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CAPÍTULO 2: DIFERENTES IMPLICAÇÕES DOS PROGRAMAS DE RENDA MÍNIMA:

2.1. Jundiaí: O que Vale é Aprender

Há dois elementos principais que se destacam na visão das beneficiárias de Jundiaí em relação ao programa Produção Associada com Garantia de Renda Mínima (PAGRM). O primeiro deles refere-se à oportunidade de aprendizado que ele lhes garante, e que é muito valorizado por elas. O segundo é a percepção do programa, em si mesmo, como um trabalho ou um emprego. Durante os dezoito meses de vinculação ao PAGRM, as beneficiárias participam diariamente de oficinas, nas quais são desenvolvidas atividades sócio-educativas e também – e principalmente – atividades laborais. Nas oficinas de artesanato (biscuit, crochê, bijuteria, miçanga, caixa de presente, chinelo, guardanapo e pano de prato), produção de blocos de concreto, compotas, doces e artigos de marcenaria, as beneficiárias que vieram participando do programa desde 1996 costumavam trabalhar em meio período (4 horas diárias) de segunda à sexta-feira, aprendendo

determinado ofício na prática e, mais recentemente, passaram a ter aulas de alfabetização e mesmo de reforço do conteúdo programático do Ensino Fundamental.

Nas falas das beneficiárias do PAGRM, o mais importante do programa é o múltiplo aprendizado que ele lhes oferece: o aprendizado escolar formal (que inclui a possibilidade de obtenção de diploma do Ensino Fundamental, em caso de aprovação em exame supletivo), o aprendizado de conhecimentos e cultura gerais (que vão de culinária aos direitos da mulher e práticas de reciclagem), o aprendizado pessoal-comportamental (conforme já indicado no capítulo anterior) e, o mais valorizado por elas, o aprendizado para o trabalho – que inclui tanto o aprendizado profissional específico dos cursos e oficinas, como também o aprendizado ou internalização da ética do trabalho, especialmente da disciplina, comprometimento e responsabilidade necessários ao trabalho. As falas a seguir dão uma idéia deste múltiplo aprendizado e do quanto ele é valorizado pelas beneficiárias que, em suma, acreditam que estão ganhando o benefício da renda mínima para obterem o aprendizado escolar e profissional (ao qual não tiveram acesso antes por uma série de motivos) que é necessário à sua inclusão no mercado de trabalho, quando, em muitas das vezes, ao contrário disso, teriam é que pagar por cursos para ter este aprendizado. Daí a satisfação delas com o PAGRM:

“C: Muita coisa que você não sabe, você está aprendendo.

I: Ter responsabilidade, né? O mais importante é a responsabilidade que a gente tem e, mais para a frente, a gente caminhar com as próprias pernas.

C: O importante é a gente aprender, não é? Tem um sentido melhor.

R: A reunião da gente é sobre o curso, sobre a limpeza, sobre a computação, aprender o que está aprendendo em sala de aula, uma tenta explicar para a outra, não é? São todas experiências, a gente aprende uma com a outra também”. (Isabela, Carmem e Rafaela, beneficiárias do PAGRM de Jundiaí, 02/03/2006).

“S: Eu acho assim, a gente aprendeu muito sobre o direito, que a

gente não sabe, né? Eu mesma, eu trabalhei tanto, não sabia sobre o direito do trabalhador, assim, sobre o direito do 13.º, sobre o direito do registro na carteira, do direito de aviso prévio, como que funciona o aviso prévio. Foi bem importante isso daí, pra mim, que eu não sabia. E os demais, muita coisa que eu não sabia como fazer, como agir, como trabalhar numa empresa. Se for para eu entrar numa empresa hoje, eu vou saber muita coisa que eu não sabia, entendeu? O que fazer, o que não fazer; o que perguntar, o que não falar.

F: É, sobre o comportamento.

S: Exatamente. Como usar uma roupa, como procurar um emprego, como usar uma maquiagem, até isso.

F: De higiene, de comportamento, de várias coisas que a gente está aprendendo”. (Fernanda e Samanta, beneficiárias do PAGRM de Jundiaí, 02/03/2006).

