Algo que já foi mencionado nesse trabalho deve ser enfatizado novamente, antes de tudo, não é uma tentativa por verdades absolutas, nem de apontar o certo e o errado, essas são questões relativas a depender da posição de cada um dentro desse arcabouço cultural. A subjetividade é inerente, a cultura não é objetiva, nem a pesquisa em evidência, mas em meio às complexidades busca-se proporcionar pensar como as suas implicações nos afetam e nos direcionam para experiências que influenciam nossas concepções e valores. Portanto, o mais importante nesse debate são as reflexões que dele podem ser retirados, os questionamentos de como as culturas e seus usos vem sendo assimiladas historicamente e como isso afeta as convicções num contínuo processo de inclusão e exclusão, separação e classificação.
Contemporaneamente as duas categorizações, cultura especializada e antropológica são vistas como opostas, mas é na tentativa de estabelecer relações entre elas e como isto pode acontecer que este trabalho também está apoiado, e por isso expressa que o percurso a qual a cultura vem percorrendo durante séculos, ou até mesmo desde que o mundo é mundo, se estabelece em forma de dominações, com a constituição de campos culturais onde forças disputam as formas de referir à cultura. As políticas culturais fazem parte desse campo, embora imbuídas de caráter de direito, são antes de mais nada resquícios que evidenciam a separação da cultura conforme as prioridades e interesses daqueles que estão dentro dessa seara.
Na cidade de São Miguel do Gostoso percebe-se a existência desse efeito de campo na cultura. Sendo enredado no município, parâmetros de promoção de acessos as políticas culturais, mas, ao mesmo tempo, reiteradamente, para públicos restritos. As dificuldades observadas na promoção de políticas públicas culturais pelos agentes públicos combinada com a ascensão turística, fez despertar, olhares de interesse para este em um setor. Novos atores e agentes surgiram com essa perspectiva, lançados, sobretudo, com a força que o turismo exerce na cidade. Deste modo, pôde se observar o surgimento de eventos culturais que veio ou vêm movimentando o município durante o ano, a exemplo do Réveillon Gostoso, Fest Bossa e Jazz, Mostra de Cinema de Gostoso, entre outros.
Essas manifestações têm perfis bem diferentes, entretanto, reforçam os interesses turísticos, onde muitos desses investimentos em eventos culturais são oriundos dos recursos destinados às políticas de turismo e não de cultura e mesmo havendo relações íntimas entre as
semânticas os objetivos podem ser radicalmente distintos quantos aos modos de desenvolvimento econômico e cultural.
Partindo do princípio de que políticas culturais para o desenvolvimento devem ser de acesso ampliado para toda a população, turistas e nativos possam participar, e evidentemente, ter oportunidades de se desenvolver econômica e culturalmente, com essas duas bases unidas. No entanto, observou-se que algumas políticas ou eventos culturais executados em SMG têm focado em públicos de fora. Evidenciando a ideia de que muitos eventos culturais são desenvolvidos sem a perspectiva cotidiana dos nativos, dos de dentro. Ainda atrelado à ideia de políticas culturais, que tipo de acessos foi sendo proporcionados com a introdução desses eventos? Muito poucos, ou quase nenhum, pois eles acontecem, mas quem participa? Quem se desenvolve? Qual desenvolvimento? Exceção parece ser a Mostra de Cinema de Gostoso que, mesmo tendo seus distanciamentos devido à arte cinematográfica, consegue ampliar esses acessos, para mais pessoas de diferentes públicos.
Isto se deve porque a Mostra de Cinema é um exemplo de como a união entre práticas e produção cultural pode ser possível nas políticas culturais. E por mais que existam diferentes atores e interesses provocando um campo de tensões, o cinema apesar de ser ainda uma arte distante para muitas pessoas, teve um papel de aproximação, estimulando a participação local dos jovens, sendo responsável por alargar o espaço de construção social participativo, atrativo para muitos.
Pois, se uma parte das pessoas não se reconhece mais ali – na cidade delas, onde os eventos são realizados –, aquilo não sendo reflexos de suas identidades, seus costumes, suas formas de conexão com as esferas econômicas, sociais ou culturais, aquilo não é delas, e se não é, por que ir? As pessoas querem um lugar familiar, mesmo no estranho, como um velho travestido de novo. A Mostra então tornou-se uma possibilidade de enxergar na tela uma projeção de si próprios e das narrativas que cercam seus horizontes e trazem ao evento esse diferencial.
As visões dos atores e agentes representam vários objetivos, mas não impedem de atraí-los de forma simultânea. Longe da ingenuidade de ter o evento como algo exclusivamente “da terra”, é perceptível contornos que ora afastam os argumentos de integração local, como vistos na mostra panorama, debates e seminários tendo pouca frequência de moradores. Porém, na Praia do Maceió, na mostra competitiva e do coletivo a participação local, junto ao Nos do audiovisual, tem com a produção de curtas gostosenses instrumentos que revelam a abertura de um espaço onde suas falas e imagens são valorizadas.
Ao remeter aquela manifestação aos símbolos de reconhecimento daquelas pessoas, dos seus contos, dos cenários produz-se um do encontro naquele ambiente entre os de fora e os de dentro.
