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O julgamento do Conde de Peniche pelo Tribunal de Justiça da Câmara dos

À imagem da sua congénere britânica, a Câmara Alta portuguesa também desempenhava funções judiciais84. O artigo 41.º da Carta Constitucional determinava que era uma competência exclusiva da Câmara dos Pares julgar os delitos cometidos pelos membros da família real, ministros e conselheiros de estado, pelos deputados da nação e pelos próprios pares do reino, embora com a ressalva expressa no artigo 37.º da Lei Fundamental de que os crimes envolvendo responsabilidade ministerial e os crimes

123 cometidos pelos conselheiros de estado seriam os únicos em que a acusação teria de ser obrigatoriamente promovida pela Câmara dos Deputados.

Foram poucas as vezes em que os pares vestiram a sua indumentária forense para se reunirem em tribunal de justiça. Entre 1842 e 1910 foram formulados 18 processos-crime contra deputados, que depois foram remetidos à respectiva Câmara em conformidade com o artigo 27.º da Carta Constitucional. Este artigo, a que mais adiante teremos de voltar a fazer referência, determinava que “Se algum par ou deputado for pronunciado, o juiz, suspendendo todo o ulterior procedimento, dará conta à sua respectiva câmara, a qual decidirá se o processo deve continuar, e o membro ser, ou não, suspenso, no exercício das suas funções”. Mas, de todos aqueles processos, apenas relativamente a quatro deles foi concedida luz verde para que avançassem, sendo então remetidos à Câmara dos Pares. No caso de Joaquim Pedro Celestino Soares, pelo facto deste já não ser deputado no momento da sentença, o tribunal dos pares, em 18 de Fevereiro de 1846, remeteu o processo ao foro militar onde o réu devia ser julgado, enquanto no caso do deputado José Bento Ferreira de Almeida, a Câmara dos Pares constituída em Tribunal de Justiça decidiu, em 18 de Agosto de 1887, julgar procedente a acusação por agressão física, em pleno “recinto do suposto santuário das leis”85, ao então Ministro da Marinha e Ultramar Henrique de Macedo, aplicando-lhe uma pena de 4 meses de prisão militar, “levando-se-lhe em conta para o cumprimento desta pena o tempo de prisão sofrida desde 7 de Maio deste ano”86. Não obstante isso, o 1.º tenente Ferreira de Almeida acabaria por ser nomeado par do reino, em 29 de Dezembro de 1900, pelo governo regenerador de Hintze Ribeiro, acabando no entanto por falecer pouco tempo depois, mais precisamente no dia 4 de Setembro de 1902. A Câmara dos Pares constituiu-se ainda por mais duas vezes em Tribunal de Justiça para julgar dois deputados, em 19 de Dezembro de 1887 e em 26 de Julho de 1899, tendo em ambos os casos absolvido José de Azevedo Castelo Branco e António Tavares Festas dos crimes de que eram indiciados. Quanto às acusações apresentadas ou solicitadas contra ministros na Câmara dos Deputados, entre 1842 e 1856 registaram-se nada menos que dez, uma boa parte delas contra Costa Cabral, resolvendo-se em todos os casos que não havia lugar a decretar a acusação. Já no que concerne ao período compreendido ente 1857 e 1886, não foi levantada pelos deputados qualquer acusação contra ministros de

85 MARTINS, Oliveira, 1959, Volume IV, p. 150.

124 Estado87. Ainda assim, meia dúzia de anos mais tarde, após consumar uma cisão no Partido Regenerador da qual resultaria o Partido Regenerador-Liberal, João Franco expôs um vasto conjunto de princípios políticos que consubstanciavam um verdadeiro programa de governo onde se preconizava uma lei de responsabilidade ministerial que permitisse a acusação dos membros do governo e o seu julgamento pelo Supremo Tribunal de Justiça, e não pela Câmara dos Pares, uma vez que, no seu entendimento, os conluios políticos estabelecidos na Câmara Alta impossibilitavam qualquer responsabilização dos ministros88. Dito por outras palavras, efectivamente, “São bastantes os casos em que se denuncia o comportamento dos ministros, mas aqueles que foram apreciados pela Câmara dos Pares reunida em tribunal jamais sofreram qualquer sanção”89.