“É bom você saber fazer as coisas. Saber mexer. Poder dizer: ‘ah, eu também sei fazer isso aí! Então pra gente é um orgulho! Eu acho um programa muito bom, porque sempre a pessoa aprende e é uma coisa que você pode passar pra filho e é um ganha-pão não só pra hoje, mas até para o dia de amanhã, pro futuro. É um serviço muito bom. Eu ñ trocaria de atividade. Acho muito bom, porque se fosse pra gente pagar pra aprender, não aprenderia nunca! Então essa oportunidade é bom! Teve uma que desligou e que voltou umas 2 vezes, porque às vezes ficava desempregada e aí não tinha como se manter. Então voltava pra trabalhar porque é melhor o pouco do que nada, né? Então voltava pra trabalhar. E às vezes ia atrás de serviço. Muitas não gostam porque fica suja, mas eu não tô nem aí, porque eu tô trabalhando!”. (Luana, beneficiária do PAGRM de Jundiaí, 25/05/2005).

Na visão das beneficiárias, todo este aprendizado deve proporcionar a elas melhores oportunidades de obtenção de emprego, ou seja, de ganharem autonomia e caminharem pelas próprias pernas. Este é, de fato, o objetivo principal do programa: inserção das beneficiárias no mercado de trabalho, para obterem renda por esta via (emprego assalariado). Por isso, é interessante notar

que na última reformulação por que passou o PAGRM, ainda em fase de implantação, o trabalho nas oficinas foi de certa forma substituído pela realização de cursos e pela escolarização, visto que se percebeu que através das oficinas, ainda que o aprendizado fosse válido e as beneficiárias encontrassem meios alternativos para geração de renda, através de trabalho autônomo, não teriam uma renda certa e garantida como no caso daquela proveniente do trabalho assalariado. Por isso as beneficiárias demonstram contentamento e esperança diante da reformulação do programa: pela possibilidade que tomam como certa de obterem um emprego tão logo se desvinculem dele. É o que dizem as falas a seguir:

“Beneficiária 4: Que nem, o curso mesmo foi uma coisa muito boa, porque aí você já tá encaminhada pra um emprego, né? Se tudo der certo, a gente já vai trabalhar, registrada e tudo”. (Reunião com as beneficiárias do PAGRM de Jundiaí, 16/06/2006).

“S: É, então, o que a gente está aprendendo agora tem um tipo de retorno, que nem o biscuit, a gente pode trabalhar em casa e sair vendendo.

F: Só que é uma coisa que não é... não tem muito lucro, é uma coisa que não tem muito por tempo determinado, agora você tendo o esforço e tendo um emprego bom, é melhor, não é?

Esse daqui é melhor porque ele profissionaliza a gente para um trabalho. Quem quer aprender, quer porque vai aprender, porque... Nossa, eu, saindo daqui, tomara que eu tenha um emprego! E vou segurar, porque eu já sei fazer tudo para ficar bem no emprego, né? E eu vou fazer! Aí é uma coisa para dar lugar para as outras, porque quando a gente sair daqui, continua, com outras pessoas que aprende também, não é? E arrumar um emprego porque ficar só dependendo de um dinheirinho pequeno é pouco, tá certo que a gente está ganhando para aprender, mas não deixa de ser pouco, a gente pretende ter uma carteira registrada, não é? Pô, vai ficar para sempre aqui? O bom é que a gente tivesse um emprego!”. (Fernanda e Samanta, beneficiárias do PAGRM de Jundiaí, 02/03/2006).

Conforme se nota dos comentários acima, as beneficiárias do PAGRM de

Jundiaí apresentam uma posição muito clara em relação ao trabalho e ao emprego: a inserção no mercado de trabalho, preferencialmente formal, isto é, registrado em carteira, é o que todas querem e objetivam conseguir. Em contraste com o que será visto adiante em relação à posição das beneficiárias do PNF de Santos, não é a geração de renda através de algum negócio próprio ou de meios alternativos ao trabalho assalariado – ou, em suma, pela propalada via do empreendedorismo – o que as beneficiárias do PAGRM de Jundiaí buscam e nem, sequer, cogitam. Diante do programa, elas tomam como certa a sua inclusão no mercado e obtenção de um trabalho assalariado pois, como elas dizem, estão sendo preparadas para isso, “já sabem fazer tudo para ficar no emprego” e “serão valorizadas pelo que sabem”.

Percebe-se, portanto, que estão ausentes da percepção das beneficiárias as dificuldades de inserção no mercado de trabalho e obtenção de emprego decorrentes de outras causas que não a baixa escolaridade e a falta de formação profissional. Em outras palavras, elas vivem a ilusão de que estudando e obtendo um diploma que certifique a sua formação e o seu conhecimento, conseguirão encontrar emprego. Acreditam nisso.

