade”. Esta intensa preocupação em absorver os ensinamentos de “mestres” como Pedro Nunes Leal, professor catedrático de Gramática do Liceu, estendia-se mesmo até à residência deste, onde
servia-se o café, depois do jantar de que alguns estudantes participavam, e a conversa entrava pela noite, até às 10 horas. Passavam, então, em revista, os vultos mais notáveis da literatura portuguesa, que ele profundamente conhecia. [...] As raízes célticas e latinas da língua portuguesa foram motivo para três noites de tertúlias. [...]
(O Imparcial, 22/08/1937, p.1: “Pedro Leal”).
A devoção pessoal ao mestre evidencia-se nas seguintes palavras:
58 Não foi possível saber, mesmo nas entrevistas com as descendentes, se Raimundo concluiu o curso secundário. No Liceu eram ministrados tanto este quando o curso ginasial, que o antecedia.
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À minha casa que era uma como “republica” de estudantes, à rua da Cruz, o velho Pedro, por vezes comparecia para conversar. Quase sempre ia em companhia de Costa Gomes e Othon Galvão. Quando tal acontecia, esquecia- se o Lyceu, a aula de mathematica do Reis Carvalho e a de geographia de Othon Chateau. Eu me esquecia até da casa do Béthencourt!
(O Imparcial, 22/08/1937, p.1: “Pedro Leal”)
Pedro Nunes Leal faleceu em novembro de 1901, e “o Lyceu em peso, acompanhou-o, até a ultima morada”. Diante do pouco número de presentes, os discípulos “tomamos o féretro [...] para o levarmos a pulso. A empresa não foi fácil [...] A primeira turma composta dos mais fortes, depois de vencida a primeira quadra, reconheceu que a gratidão fora alem de suas forças.” Entre estes estavam Godofredo Viana, Magalhães de Almeida e “outros de que não me lembro mais”. Nascimento Moraes estava na segunda turma de carregadores mas teve que pedir ajuda ao seu irmão Raimundo, que era da terceira, e que aceitou a troca “até com satisfação, não só porque eu lhe garanti que o substituiria, mas ainda porque gostava de fazer força, gabava-se de seus bíceps e de sua resistência” (O Imparcial, 22/08/1937, p.1).
Como citado pelo próprio Moraes, outro de seus mestres era Manuel de Béthencourt, português “com quem reajustei todo o meu curso de preparatório e a cujo lado travei as minhas primeiras lutas na imprensa, sustentando, como seu acólito, o fogo nutrido de seus adversarios” (O Imparcial, 22/02/1940, p.1). Moraes afirma que, à essa época, jovem aprendiz: “tremia quando me aproximava de Manuel de Béthencourt”; no entanto, passou a gozar da sua amizade, tendo este lhe franqueado acesso a sua biblioteca, participando também das tertúlias ocorridas na casa de Béthencourt que, assim como Pedro Leal, era professor do Liceu Maranhense. “Carlos de Béthencourt, pai do mestre, acabado poliglota, [...] nunca me perdoou a covardia que demonstrei recuando, apavorado, diante do estudo do sânscrito que ele sabia como gente grande” (idem). Ao lado desses, cita ainda Jansen Mattos, Domingos Machado e Juvencio Mattos, “ilustres maranhenses”, que eram amigos sinceros uns dos outros e “todos me animavam com a sua amizade e com as considerações que me dispensavam”. “Naquele tempo, todo o meu prazer intelectual estava em conversá-los, em lhes apreciar o aprumo moral e em estabelecer, para o meu uso os seus pontos de convergência e divergência” (idem).
99 Soma-se a esta convivência com os “mestres” da época, sua inserção nas agremiações literárias, formadas por jovens interessados em ingressar na plêiade maranhense dos cultores do verso e da prosa. Dentre as principais atividades a que se dedicavam encontrava-se a homenagem aos nomes consagrados do panteão intelectual e literário no estado. Buscavam fundar um órgão de imprensa estudantil onde divulgavam suas ações e produções literárias. Alguns dentre eles conseguiam publicar também seus escritos na imprensa diária da capital, o que já se constituía num primeiro sinal de distinção e afirmação como “homem de letras” no Maranhão. A imbricação com o domínio político pode ser identificada nessa esfera de atuação dos grêmios e associações literárias.
