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“Jovens Anglicanos repousam no Espírito Santo”

As palavras do Pr. Randy Clarck pareciam ter um significado e uma eficácia fundamental no processo de cura durante esse movimento. Seu pedido de oração e o clamor pelo Espírito Santo demonstravam o ápice do encontro, pois era neste momento que eu observava uma maior inquietação entre os fiéis.

Contudo, o que faz o movimento Catch the Fire diferente do que acontece nas demais igrejas carismáticas do mundo, é que o Pr. Randy Clarck afirma que Deus tem visitado com um avivamento em que a presença do Pai torna-se tão intensa, e seu amor tão claramente revelado, que as pessoas se enchem pela alegria do Espírito Santo, e reagem com gargalhadas, risos incontroláveis, chegando a cair no chão, a rolar de rir. Tornando,

assim, a “gargalhada santa”44 uma das principais características deste movimento, apesar de que seus líderes procuram dizer que o mais importante é a presença de Deus e as vidas modificadas. Pode-se dizer que se trata de um comportamento inédito, pois eu nunca o presenciei em outras igrejas, até mesmo nas neopentecostais.

Mas nem tudo era motivo de riso, pois, segundo o depoimento de alguns dos meus interlocutores, umas duas horas antes do culto, toda a equipe do Catch the Fire se reunia e muitos começavam a emitir sons de animais e se comportar como tais45. Os membros da Igreja Anglicana que me transmitiram essa informação durante a pesquisa de campo, foram identificados por mim como o grupo que não era a favor desses comportamentos na Igreja, pois, para eles, aquilo não tinha nada a ver com a unção do Espírito Santo. Esse grupo se apresentava com uma predominância, uma tendência mais crítica e racionalista diante desse avivamento, e me passaram tal informação num tom pejorativo e de não concordância com tais comportamentos. É por isso que, logo no início deste capítulo, chamei atenção para uma pluralidade de opiniões entre os fiéis da Igreja Episcopal Anglicana da Carneiro

44 Este termo foi mencionado durante todo o Catch the Fire na Igreja Anglicana. Em outros países visitados

por Randy Clarck, a nomenclatura é a mesma.

45 Em 1995, um fenômeno começou a se repetir nas reuniões, provocando o desligamento da Igreja de Arnott

da Videira. Aconteceu enquanto Arnott estava ausente em conferências na Igreja Vineyard de Randy Clarck, nos Estados Unidos. Um pator chinês, líder das Igrejas Chinesas Camponesas, de Vancouver (Canadá), durante o período de ministração na Igreja do Aeroporto, começou a urrar como um leão. Arnott foi chamado às pressas para resolver o problema. A liderança que havia ficado à frente da Igreja lhe disse que entendiam que o comportamento do pastor indicava a manifestação do Espírito Santo. Arnott entrevistou o pastor chinês diante da congregação durante uma reunião e ele caiu sobre as mãos e os pés, começando a rugir como um leão na plataforma, engatinhando de um lado para o outro e gritando: “Deixem ir meu povo, deixem ir meu

povo!” Ao voltar ao normal, o pastor explicou que, durante anos, seu povo tinha sido iludido pelo dragão, mas

agora o Leão de Judá haveria de libertá-los. A Igreja irrompeu em gritos e aplausos de aprovação, e Arnott convenceu-se de que essa conduta vinha, realmente, do Espírito Santo de Deus. A partir daí, os sons de animais passaram a fazer parte da “bênção de Toronto”, sendo legitimados como manifestações de Deus; embora, como Arnott insiste, não sejam muito freqüentes. Há casos de pessoas rugindo como leão, cantando como galo, piando como águia, mugindo como boi, e dando gritos como um guerreiro. Para Arnott, esses sons são “profecias encenadas”, em que Deus fala uma palavra profética à Igreja através de sons de animais. Arnott passou a admitir e a defender este comportamento como parte do avivamento em andamento na Igreja do Aeroporto.

Vilela. Ou seja, eu identifiquei dois grandes grupos: um que aceitava o avivamento na Igreja (“nossa igreja está precisando de unção”); e um outro grupo que afirmava “Deus

não nos faz cair no chão, ele nos levanta”. Cheguei a escutar de algumas pessoas, com

relação ao “descansar no espírito”: “eu não desmaiei, eles é que me empurraram”. Isto quer dizer que, enquanto um grupo se entregava completamente ao movimento de avivamento, sem fazer determinados questionamentos ou mesmo duvidar da presença do Espírito Santo, havia um outro grupo de tendência mais racional e que não se deixava guiar pela ação espiritual, chegando a caracterizar os comportamentos dos outros membros como histéricos.

