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2. O JUÍZO ESTÉTICO DE REFLEXÃO

2.4 Juízo determinante e o juízo reflexionante

No contexto epistemológico da primeira Crítica, Kant relaciona estritamente o juízo e o en-tendimento de tal forma que “o enen-tendimento em geral pode ser representado como uma faculdade de julgar” (KrV, A69/B94). A função epistemológica do juízo é unificar intuições com vistas a re-presentações do conhecimento, seja intuições a conceitos, seja conceitos a conceitos, mas os concei-tos, “referem-se, enquanto predicados de juízos possíveis, a qualquer representação de um objeto ainda indeterminado” (KrV, A69/B94). O juízo é considerado determinante na medida em que auxi-lia o acesso epistêmico à realidade pela via conceitual, ao determinar uma intuição com um conceito por meio de um juízo de conhecimento.

Um esclarecimento é necessário acerca da posição sobre a determinação do juízo adotada neste trabalho. Há discussões acadêmicas, a exemplo do artigo Kant’s Account of Cognition que visam investigar a natureza da cognição em Kant, discussões que partem da distinção entre cogni-ção (Erkenntnis) e conhecimento (Wissen), sendo a cognicogni-ção “um estado mental que determina um objeto dado atribuindo a ele marcos gerais. ” (Watkins e Willachek, 2017, p. 83). Essa discussão também visa saber se a intuição seria uma cognição somente pela via conceitual, i.e., se for subsu-mida a um conceito do entendimento, ou se poderia ser considerada uma cognição num sentido am-plo em que representa objetos particulares, conforme segue:

i) Intuições sem conceitos não são cognições num sentido estrito, mas podem ser cognições no sentido amplo de “representação objetiva” porque elas represen-tam objetos particulares (sem representá-los como tendo marcos gerais);

ii) Intuições sem conceitos não são cognições sequer no sentido amplo, porque que elas não representam objetos. (Watkins e Willachek, 2017, p. 104)

A primeira posição é conhecida como não conceitualista, a segunda como conceitualista. Neste trabalho, adotamos a posição conceitualista ao considerar que a determinação da intuição e sua referência a um objeto particular é feita através da subsunção a conceitos por meio de juízos. Outro esclarecimento sobre essa sessão do trabalho é a adesão da abordagem de Henry Allison so-bre o juízo na primeira Crítica, segundo o livro O Idealismo Transcendental.

Um conceito é definido como uma representação geral de um objeto segundo representações que compartilham características comuns com outros objetos: “O conhecimento, por sua vez, é in-tuição ou conceito (intuitus vel conceptus). A primeira refere-se imediatamente ao objeto e é singu-lar, o segundo refere-se mediatamente, por meio de um sinal que pode ser comum a várias coisas. ” (KrV, A320/B377). O conceito funciona como um princípio organizador do conhecimento, pois sua função pode ser caracterizada como uma regra unificadora aplicada aos objetos que possuem em comum as mesmas características. O juízo é o meio de aplicação da regra ao objeto; por isso, os conceitos são predicados de juízos possíveis, conforme as palavras de Kant:

Assim, todos os juízos são funções da unidade entre as nossas representações, já que, em vez de uma representação imediata, se carece, para conhecimento do obje-to, de uma mais elevada, que inclua em si a primeira e outras mais, e deste modo se reúnem num só muitos conhecimentos possíveis. Podemos, contudo, reduzir a juí-zos todas as ações do entendimento, de tal modo que o entendimento em geral pode ser representado como uma faculdade de julgar. (KrV A69/B94)

No conceito, “é necessário distinguir matéria e forma. A matéria é o objeto dos conceitos”, ou seja, seu conteúdo ou características sensíveis; “sua forma, a universalidade” (Log, AA 09, AK92), ou seja, a forma é o que torna o conceito reconhecível em todas as suas instâncias. Devido à unificação de representações contidas num conceito, seu uso através de um juízo objetiva a referên-cia a um objeto, e é isso o que caracteriza a universalidade do conceito, a saber, a possibilidade de se referir a vários objetos através do conceito que contém as representações que o caracterizam. Na KrV, “o conceito sempre é, pela sua forma, algo universal que serve como regra” (KrV A 106 B148), e, segundo Allison, “isso significa que um conceito funciona como um princípio organizador do conhecimento; como um meio para reunir uma série de representações em uma unidade analít i-ca.” (Allison, 1992, p. 119).