Em diversos estudos, Nascimento Moraes aparece como um dos “Novos Atenienses” (MORAES, 1977; MARTINS, 2002; CARREIRA, 2015), autodesignação de uma confraria ou grêmio literário fundado em 28 de julho de 1900 (data escolhida em homenagem à adesão do Maranhão à independência do Brasil). Foram seus membros fundadores, segundo o próprio Moraes (1910, artigo VIII): Ignacio Xavier de Carvalho, M. George Gronwell, Octavio Galvão, Rodrigues d’Assumpção, Leoncio Rodrigues, Leslie Tavares, Caetano de Souza e o próprio Nascimento Moraes, eleito seu presidente, fizeram parte ainda do referido grêmio literário João Quadros, Raul Astolfo Marques e Francisco Serra. Estes últimos teriam permanecido na Oficina e, após a saída dos primeiros, passaram a ser liderados por Antônio Lobo e Fran Paxeco, cuja entrada e protagonismo naquela entidade fora o motivo dos desentendimentos com Nascimento Moraes e que resultou na sua ruptura, que foi seguido pela maioria dos membros fundadores, que continuavam ligados à liderança do jovem Nascimento Moraes (19 anos) e com ele fundaram uma agremiação, a Renascença Literária, em 1901. Todavia, é ao chamado “grupo dos novos atenienses” que se costuma atribuir uma atuação que conseguiu em parte reavivar as tradições literárias e intelectuais do estado do Maranhão. O referido “grupo literário” foi integrado a uma periodização consagrada da história da literatura regional. O “grupo” é geralmente situado entre 1890-1930 (MARTINS, 2002, p. 67) e teria sido formado “como movimento de reação à ausência de produções intelectuais” (CARREIRA, 2015, p.64). Em estudo que tratou especificamente desta “geração” Martins (idem, p. 68) afirma:
Os Novos Atenienses eram promessas intelectuais em busca de afirmação, situadas no centro da tensão e do desconforto de descortinar e construir o
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futuro, sem, contudo esquecer-se do passado mitológico, onipresente, herdado dos “gigantes” da velha Atenas, a partir daquela realidade movediça, em que o ideário decorrente das noções de “civilização” e “progresso” fazia prosélitos e instigava esses jovens intelectuais à reação ante semelhante estado de coisas detonador das glórias amealhadas nos tempos áureos do dinamismo provincial.
Para eles, a situação reinante era a convocação incisiva para que interviessem concretamente naquela realidade decadente, visando apontar soluções para o presente, capazes de projetar um futuro glorioso, tendo como artefato fundamental o passado mitológico da Atenas Brasileira. (grifo nosso)
Queremos reter especialmente a passagem grifada, a nosso ver suficiente para indicar que a atuação intelectual e literário não estava desacoplada das questões políticas quando se afirma que a nova “geração” era interpelada a analisar a “realidade” maranhense, considerada “decadente”, e, principalmente, que deveriam “apontar soluções”, visando restaurar as “glórias amealhadas nos tempos áureos do dinamismo provincial”. Estes aspectos serão analisados a partir dos escritos desse e dos outros agentes, objeto do próximo capítulo.
Devemos acrescentar que em torno da liderança da Oficina dos Novos (no momento de sua existência inicial) travou-se uma disputa entre seus membros fundadores, na verdade até mesmo acerca de quem teria de fato participado desta fundação. As disputas pela condição de principal fautor dessa tentativa de “soerguimento intelectual” do Maranhão colocaram em oposição as figuras de Antonio Lobo e Nascimento Moraes. A história da literatura regional (MEIRELES, 1955; MORAES, 1976), costuma subsumir o papel deste último, realçando a condição de intelectual e literato do primeiro, assim reverenciando seu protagonismo, o qual foi estabelecido pelo próprio Lobo ainda em 1909, com a publicação do livro Os novos atenienses: subsídios para a história literária do Maranhão (São Luís, Typogravura Teixeira). A “história literária” narrada por ele foi imediatamente contestada por Moraes através das páginas do Correio da Tarde, jornal em que era redator. Estabeleceu-se, então, uma polêmica entre os dois que se estendeu por meses. Os artigos de Moraes relativos a este duelo intelectual foram publicados em 1910, sob a forma de livro, ainda no calor da refrega, portanto. Intitulado Puxos e repuxos ele foi impresso na “Typographia do Jornal dos Artistas” (MORAES, 1910), ao que parece financiado pelo jornal Correio da Tarde, que pretendia assim prolongar os benefícios auferidos com a polêmica que mobilizara o meio intelectual e literário local, e mesmo a população
101 letrada em geral, que queria acompanhar os duelos verbais travados entre Lobo e Moraes.
Desde o ano de 1909, quando estava no auge a polêmica entre os dois, aparecem nos jornais anúncios sobre a futura publicação do romance Vencidos e degenerados. Segundo informava Pacotilha: estava “em composição nas oficinas dos srs Ramos de Almeida & C., succs., o romance ‘Vencidos e degenerados’, do professor Nascimento Moraes”. Entretanto, este somente viria a lume em 1915, pelos “editores”59 citados pelo jornal. Desde recém-formado ministrando aulas particulares em sua casa ou na residência dos estudantes, ele fundara em 1906 seu próprio estabelecimento de ensino,