3 UMA ANÁLISE DOS PROCESSOS ADMINISTRATIVOS À LUZ
3.8 Fases do processo administrativo disciplinar
3.8.3 Julgamento
Chega-se à terceira e última etapa do processo disciplinar. Com a elaboração do relatório a comissão de inquérito é desfeita e o processo é remetido para a autoridade superior que deverá proceder ao julgamento do feito. Nesta fase, a autoridade ou órgão competente deverá proferir sua decisão acerca do objeto do processo. Conforme já afirmado, tal decisão não se encontra subordinada às conclusões do trio processante constantes no relatório, podendo, por interpretar diversamente as normas legais aplicáveis ao caso, ou caso o julgador chegue a conclusões fáticas distintas, a decisão da autoridade ser em sentido diverso do entendimento constante do relatório.114
A hipótese de a autoridade competente decidir de forma distinta das conclusões da comissão disciplinar encontra respaldo na jurisprudência do STJ115:
1. A autoridade competente para aplicar a sanção administrativa pode divergir das conclusões da comissão disciplinar e impor penalidade diversa da sugerida, ainda que mais grave, desde que apoiada tal decisão em suficiente motivação, como verificado na presente hipótese
Ainda nessa seara, Hely Lopes Meirelles116 assim discorre:
O essencial é que a decisão seja motivada com base na acusação, na defesa e na prova, não sendo lícito à autoridade julgadora argumentar com fatos estranhos ao processo ou silenciar sobre as razões do acusado, porque isto equivale a cerceamento de defesa e conduzirá à nulidade do julgamento, que não é discricionário, mas vinculado ao devido procedimento legal. Realmente, se o julgamento de processo administrativo fosse discricionário, não haveria necessidade de procedimento, justificando-se a decisão como ato isolado de conveniência e oportunidade administrativa, alheio à prova e refratário a qualquer defesa do interessado.
O que se reconhece à autoridade julgadora é liberdade na produção de prova e na escolha e graduação das sanções aplicáveis quando a norma legal consigna as 114 Ibidem, 2016, p. 827.
115 MS 14.856/DF, 3ª Seção, rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 12.09.2012, D]e 25.09.2012.
116 MEIRELLES, José Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro – 42ª ed. - Malheiros: São Paulo, 2016, p. 827.
penalidades sem indicar os ilícitos a que se destinam, ou lhe faculta instaurar ou não o processo punitivo. Porém, jamais se admitiu a qualquer autoridade punir o impunível, ou negar direito individual comprovado em processo administrativo regular, ou desconstituir sumariamente situação jurídica definitiva e subjetiva do administrado.
A competência para o julgamento será fixada com base na gravidade da sanção a ser imposta. Caso haja pluralidade de indiciados, sujeitos a sanções de gravidade distintas, haverá um único julgamento, a ser proferido pela autoridade competente para imposição da penalidade mais gravosa, conforme preconiza o art. 167, § 2º117 da Lei 8.112⁄90. Caso a
penalidade prevista seja a de demissão ou cassação de aposentadoria ou disponibilidade, que são as penalidades mais graves previstas naquela legislação, o julgamento caberá às autoridades de que trata o inciso I do art. 141118, não obstante a possibilidade de delegação de
competência.
O julgamento pela autoridade competente é talvez o momento processual de maior gravidade e importância na seara disciplinar, onde, ressalvando-se a sempre inafastável possibilidade de tutela jurisdicional, é muitas vezes o momento em que é decidido o destino de toda uma carreira funcional. Dessarte, tal juízo deve ser realizado de forma criteriosa e técnica, atendo-se às provas, fatos e razões da defesa e da comissão constantes nos autos. Acerca da relevância de tal etapa, assim leciona Antônio Carlos Alencar Carvalho119:
O julgamento espelha o momento decisivo, no qual o órgão que procedeu à instauração do processo administrativo disciplinar deverá, se competente for, decidir sobre a comprovação, ou não, do cometimento de infração funcional pelo servidor acusado, apreciando, criteriosa e fundamentadamente, as provas e fatos coletados nos autos e cotejando as dialéticas razões da defesa e da comissão acusadora, no intuito de formar um juízo final em torno da conduta praticada pelo funcionário imputado, com vistas à aplicação de penalidade ou à absolvição.
Cabe à autoridade competente, inicialmente, verificar a regularidade do processo e, constatando-se alguma ilegalidade, deverá pronunciar o vício, determinando sua nulidade, total ou parcial, determinando a designação de nova comissão para refazer o ato anulado e dar
117 § 2º Havendo mais de um indiciado e diversidade de sanções, o julgamento caberá à autoridade competente para a imposição da pena mais grave.
118 Art. 141. As penalidades disciplinares serão aplicadas:
I - pelo Presidente da República, pelos Presidentes das Casas do Poder Legislativo e dos Tribunais Federais e pelo Procurador-Geral da República, quando se tratar de demissão e cassação de aposentadoria ou disponibilidade de servidor vinculado ao respectivo Poder, órgão, ou entidade;
119 CARVALHO, Antônio Carlos Alencar. Manual de processo administrativo disciplinar e sindicância: à luz da jurisprudência dos Tribunais e da casuística da Administração Pública - 3ª ed. rev. Atual. e ampl. Fórum: Belo Horizonte, 2012. p. 834.
seguimento ao caso. Caso não se verifique qualquer nulidade, deve o julgador analisar o relatório apresentado pela comissão e realizar um cotejamento deste com as provas constantes nos autos. Conforme o art. 167, § 4º120, caso a conclusão do relatório seja pelo
reconhecimento da inocência do servidor deverá a autoridade proceder ao arquivamento do processo, salvo se aquela estiver em flagrante descompasso com a prova dos autos.121
Ao fim do julgamento, o ato punitivo disciplinar poderá ser formalizado por meio de portaria ou decreto, a depender da gravidade da sanção a ser aplicada ao indiciado, característica esta que também determinará a autoridade competente para sua aplicação, conforme já destacado. As penas de demissão e cassação de aposentadoria ou disponibilidade, cuja competência recai sobre as altas autoridades da República, ressalvada a possibilidade de delegação, são formalizadas por meio de decreto. Já as penalidades menos graves, como advertência, suspensão e multa, por serem impostas por autoridades como Ministros de Estado, chefes de repartições entre outros, são formalizadas por meio de portaria.
120 § 4º Reconhecida pela comissão a inocência do servidor, a autoridade instauradora do processo determinará o seu arquivamento, salvo se flagrantemente contrária à prova dos autos.
121 JUSTEN FILHO, Marçal. Curso de Direito Administrativo – 10ª ed. - Revista dos Tribunais: São Paulo, 2014, p. 1.076.
4 UMA ANÁLISE ACERCA DA CONTAGEM DO PRAZO PARA FINS DE