Segundo Allison, há diversas maneiras que Kant usa para se referir ao juízo lógico, uma de-las exposta na Lógica de Jäsche4, onde o juízo é um elemento na formação de um conceito comple-xo: “um juízo é a representação da unidade da consciência de diversas representações ou a represen-tação da sua relação, na medida em que elas perfazem um conceito” (Log, AA 09: Ak101 apud

son); e outra na Lógica de Viena5, onde o juízo é descrito como a ligação de cognições que constitu-em um conhecimento objetivo na consciência: “O juízo constitu-em geral é a representação da unidade constitu-em uma relação de várias cognições (…) a representação do modo pelo qual conceitos pertencem obje-tivamente a uma consciência (...) [Ele] envolve certa relação de diferentes representações na medida em que elas pertencem a uma cognição.” (V-Lo/Wiener, AA 24: 928 apud Allison, 1992, p. 123)

Segundo Allison, ambas as caracterizações fazem parte da atuação do juízo, e correspondem ao tratamento dado da Crítica da Razão Pura. A primeira na seção “Do uso lógico do entendimento em geral”. A segunda no §19 da “Dedução transcendental das categorias”.

O juízo unifica e determina representações de objetos por meio de conceitos, e esses só tem um conteúdo concreto porque contém, entre as representações contidas nele, uma representação imediata do objeto que em algum momento foi dada à intuição; por isso, o juízo é sempre uma re-presentação da rere-presentação do objeto, porque contém uma rere-presentação conceitual referente à intuição e outros conceitos que se referem ao mesmo objeto, sintetizando esses elementos, intuições e conceitos, num conhecimento:

Em todo juízo há um conceito que junta diversas representações, e entre elas uma representação dada que é referida imediatamente a um objeto. Assim, todos os juí-zos são funções da unidade de nossas representações, já que, em vez de uma repre-sentação imediata, é necessário, para o conhecimento do objeto, de uma represen-tação mais elevada, que inclua em si a primeira e outras mais, e deste modo se reú-nem em um só muitos conhecimentos possíveis. (KrV, A68-9/B93-4)

Portanto, o conceito é o elemento de determinação do juízo determinante, porque determina uma propriedade ao objeto, unificando nele certas características, o qual pode vir a ser considerado um sujeito lógico. Para reiterar, no exemplo do juízo “todos os corpos são divisíveis”, o conceito de corpo pode ser unificado, por meio de um juízo, com outro conceito, o de divisibilidade, atestando a natureza discursiva do pensamento humano. Em contrapartida, uma unidade meramente subjetiva, que envolve a associação de representações na imaginação, não basta para o conhecimento do obje-to. A unidade judicativa pode ser representada por este “S é P” e pressupõe a unidade de representa-ções na consciência de objetos por meio de conceitos.

Conforme a sentença do segundo momento lógico, “belo é aquilo que apraz universalmente sem conceito” (KU, AA 20: 219), o juízo de gosto não pode ser considerado um juízo lógico ou determinante, pois estes determinam conceitos aos elementos relacionados no juízo. Além disso, Kant reitera, na terceira Crítica, que é o conceito que efetiva a referência a um objeto (Objekt) que foi subsumido a um juízo de conhecimento, subsunção que não ocorre no juízo de juízo de gosto, porque este se refere ao sentimento de prazer do sujeito, não ao objeto:

5 Compilação de notas de alunos de Kant.

Se a representação dada que ocasiona o juízo de gosto fosse um conceito, unindo o entendimento e a imaginação no julgamento do objeto (Gegenstand) para um co-nhecimento do objeto (Objekt), então a consciência dessa relação seria intelectual (como no esquematismo objetivo da faculdade de julgar, do qual a Crítica trata). Nesse caso, porém, o juízo não seria proferido em referência a prazer e desprazer, e, portanto, não seria um juízo de gosto. (KU, AA 20: 218)

Portanto, o juízo de gosto é identificado com a outra atividade da faculdade do julgar, a ati-vidade reflexionante. O juízo reflexionante, diferentemente do juízo determinante, não possui um princípio de subsunção da intuição a um conceito, atuando de forma distinta do juízo lógico. A for-ma como esse juízo opera na mente, bem como o princípio que lhe serve de guia determinado, estão incluídos no coração da citação que serve de mote a este capítulo. Para relembrar:

Se, pois, a forma de um objeto dado na intuição empírica é de tal modo constituída que a apreensão do seu diverso na imaginação concorda com a exposição de um conceito do entendimento (sem estar determinado qual conceito), então o entendi-mento e a imaginação entram em acordo recíproco na mera reflexão para favorecer sua atividade, e o objeto é percebido como conforme a um fim apenas para a facul-dade de julgar, sendo a mera finalifacul-dade, portanto, considerada como somente subje-tiva; em todo caso, não é requerido nem produzido nenhum conceito determinado do entendimento para isso, e o próprio juízo não é um juízo de conhecimento. - Tal juízo se denomina um juízo estético de reflexão.