Aliás, as falas das beneficiárias também mostram que, para elas, superar a pobreza é uma questão de oportunidade, esforço e força de vontade. Assim, através da oportunidade oferecida pelo Estado, por meio do PAGRM, de serem treinadas, de ganharem experiência, qualificação, conhecimento e mesmo um diploma para sua inserção no mercado de trabalho, as beneficiárias acreditam poder vencer as dificuldades para obtenção de renda e sustento de suas famílias, bem como para superar a própria condição de pobreza. A alternativa que se lhes apresenta é a de uma segunda oportunidade que, se for bem aproveitada, poderá minimizar, para cada beneficiária (e sua família), a depender de sua força de vontade, a condição de pobreza. Predomina, portanto, a visão de que, dadas as oportunidades (de estudo), evitar ou superar a pobreza é responsabilidade de cada um, depende de cada indivíduo, de seu mérito, força de vontade, esforço e dedicação:

“I: É um incentivo à pessoa, né? Eu acho que o grupo realmente incentiva a pessoa a estudar, a aprender. Porque, hoje em dia, pra você conseguir alguma coisa, uma faxineira que seja, se você não tiver a oitava série, você nem dá a entrevista pra limpar, não é? E a gente está fazendo, está estudando, está fazendo o curso de limpeza, quer dizer, se tiver força de vontade, né?

R: Vai pra frente!

I: Na minha opinião, eu acho bom, eu acho que a pessoa tem que ter responsabilidade, né? Que nem eu falei que aqui eu tenho chance de poder arrumar um serviço lá fora, voltar com um curso, né? Eu vou pegar o diploma da oitava série. Então se a pessoa tem força de vontade, ela sai até empregada no final do curso, não é? Eu acho uma ótima isso. Com o certificado na mão, é como eu falei, pra auxiliar de limpeza, você precisa da oitava série. Aqui você vai ter a oitava série completa e você vai ter um diploma do curso que você fez. E se a pessoa sabe que você tem um curso e tem a capacidade pra fazer aquilo, a pessoa vai mais confiante e vai te pagar. Você vai estar recebendo por uma coisa que você está fazendo e sabe fazer e a pessoa vai ficar grata de te pagar, porque você sabe fazer, não vai desvalorizar você. Então eu acho que vale a pena o curso, a escola pra aprender, tudo tem que aprender. Se você quiser ser alguém na vida, tem que aprender (...). Porque numa empresa, você pode trabalhar na limpeza. Se tiver força de vontade, daqui a pouco você já está lá mexendo na máquina, vai depender de você, do seu esforço, da sua responsabilidade. Eu acho que aqui ensina a você ter responsabilidade e ensina a ser mais gente, porque o dinheiro é seu. Porque a pessoa vai ter mais responsabilidade: ‘ah, isso aí! Agora vou lá cumprir o meu horário porque eu vou ganhar no fim do mês!

C: O melhor é você aprender, negócio de estudo, essas coisas.

I: A parte boa é que eu tenho o pensamento que com o diploma eu vou mais longe e vou ser mais valorizada no que eu estiver fazendo”. (Isabela, Carmem e Rafaela, beneficiárias do PAGRM de Jundiaí, 02/03/2006).

O segundo elemento que se destaca na visão das beneficiárias é a percepção de que o programa é um trabalho, um serviço ou mesmo um emprego. Conforme já dito, ele é considerado como uma oportunidade oferecida pela

prefeitura para aprenderem um ofício e, assim, terem otimizadas as suas chances

de inserção no mercado de trabalho; porém, mais do que isso, o próprio programa, em decorrência das atividades e exigências que dele fazem parte, acaba sendo encarado, ele próprio, como um trabalho ou um emprego. É interessante notar, primeiramente, como a palavra “trabalho”, e outras dela derivadas, bem como termos e expressões característicos do mundo do trabalho, tais como “empresa”, “firma”, “lucro”, “férias”, “escalação”, “equipe”, “revezamento”, “desconto do dia”, “mandar embora”, aparecem freqüentemente nas falas das beneficiárias ao se referirem ao programa:

“Beneficiária 1: Durante o tempo que a gente tá trabalhando aqui é bom. A gente ganha, dá pra ajudar em casa, manter os filhos, porque a maioria aqui não trabalha por causa dos filhos. Me chamaram aqui e quando eu comecei a trabalhar eu tava com o braço engessado, então continuei fazendo biscuit aqui. Então parei de fazer em casa porque eu faço aqui, pego daqui, vendo, trago dinheiro, então é a mesma coisa que se eu fizesse em casa. Então a gente trabalha aqui um ano e seis meses, a gente trabalha pra sustentar os filhos, só que quando a gente sai daqui, o que a gente aprende aqui não tem uma grande serventia profissional, por causa dos custos com material, essas coisas que ficam caro. Mas se fossem uns cursos profissionalizantes, eu acho que seria de maior ajuda. Porque agora a gente tá ganhando o peixe, né, mas o melhor seria que ensinasse a pescar57 (...).

Beneficiária 2: Porque coisas que a gente tem vergonha de comentar com a família, aí você começa a confiar nas pessoas no ambiente que você trabalha e aí é onde você tira aquele sofrimento que tá te incomodando.

Beneficiária 3: E aqui tá todo mundo reunido, trabalhando e pensando junto. (Reunião com as beneficiárias do PAGRM de Jundiaí, 16/06/2006).

“I: Se mudar de emprego, se mudar de bairro, eles cortam.

C: Independente, né? Vamos supor: trabalha aqui na parte da manhã. Se eu arrumar um serviço na parte da tarde, eu tenho que dar conta

57 A última frase em negrito da beneficiária revela a força e persistência da idéia de que “menos vale dar o peixe do que ensinar a pescar”, conforme já aludido na nota 34 (página 17).

dos dois, aqui e onde eu vou arrumar. Se eu achar, se eu resolver que eu não posso dar conta, então a Silmara chega pra você: ‘então escolhe: ou aqui ou onde você arrumou’. (Isabela e Carmem, beneficiárias do PAGRM de Jundiaí, 02/03/2006).

Outro traço do programa que chama a atenção nas falas das beneficiárias é a visão do funcionamento do mesmo como uma empresa. Na verdade, o modus

operandi de uma empresa capitalista parece ser tomado como exemplo a ser

seguido para que o programa tenha resultados efetivos. Neste sentido, a colaboração e o compromisso de todas é indispensável, e cada uma tem que fazer a sua parte. Há, assim, na operacionalização das oficinas, divisão de trabalho e também uma hierarquia de cargos e funções. Segundo as beneficiárias, as assistentes sociais exercem o papel de gerentes, administrando cada oficina, enquanto que elas, beneficiárias, exercem o papel de operárias, devendo passar pelos diversos cargos na divisão do trabalho: cuidar das crianças (isto quando era permitido a presença dos filhos nas oficinas), fazer a merenda, trabalhar na produção, na venda, e algumas vezes na contabilidade de cada oficina. Assim resumem algumas das beneficiárias seu cotidiano nas oficinas do PAGRM:

“A compota era assim: tinha aula, acho que três vezes na semana. Aí quem era menos alfabetizado participava nas três aulas; quem já tinha da quinta em diante participava de uma ou duas, mas sempre pelo menos uma na semana, que todo mundo do grupo tinha que participar. E o restante tinha que sair para as vendas, tinha que fazer o doce, né? Tinha uma pra olhar criança, né? A pessoa ficava uns dois, três meses, daí colocava outra, que era para ela aprender também outra atividade, fazer o doce, não ficar só nisso, senão ela ia sair daqui sabendo fazer o quê? Eu fiquei um bom tempo também no livro caixa, junto com ela [a técnica]. Cada grupo, ela deixava duas meninas, mas revezava também, ficava tipo uns quatro meses, né? Duas pessoas, mas ela mudava, porque ela queria que todo mundo aprendesse de tudo um pouco, né? Eu mesma de tudo aqui eu fiz um pouco: olhei criança; eu trabalhei junto com ela no outro caixa; eu fiz doce; eu comecei a sair pra vender doce; de tudo um pouco”. (Isabela, beneficiária do PAGRM de Jundiaí, 02/03/2006).

“F: O que a gente vendia ia para a mão da Helena [técnica]. Agora

era com ela! Ela que tomava conta. Então, com o dinheiro, a gente fazia o artesanato, biscuit, essas coisas, aí a gente vendia... Vendia aqui mesmo, né? Ou, então, tinha a feira, que a gente fazia ou no teatro municipal ou lá no SESC. Só que o dinheiro era pra cá mesmo: para comprar material, porque é caro o material para biscuit, e pra complementar a merenda, porque a merenda que vem é assim, sabe? Merenda de escola... Aí a gente compra, e compra também pra fazer uma merenda especial num dia da semana.