Entretanto, o campo cultural formado e a Mostra nesse contexto trazem percepções semelhantes, mas também trilham categorias de embates com ênfases divergentes, conforme os modos de desenvolvimento, valorização e de pensar sua atuação na atração de públicos de fora e de dentro. Portanto, a mobilização dos atores e agentes nesse campo pode ser caracterizada pelas suas abordagens na inclusão desses públicos. Com isso, surge algumas reflexões sobre os que trabalham para que esse ambiente seja para os de fora – turistas – e para os de dentro – moradores.
Desta forma compreende-se que o CDHEC e o Nós do Audiovisual são importantes agentes para a inclusão dos moradores. É válido acrescentar que, essas duas entidades embora tenham proximidades, principalmente, pela influência do CDHEC no projeto de formação do grupo de audiovisual e por se tratar de coletivos compostos, sobretudo, por moradores locais, são instituições distintas que permeiam esse meio cultural com metas diferentes a serem alcançadas. No entanto, tem em comum a responsabilidade de envolver a população local nesse evento. Os outros, mesmo com narrativas de incentivo aos moradores, têm forte apelo aos turistas. E a formação de público junto às pessoas ligadas mais tecnicamente ao cinema nacional, como no caso da Heco Produções.
Nesse sentido, o campo de embates pode ser evidenciado quando os agentes e atores mesmo a favor do evento tentam incluir objetivos e públicos diferentes, seja para os de fora ou para os de dentro. Essa concepção envolve uma ótica interessante, em que o processo de exclusão não se assume por simplesmente afastar, mas também por incluir de formas diferentes. Portanto, quanto à alusão da exclusão, relatada ao longo do trabalho, pode se dizer que estará caracterizada também pelas formas de inclusão diferenciadas em que se exclui para se incluir de outros modos.
Ao acenar ao aspecto de inclusão da política cultural da Mostra, outra questão deve ser mencionada, a de luta para que essas políticas públicas sejam ampliadas como processo de cidadania. De entender que esses aspectos que envolvem a cultura são relevantes como direitos que devem ser contemplados e a inclusão de atores como os moradores reforça o movimento que desperte a necessidade de enxergar as políticas públicas culturais como instrumento de cidadania e aumentar a sua participação. Por isso, ao reportar a habilidade de inclusão das políticas culturais, toca-se sempre em sua capacidade de agir como dispositivo de
exercício da cidadania.
O evento cultural da Mostra de Cinema de Gostoso traz a aproximação com os aspectos familiares, mesmo eles estando em meio ao estranho, pois eles sabem que lá também vão achar o conhecido e o comum. Mas também há ressalvas, ainda existem modos de exclusão, seja pela falta de identificação com essa manifestação e com as linguagens que são transmitidas, pela resistência em abraçar algo que ainda parece distante, por informações distorcidas ou por falta delas, além das limitações onde se inserem as classificações indicativas e os horários que se passam os filmes. Barreiras que estão presentes e compõem as implicações desse evento na cidade.
Todavia, o cinema em Gostoso parece conseguir atingir a natureza antropológica, talvez esse formato seja um caminho para torná-lo mais organizado como sugere Botelho (2001) ao tocar o lado das práticas culturais, constituindo aspectos de inclusão, fator fundamental. Desta forma, a união entre práticas e produção cultural pode ser claramente visto na política cultural, como elemento de desenvolvimento no plural. Nesse sentido, não se pode escapar da crítica de como o país vem ignorando esse potencial do investimento em políticas culturais. Financiando a cultura pela mão do mercado, que às vezes acerta, mais quase sempre erra por escolhas restritas, concentradas e cheias de interesses que não são os que estão descritos no artigo 215 da Constituição Federal.
Outra coisa a qual o trabalho deve retornar. Não há unanimidade quanto a execução dos filmes da Mostra de Cinema de Gostoso, aliás, nunca haverá. A Mostra acontece cinco dias do ano mostrando diferentes linguagens, mas não é possível ganhar a unanimidade que a TV tem, presente todos os dias, com clichês, que insistem em dizer que nossos problemas, e suas soluções, estão do outro lado da América. Este é um processo paulatino de inserção dos contextos de realidades de “Joãos”, não de “Jonhs”. E se hoje pudéssemos tirar uma medida exata, o lado de inclusão do evento, com certeza penderia para mais.
Deve-se ressaltar que a essência da Mostra está na sua capacidade de incluir a população local como participante, seja pela formação em audiovisual de jovens, na produção de curtas locais, seja pela introdução desses nas narrativas cotidianas. Espera-se que se compreenda a importância deste formato, e que ele não seja retirado, ou enfraquecido, que seja mantido a formação dos jovens junto aos coletivos de cultura como o Nós do Audiovisual.
Há de ter um equilíbrio, ou o lado social falar mais alto, caso contrário será mais uma das tantas outras políticas culturais que se apropriam de falas de melhorias, de cultura e
desenvolvimento, mas que no fundo – nem tão fundo assim – traduzem lógicas de interesses constituídas por forças que operam a exclusão, restringindo-se a de determinados atores e agentes, e nesse caso operando a reprodução da dominação.