Com a finalidade de compreender, do ponto de vista antropológico, a postura dos membros anglicanos a respeito do contato com o Espírito Santo, introduzo um item com o estudo de determinados autores a respeito do “avivamento”, das gesticulações corporais e do contato com o Espírito Santo.

4.2 Como os anglicanos entram em contato com o Espírito Santo

Não é fácil estudar um dos mais profundos e decisivos dramas religiosos, que é a relação do homem com a divindade. Apesar das experiências “avivadas” não serem encorajadas uniformemente por todas as religiões, não é raro encontrarmos uma religião, que, em algum momento de sua história, seus seguidores não tenham se transportado a exaltações místicas. Muitos autores já se debruçaram sobre esse assunto. Não é minha pretensão esgotá-los aqui, até porque isso seria impossível. Porém, menciono alguns que poderão me ajudar nesta busca de explicações sobre os fenômenos que presenciei na

Catedral Anglicana, não só no Catch the Fire, mas nos cultos dominicais, nas cerimônias de vigília, nos cultos carismáticos e nos momentos de louvor dos Cursilhos (eventos que já aconteciam antes do cisma).

Todos esses movimentos tiveram uma característica em comum, que é o fato de “mexer” com a emoção do fiel. A adoração a Deus passa a ser vista com muito prazer através do ato de louvar, gesticular e embalar o corpo no ritmo da música. Isso é contagiante, pois, se no início as pessoas parecem um pouco fatigadas, no decorrer da celebração a maioria já está toda eufórica. Após a euforia, vêm os abraços, as trocas de carinho, o sorriso nos lábios, isto é, a expressão dos que, realmente, ficaram satisfeitos.

A “Noção de Técnica Corporal” de Macel Mauss me auxilia a esclarecer as atitudes corporais que observei, no meu campo etnográfico, na maneira de cultuar a Deus. Mauss (1964) considera que, em cada sociedade, os homens utilizam seus corpos de maneira muito peculiar, ou seja, cada sociedade tem hábitos que lhe são próprios e esses atos são, essencialmente, de natureza social:

“Digo expressamente as técnicas corporais porque é possível fazer a teoria da técnica corporal a partir de um estudo de uma exposição, de uma descrição pura e simples das técnicas corporais. Entendo por essa palavra as maneiras como os homens, sociedade por sociedade e de maneira tradicional, sabem servir-se de seus corpos.” (Mauss,

1964: 211)

No movimento carismático da Igreja Anglicana, os fiéis utilizavam seus corpos para entrar em contato com o Espírito Santo, seja pelo “descansar no Espírito”, pelos momentos de louvor, pelas “gargalhadas santas”, pela imitação dos animais etc. A finalidade principal no uso de seus corpos era o contato com a divindade. Contato este que começou a ser

difundido de maneira social, no grupo, ou seja, passou a ser legitimado, foi oficializado, recebendo, assim, uma aceitação dos carismáticos. Como Mauss (1964) coloca, se trata da natureza social do habitus. Habitus faz parte da memória, da tradição das disposições e atitudes herdadas socialmente:

“Ele não designa esses hábitos metafísicos, esta ‘memória’ misteriosa, tema de volumes ou de curtas e famosas teses. Esses ‘hábitos’ variam não simplesmente com os indivíduos e suas imitações, mas, sobretudo, com as sociedades, as educações, as conveniências e as modas, com os prestígios.” (Mauss, 1964: 213)

Em conseqüência da natureza social nas atitudes corporais, o autor traz um outro conceito, que é o de “imitação prestigiosa”, no sentido em que nos ajuda a compreender as mudanças e inovações no habitus. A mudança na maneira de orar e fazer contato com Deus tem se mostrado numa mudança de habitus, ou seja, um comportamento mais íntimo com Deus. Só imitamos os atos que são aceitos e prestigiados socialmente, os que têm aceitação do grupo. Ao impor as mãos e orar por um companheiro que está sendo acometido por uma determinada crise, eu estou imitando a postura dos pastores, pessoas bem aceitas na comunidade religiosa, líderes espirituais que têm o poder de receber o Espírito Santo e orar pelos irmãos. No contexto religioso, a imposição das mãos significa o contato com o Ser Divino, isto é, com uma autoridade que não é para todos, só para os bem preparados espiritualmente, os que já mantêm uma intimidade maior com Deus. Portanto, ao imitar Randy Clarck e sua equipe, os fiéis anglicanos não são apenas objetos da sociedade, visto que eles instrumentalizaram, trouxeram para si essas práticas religiosas com a finalidade de adquirir reconhecimento e prestígio. Os fiéis que são reconhecidos com prestígio são

aqueles que sabem orar, os que têm um profundo conhecimento da Bíblia e que já tiveram várias experiências com o Espírito Santo.