O juízo determinante, como visto acima, envolve a sensibilidade e o entendimento segundo sua particularidade na contribuição para a obtenção de conhecimento, e sua operação ocorre pela via conceitual, segundos princípios conceituais de subsunção do particular da intuição fornecidos pelo entendimento. O juízo reflexionante, por sua vez, não possui de antemão uma regra de subsun-ção do particular, e, partindo desse dado, necessita refletir sobre si mesmo e encontrar um princípio de subsunção: “se só o particular for dado, para o qual ela deve encontrar o universal, então a facul-dade do juízo é simplesmente reflexiva.”. (KU, AA 20: 179).

A formulação do termo “juízo reflexionante” e sua caracterização, assim como o juízo de-terminante, constam somente na terceira Crítica, mas o conceito de reflexão não é novo no sistema kantiano, estando presente também na Lógica e na Crítica da Razão Pura. Segundo Allison, há três formas distintas de reflexão segundo suas operações na mente. A primeira versa sobre a reflexão envolvida nas operações lógicas da formação de conceitos empíricos, conforme a Lógica de Jäsche:

Os atos lógicos do entendimento pelos quais os conceitos são gerados quanto à sua forma são:

1) a comparação, ou seja, o cotejo das representações entre si em relação com a unidade da consciência;

2) a reflexão, ou seja, a consideração do modo como diferentes representa-ções podem ser compreendidas em uma consciência, e finalmente:

3) a abstração, ou seja, a separação de todos s demais aspectos nos quais as representações dadas se diferenciam.

Observações: Para fazer conceitos a partir de representações, é preciso, pois, poder comparar, refletir e abstrair, pois essas três operações lógicas do entendi-mento são as condições essenciais e universais da produção de todo conceito em geral. (Log, AA 09: A146)

A segunda forma distinta de reflexão é a reflexão transcendental, a qual tem por função re-fletir sobre uma representação a fim de saber a origem da representação, vale dizer, se ela é prove-niente de uma intuição ou de um conceito. Caygill explica a reflexão transcendental da seguinte forma:

Os conceitos de reflexão podem ser usados num ato de reflexão transcendental que apura se eles estão sendo referidos ou não ao entendimento ou intuição; isto é, se a identidade, diferença, etc. é formal ou se “as coisas são idênticas, concordantes ou opostas” (KrV A262 B318). Todo ato de juízo “requer” reflexão transcendental, ou a atribuição de uma representação à sua faculdade cognitiva apropriada. (Caygill, p. 65)

E, por fim, a mera reflexão, operante nos juízos estéticos reflexionantes, caracterizados por Kant da seguinte forma:

O juízo em geral pode ser considerado a faculdade de pensar o particular como contido no universal. No caso de este (a regra, o princípio, a lei) ser dado, a facul-dade do juízo, que nele subsume o particular, é determinante (o mesmo acontece se ela, enquanto indica a priori as condições de acordo com as quais apenas naquele universal é possível subsumir). Porém, se só o particular for dado, para o qual ela deve encontrar o universal, então a faculdade do juízo é simplesmente reflexiva. (KU, AA 20: 179)

Há autores que relacionam as três formas de reflexão na tentativa de elaborar um nexo entre as diferentes ocorrências desse conceito na obra kantiana. Um exemplo notável dessa tentativa foi esboçado por Béatrice Longuenesse em Kant e a Capacidade de Julgar, obra que procura relacionar as ocorrências do conceito de reflexão, que, para reiterar, incluem a reflexão citada na Lógica, que faz parte dos atos de composição de um conceito empírico (comparação, reflexão e abstração), a reflexão da primeira Crítica, contida na Anfibologia, e a reflexão envolvida no juízo reflexionante na terceira Crítica, como se fossem todas manifestação da atividade do juízo reflexionante. Segun-do Longuenesse, a faculdade Segun-do juízo em sua atividade estética reflexionante seria uma atualização da capacidade de julgar dirigida às sensações perceptuais: “é importante, para a compreensão do argumento de Kant, considerar o Vermögen zu urteilen (capacidade de julgar) como uma capacidade para o pensamento discursivo, e o poder do juízo, Urteilskraft, como uma atualização em relação às sensações perceptuais. (Longuenesse, 1998, p. 8).