Temos pois que, no decurso do período compreendido entre 1842 e 1910, a Câmara dos Pares se reuniu em Tribunal de Justiça por 17 vezes. Por seu turno, no período que é objecto deste estudo, o tribunal de justiça dos pares do reino reuniu-se quatro vezes90, a primeira das quais em 1872, aquando do célebre julgamento do digno par do reino Marquês de Angeja pelo crime de “atentado contra as instituições estabelecidas, a dinastia reinante e a independência nacional”. Por volta dos 50 anos, na força da vida, podíamos caracterizar D. Caetano de Almeida e Noronha Portugal Camões de Albuquerque Moniz e Sousa, 3.º Conde de Peniche e 8.º Marquês de Angeja, como um excêntrico fidalgo de impecáveis pergaminhos aristocráticos com uma visceral vocação demagógica e uma assolapada paixão pelas artes teatrais91. Este homem riquíssimo, com um percurso político desalinhado, foi um dos principais instigadores da Janeirinha, o movimento popular atiçado contra os impostos decretados pelo governo da Fusão, ao qual moveu uma guerra sem tréguas após a entrada de

87 O Senado espanhol também desempenhava funções de Tribunal de Justiça mas só com uma missão

muito precisa, a de julgar exclusivamente os ministros acusados pelo Congresso. Contudo, durante a Restauração, o Senado não se constituiu uma única vez em Tribunal (V. ANADÓN BENEDICTO, 1998, p. 332).

88 V. PROENÇA e MANIQUE, 1989, Volume II, p. 35. 89 SANTOS, 1986, p. 195.

90 A saber: uma vez em 1872, para julgar o Conde de Peniche; duas vezes em 1887, para julgar os

deputados José Bento Ferreira de Almeida e José de Azevedo Castelo Branco; e uma vez em 1889, para julgar o par do reino Conde de Gouveia.

91 MORAIS, 2003, p. 135. Segundo Raul Brandão, «O marquês de Angeja foi um dos maiores originais

do século. Andava sempre de botas de alça, jaleca, chapéu redondo e alforges às costas. […] Quem não o conhecesse, tomava-o por um saloio autêntico. Mas se acaso se metia a ser marquês, ninguém o era mais nem melhor do que ele. Quando entrava na câmara dos pares, o que raras vezes fez, ia de saloio até à porta do parlamento, mas no primeiro recanto tirava dos alforges o manto de arminhos, e só de manto de arminhos assistia às sessões» (BRANDÃO, 1988, Volume II, pp. 218-219).

125 Mártens Ferrão e de Casal Ribeiro para o ministério92, datando sobretudo daí a sua má fama política. Até ao ano de 1872 jamais deixou de desempenhar papel de relevo em todas as contingências políticas da época, sendo inclusivamente acusado na Câmara dos Pares, já em Maio de 1868, “pelos crimes de rebelião, associação ilícita e desobediência”, do qual foi posteriormente absolvido em 25 de Junho de 1868 por um decreto do primeiro governo avilista93. Mas mal se livrou desta primeira acusação, o Conde de Peniche não perdeu tempo e retomou as suas actividades subversivas, promovendo reuniões sediciosas no seu sumptuoso palácio situado na rua de S. Lázaro, ao Socorro, as quais se tornaram num foco permanente de desordens e que, segundo algumas testemunhas, eram sempre muito concorridas por notáveis e por militares94. Aliás, foi manifesta a cooperação entre alguns oficiais do exército e certas franjas radicais da sociedade na agitação conspirativa fomentada pelo Conde de Peniche, como, de resto, se depreende do teor do despacho de pronúncia enviado pelo juiz Miguel Osório à Câmara dos Pares. De acordo com o parecer, as reuniões promovidas pelo Conde de Peniche quer na sua residência, quer na loja maçónica situada “para os lados da Bica” numa ruela conhecida por “Carreirinha do Socorro”, eram muito concorridas não só por “paisanos arregimentados” mas também por militares (praças, furriéis, coronéis, majores e sargentos), entre os quais se incluíam alguns recalcitrantes da

Saldanhada de 19 de Maio de 1870. “O próprio D. Caetano referia-se por vezes ao

importante papel que teriam os oficiais da saldanhada no desenrolar da revolta”95.

Quando da formação do ministério saído do golpe militar levado a cabo por Saldanha em 19 de Maio de 1870, a entrada do Conde de Peniche para o governo – agraciado nesta altura com o título de 8.º Marquês de Angeja enquanto legítimo descendente da antiquíssima casa de Noronha – não causou grande espanto96. Salientara-se ele nos últimos anos por ser o chefe de uma seita desordeira, os

92 Vasco Pulido Valente refere que «A entrada de Martens Ferrão e Casal Ribeiro transformara o

ministério numa pura coutada dos regeneradores, a que Loulé e o partido histórico só por impotência se resignavam» (VALENTE, 2001, p. 240).