S: Ah, e uma porcentagem... Vamos supor, eu fazia um guardanapo, dava o meu nome, né? Eu fazia, dava o meu nome e ela vendia, eu tinha uma porcentagem sobre aquele que foi vendido, que eu fiz. (Fernanda e Samanta, beneficiárias do PAGRM de Jundiaí, 02/03/2006).

A comparação do PAGRM com uma empresa, e não com uma cooperativa, se deve ao fato do modelo de funcionamento de uma empresa ser não apenas tomado como exemplo, mas também incorporado nas práticas e relações de trabalho que se estabelecem nas oficinas. Embora o principal elemento caracterizador das empresas capitalistas, qual seja, a obtenção de lucro pela exploração do trabalho assalariado, não esteja presente nas oficinas do PAGRM, verifica-se, no entanto, uma hierarquia de poder das técnicas em relação às beneficiárias e um demasiado caráter disciplinador, que tornam a experiência vivenciada pelas beneficiárias junto ao PAGRM similar a um estágio, no qual são treinadas, não para o compartilhamento do poder gerencial, mas para a obediência a uma rígida disciplina de trabalho:

“F: É bom também porque a gente aprende a ter mais responsabilidade.

S: Exatamente.

F: Não é? Cumprir com os seus horários. Porque a gente tem horário para entrar e horário para sair, então a gente tem que ter consciência de que a gente tem que estar aqui tal hora, tem que sair tal hora e ter responsabilidade também”. (Fernanda e Samanta, beneficiárias do PAGRM de Jundiaí, 02/03/2006).

É interessante observar quais são os métodos utilizados no PAGRM para educar as beneficiárias segundo a ética e disciplina do trabalho. A narração pelas beneficiárias de alguns eventos relacionados ao programa possibilitou identificar a existência de um sistema de premiação e punição, o qual parece ser exercido no programa com objetivo ao mesmo tempo educacional, disciplinador e motivador. Em uma das oficinas, segundo foi relatado, a premiação (normalmente o lucro, dinheiro obtido das vendas dos produtos, depois de descontados gastos eventualmente realizados com compra de material, etc.) é dada às beneficiárias que não somam nenhuma falta – injustificada ou não – no período de um mês. Assim conta uma das beneficiárias:

“Teve um tempo que ela [a técnica] começou a fazer assim: quem não tivesse nenhuma falta, nenhum atestado no mês, não tivesse falta, não tivesse atestado, o horário certinho, aí chegava no fim do mês, ela dava, pegava esse dinheiro e dividia pra aquela turma. Tipo, vamos supor, entrou esse mês de venda de doce R$ 200,00. Aí compramos o que faltou. Vamos supor que sobrou uns R$ 80,00 desse dinheiro, aí quatro pessoas do grupo não teve falta, veio certinho, esses R$ 80,00 vai ser dividido para as quatro pessoas do grupo. Quem nem faltou e nem trouxe atestado, é essa que recebia. Mas era um incentivo, que era assim: quando você recebia, aí a outra do lado falava assim: ‘ai, meu Deus, mês que vem eu não vou faltar, pra mim receber também!’ Eu acho que em uma parte era bom o que ela fazia, não é?” (Isabela, beneficiária do PAGRM de Jundiaí, 02/03/2006).

É possível perceber, pelo que conta a beneficiária, que o recurso a uma premiação como método de estímulo à freqüência das beneficiárias às oficinas revela um caráter excessivamente meritocrático na gestão do programa, pois apenas são premiadas aquelas que não tiveram nenhuma falta durante o período de um mês, sendo desconsideradas para participar da premiação as beneficiárias que tiveram faltas justificadas.

Diferentemente do que ocorre em Campinas, conforme será visto adiante, a obrigatoriedade da assiduidade parece ser, de fato, uma das prioridades do PAGRM de Jundiaí, visto que também a punição ocorre em decorrência da

ausência das beneficiárias às oficinas: em caso de falta injustificada ou atraso, é

descontado do benefício recebido mensalmente o valor equivalente a três vezes aquele que seria pago pelo período de trabalho que, no caso, não foi realizado (por exemplo: por cada hora de atraso ou dia de falta é descontada a fração do