Longuenesse reitera que a interpretação mais comum da terceira Crítica propõe que somente nessa obra Kant traçou as atribuições do juízo reflexionante, como se esse juízo atuasse somente no juízo estético e no teleológico, enquanto a descrição do juízo na primeira Crítica se referiria ao juí-zo determinante, no entanto, segundo a autora, apesar da atenção que Kant dedicou à descrição do juízo determinante ter sido mais expressiva na CRP, nela também estão incluídos os juízos reflexi-vos (ainda que não tenham essa denominação), sendo a reflexão parte da capacidade do julgar, mesmo no juízo determinante:

Essa oposição ignora o fato de que Kant teve o cuidado de caracterizar os juízos es-téticos e teleológicos como meros juízos reflexivos. Essa restrição pretende negar que os juízos reflexionantes não podem ser, em qualquer sentido, determinantes: eles são puramente reflexivos. Eles diferem, a esse respeito, de outros juízos relati-vos ao sensível dado, que são não apenas reflexirelati-vos, mas também determinatirelati-vos. O que torna esses juízos meramente reflexivos é que, neles, o esforço da atividade de julgar para formar conceitos falha. E falha porque não pode ser concluída. É o caso do juízo estético "meramente reflexivo", onde o acordo da imaginação e do entendimento é de tal natureza que não pode ser refletida sob nenhum conceito. E é o caso também no julgamento teleológico "meramente reflexivo", onde nenhum conceito cognitivo de causa final pode legitimamente ser empregado para explicar a finalidade objetiva dos organismos ou a unidade sistemática da natureza como um todo (o que Kant chama o "propósito subjetivo" da natureza). (Longuenesse, 1998, p. 163-164)

Em sua exposição, Longuenesse usa passagens da primeira e terceira Críticas, bem como da Lógica, que tratam da reflexão, a exemplo da seguinte passagem da CRP: “Esses conceitos (de re-flexão) diferem das categorias pelo fato de não apresentarem o objeto de acordo com o que constitui seu conceito (quantidade, realidade), mas servem apenas para descrever em toda sua multiplicidade a comparação de representações anteriores a conceito de coisas.” (A269 / B325), para provar que há casos em que a atividade de reflexão, incluída pela autora no juízo reflexionante, culmina em uma determinação, passagens nas quais “Kant afirma explicitamente que conceitos de comparação e juízos empíricos, enquanto juízos reflexivos, são "anteriores aos conceitos das coisas" e, portanto, também anteriores à subsunção de objetos empíricos em categorias, como conceitos universais de objetos. ” (Longuenesse, 1998, p. 164).

Tais tentativas de tratar o conceito de reflexão como se tivessem uma função em comum po-dem servir para a compreensão do papel do juízo reflexionante inserido em todo o sistema kantiano. No entanto, para as finalidades deste trabalho, não será abordado o conceito de reflexão em todas as suas ocorrências na obra kantiana, restringindo, por ora, o foco da investigação sobre a noção kanti-ana de juízo estético reflexionante e sua relação com o juízo de gosto sobre a beleza.

O juízo estético de reflexão concerne ao juízo que acompanha um sentimento de prazer ou desprazer na contemplação de um objeto ao qual atribuímos beleza. A atribuição desse sentimento não é passível de conceitualização, porque sua consciência se dá pela sensação e não pelo intelecto:

O juízo de gosto determina o objeto, independentemente de conceitos, tendo em vista a satisfação e o predicado da beleza. Logo, aquela unidade subjetiva da rela-ção das faculdades só pode ser conhecida através da sensarela-ção. O que anima as duas faculdades para uma atividade indeterminada, mas ao mesmo tempo harmoniosa (devido ao estímulo da representação dada), ou seja, a atividade que faz parte do conhecimento, é a sensação. (KU, AA 20: 219)

O juízo de gosto é um juízo estético reflexionante, e sua operação envolve as mesmas facul-dades cognitivas do juízo determinante, no entanto, ao invés de determinar o objeto segundo concei-tos, o juízo entretém o sujeito num jogo de suas faculdades, envolvendo as formas sensíveis apreen-didas na imaginação, bem como a exposição de conceitos do entendimento, em prol da contempla-ção reflexiva sobre um objeto. Nessa contemplacontempla-ção, a atividade de ambas as faculdades é favoreci-da, ainda que esse processo não resulte e tampouco tenha por finalidade o conhecimento do objeto: “então o entendimento e a imaginação entram em acordo recíproco na mera reflexão para favorecer sua atividade, e o objeto é percebido como conforme a um fim apenas para a faculdade de julgar, sendo a mera finalidade, portanto, considerada como somente subjetiva.”. (KU, AA 20: 221)

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