93 A Câmara dos Pares, em sessão realizada em 22 de Junho de 1868, julgou procedente a acusação contra

o Conde de Peniche e, «atendendo às circunstâncias do processo», determinou que o réu «se livrasse solto sem fiança». Em sessão de 3 de Agosto de 1868, a Câmara dos Pares constituída em Tribunal de Justiça, deliberou, por acórdão e a requerimento do Procurador-Geral da Coroa, aplicar o decreto de amnistia de 25 de Junho de 1868.

94 DÓRIA, 2004, p. 184. 95 DÓRIA, 2004, p. 188.

96 O Marquês de Angeja era descendente directo de algumas figuras ilustres da história de Portugal como

Afonso de Albuquerque, D. António de Noronha, D. Miguel de Almeida e D. Filipa de Vilhena (V. O

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penicheiros. De resto, este movimento populista, difícil de caracterizar, não deixa de

evocar uma espécie de “miguelismo” corrigido pelo radicalismo da época e pelo meio urbano. O Conde de Peniche como que incorporava duas personalidades antagónicas que representavam, dentro do sistema monárquico liberal, o que podia haver de mais irreconciliável, ou seja, o progressismo que ia quase até ao republicanismo e o conservadorismo que ia quase até ao absolutismo. Já foi de resto notado que dentro da conspiração que estava em marcha existiam “indivíduos de todas as políticas”97.

Peniche era portanto um dos principais animadores do híbrido movimento que ditou o derrube do terceiro governo histórico presidido pelo Duque de Loulé, e como tal julgava-se plenamente no direito de ser recompensado com uma das pastas no chamado governo da “Meia-noite” presidido por Saldanha, organizando inclusive comícios em seu favor98. Todavia, passado pouco tempo, a sua permanência no poder tornou-se insustentável quando, a 27 de Julho, os seus amigos arruaceiros realizaram uma manifestação frente ao centro do Partido Reformista, apupando e apedrejando “a gente do bispo de Viseu” e as forças da ordem. Os militares, obedecendo às ordens do ministro Dias Ferreira, que já estava manifestamente apreensivo com o facto de o seu colega não controlar os seus indómitos “amigos”, não tiveram outra saída senão carregar violentamente sobre os penicheiros99.

Escorraçado do poder sem honra nem glória e, para mais, profundamente ressentido pelo seu afastamento, o conde e a irascível turba radical que gravitava em seu redor logo procuraram vingar-se dos que tão mal o recompensaram pelos seus prestimosos serviços, tornando-se desde então num perigo iminente para as instituições vigentes, ora desacatando as leis ora desafiando as autoridades. Chegou mesmo a ventilar-se nos jornais o seu conluio com as guerrilhas carlistas espanholas que semeavam a propaganda reaccionária junto à fronteira e com os refugiados carlistas que se encontravam exilados em Lisboa100. Uma das testemunhas arroladas no processo asseverou mesmo durante um depoimento policial que “Havia elementos do partido

legitimista a frequentar as reuniões, em baixo número e com peso político muito

limitado”101. A crescente actividade conspirativa do Conde de Peniche e da sua pandilha

97 DÓRIA, 2004, p. 199.

98 O namoro entre os penicheiros e Saldanha já durava desde o tumultuoso ano de 1868 (V. MÓNICA,

1999, p. 88).

99 DÓRIA, 2004, pp. 145-147. 100 V. Diário de Notícias, 25.10.70. 101 DÓRIA, 2004, p. 191.

127 culminou com o seu envolvimento na Pavorosa de 24 de Julho de 1872. Uma revolta que apesar de ter abortado102, à semelhança da famosa conjura urdida por Catilina na Roma Antiga, daria contudo ensejo a um debate político de alguma gravidade. Não só porque entre os nomes do vasto rol de delinquentes – onde era possível encontrar mais alguma gente graúda como o Conde de Magalhães, o Visconde de Ouguela e o Barão de Pomarinho – se contava aquele desaustinado par do reino103, acusado no processo instaurado pelo ministério público de ser o cabecilha da tenebrosa conspiração cujos objectivos ambíguos iam desde o derrube do governo de Fontes até à mudança dinástica, à proclamação da república e à união ibérica, mas sobretudo pela enorme controvérsia e pelas incríveis vicissitudes que rodearam o seu julgamento.

Por força do seu estatuto de par do reino, o Conde de Peniche gozava de um foro especial de imunidade, sendo o seu julgamento uma prerrogativa inalienável da Câmara dos Pares, depois de ouvido o parecer do Conselho de Estado sobre o melindroso assunto104. Uma reunião que não foi totalmente pacífica. Na sua sequência, por entender

que a constituição da Câmara dos Pares em Tribunal de Justiça devia ser decidida pela própria câmara e não pelo governo, o Duque de Loulé pediu a demissão da presidência da Câmara Alta105, um cargo que vinha desempenhando desde 21 de Setembro de 1870, tendo desde então presidido a mais de uma centena de sessões. Tal como acontecia com a nomeação dos pares do reino, a nomeação do presidente e do vice-presidente da Câmara dos Pares era uma prerrogativa exclusiva do monarca estabelecida pelo artigo 21.º da Carta Constitucional106. Por sugestão de Fontes Pereira de Melo, D. Luís

102 Tudo leva a crer que o governo tinha informações de que o plano dos conspiradores era vasto e bem

organizado e de que estes se sentiam fortes para o realizar. Alarmado com o fantasma da rebelião, o governo seguiu o fio da conspiração de modo a combater o mal pela raiz, impedindo a eclosão da revolta.

103 V. OUGUELA, 1873. O Marquês de Nisa foi outro dos membros do pariato que também veio à baila,

contudo numa carta aberta datada de 29.09.72, o marquês negou veementemente tais boatos. Mas como diz o provérbio, «a calúnia é como o carvão, quando não queima, suja» (V. Diário de Notícias, 10.10.72).

104 V. Actas do Conselho de Estado, sessão de 30.09.72, ANTT, Casa Forte 77 D. O facto de estar sob a

alçada judicial da Câmara dos Pares evitou-lhe o encarceramento pois, com excepção do Marquês de Angeja, todos os restantes conspiradores viram pender sobre si mandados de captura emitidos pelo juiz que instruiu o processo da Pavorosa, indo uma boa parte deles passar uma temporada aos calabouços do Limoeiro. De resto, uma das mais persuasivas críticas dirigidas aos pares do reino era relativa ao seu estatuto jurídico-constitucional excepcionalmente favorecido.

105 Anselmo José Braamcamp foi o único conselheiro de estado que alinhou com Loulé no que respeita à

ilegalidade da convocação. Na sua opinião, «o governo tão-somente podia convocar a câmara dos dignos pares para julgar um dos seus membros depois dela ter concedido a necessária licença, no exercício das suas atribuições políticas» (Actas do Conselho de Estado, sessão de 30.09.72, ANTT, Casa Forte 77 D).

106 No entanto, o cargo de presidente da Câmara dos Pares deixou de ser vitalício logo após a morte de

Fontes posto que, de acordo com o decreto de 27.01.87, o presidente e o vice-presidente da Câmara dos Dignos Pares do Reino passaram a ser nomeados por decreto real no princípio de cada sessão legislativa ordinária (V. PRAÇA, 1983, Volume II, p. 389). Sobre as supostas desvantagens do carácter vitalício da presidência da Câmara dos Pares ver GARRETT, 1984, pp. 176-177.

128 decidiu-se em 11 de Outubro de 1872 pelo Marquês de Ávila107. Segundo José Miguel Sardica “Tudo o empurrava para o lugar: a idade, o currículo, o favor régio, a disponibilidade política, o perfil moderado e conciliador”108.

No entanto, a tomada de posse do novo presidente da Câmara dos Pares, não obstante a gravidade do acto, foi objecto de algumas dúvidas. A investidura de Ávila, o 6.º presidente desde a fundação do pariato em 1826, ocorreu precisamente na 1.ª sessão extraordinária em que a Câmara planeava constituir-se em tribunal de justiça para julgar do caso em que o Marquês de Angeja se encontrava implicado até à raiz dos cabelos. Nessa ocasião, o Marquês de Valada resolveu interrogar a mesa para saber se o acto da tomada de posse da presidência da Câmara dos Pares era um “acto judicial”109. De acordo com a constituição, a Câmara dos Pares exercia funções legislativas e funções judiciais, as quais eram funções autónomas e completamente distintas. Contudo, segundo a esmagadora maioria dos pares presentes na sessão extraordinária de 18 de Outubro de 1872, essa discriminação de funções não era inibitória da investidura do presidente que, na sua perspectiva, era um “acto muito especial” que transcendia o facto da Câmara Alta estar exercendo funções judiciais ou legislativas.

Embora o móbil da acesa polémica que arrastou a Câmara dos Pares para a crista da onda fosse o decreto governamental de 30 de Setembro de 1872, pelo qual o governo convocava a Câmara dos Pares a reunir-se extraordinariamente em Tribunal de Justiça, na verdade as peripécias em torno do julgamento do Marquês de Angeja começaram logo com a convocação dos pares do reino. Devido à demissão de Loulé, os ofícios de participação da reunião do tribunal estiveram a cargo do Conde de Castro, o vice- presidente da Câmara, que cometeu a gaffe de convocar o chefe dos penicheiros para ser juiz num processo em que o próprio figurava como arguido, fazendo assim tábua-rasa do artigo 2.º do Regulamento. Segundo este artigo, para que a Câmara se pudesse constituir em tribunal de justiça e funcionar legalmente, era necessária a presença de pelo menos 17 pares que não estivessem inibidos de serem juízes na causa que iria passar em julgado. Num ofício que dirigiu à Câmara, o Marquês de Angeja não só demonstrava a sua estupefacção por ter sido intimado “a servir de juiz num processo em

107 DÓRIA, 2004, p. 217. 108 SARDICA, 2005 a), p. 527.

129 que era indigitado como réu”, como protestava ainda com toda a candura do mundo contra a ilegalidade da convocação do tribunal110.

Como já referimos, foi todavia o decreto do governo de 30 de Setembro de 1872, já acima referido, convocando a Câmara dos Pares para que esta se constituísse em tribunal de justiça, que levantou ondas de protestos entre a oposição histórica. A começar, como vimos, pelo próprio presidente da Câmara que, por não estar de acordo com a decisão do governo, pediu a demissão do cargo, alegando uma intromissão do Poder Executivo no campo da Justiça. Na realidade, o que Loulé desejava era evitar ter que assumir as funções de juiz-presidente, um papel que muito o impopularizaria junto da plebe lisboeta entre a qual o Partido Histórico recrutava apoio popular. Por essa razão, os regeneradores afirmavam que a demissão de Loulé, que tornou uma questão judicial num bicudo problema político, fora sugerida mais por conveniências e pressões partidárias do que por escrúpulos de consciência111. Não admira que Loulé tivesse

querido evitar a fúria da plebe lisboeta: durante os famigerados tumultos do Natal de 1861, ocorridos após a morte de D. Pedro V e dos infantes D. Fernando e D. Augusto, vira-se obrigado a fugir da turba exaltada por uma recôndita janela do Arsenal da Marinha, juntamente com os restantes ministros112.

De resto, não era esta a primeira vez que se colocava com especial acuidade o problema da falta de autoridade do chefe do “partido popular” sobre as suas bases mais radicais. Na verdade, este garboso prócere que “Representava e traduzia fielmente o

whig aristocrata inglês”113, nunca foi um líder consensual e incontestado entre os seus correligionários114, sendo “manifesta a fractura desde sempre existente no Partido Histórico entre uma tendência representada por Loulé, que se inclinava para a colaboração com os regeneradores, e uma tendência radical que apostava, pelo contrário, na afirmação da autonomia da esquerda”115. Por essa razão, O Português, o órgão oficial do Partido Histórico, e a facção radical que ali dominava, nunca poupou as críticas, as admoestações e as ameaças a Loulé sempre que entendia que os seus governos se desviavam da “vereda progressista”116. Não sendo a única, a chamada

110 DCP, sessão de 04.11.72 da Câmara dos Pares constituída em Tribunal de Justiça. 111 V. A Revolução de Setembro, 04.10.72.

112 V. GOMES, 1907, Volume XII, p. 189. 113 SABUGOSA, 1974, p. 303.

114 Segundo José Miguel Sardica, «Loulé era mais um conservador centrista do que um rasgado líder de

esquerda» (V. SARDICA, 2001 a), p. 226).

115 BONIFÁCIO, 2001, p. 991.

130 questão das Irmãs de Caridade foi sem dúvida um flagrante exemplo desta petulância política e jornalística117.

Loulé entendia que o decreto de 30 de Setembro de 1872 violava a constituição