4 O PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA E A TEORIA DA CONFIANÇA
5 A BOA-FÉ OBJETIVA COMO POSTULADO E VETOR DE MITIGAÇÃO DA LEGALIDADE ESTRITA: EFICIÊNCIA OTIMIZADA
5.4 JURIDICIDADE ADMINISTRATIVA E BOA-FÉ OBJETIVA
Como já registramos no corpo desta pesquisa, o Direito é extremamente dinâmico, assim como a vida, em constante evolução.
Os diplomas legislativos não são capazes de acompanhar a mudança dos fatos sociais, dos valores, daí porque não restringir o Direito à legislação, à legalidade estrita.
Assim, o Direito é oxigenado por princípios e pela interpretação das normas jurídicas.
Neste ponto vale destacar as lições de Eros Grau:
O direito é um organismo vivo, peculiar, porém, porque não envelhece, nem permanece jovem, pois é contemporâneo à realidade. O direito é um dinamismo.
Essa a sua força, o seu fascínio, a sua beleza.
É do presente, na vida real, que se tomam as forças que lhe conferem a vida. E a realidade social é o presente; o presente é a vida – e vida é movimento. Assim, o significado válido dos textos é variável no tempo e no espaço, histórica e culturalmente. A interpretação do direito não é mera dedução dele, mas sim processo de contínua adaptação de seus textos normativos à realidade e seus conflitos.431
Nesse processo hermenêutico, que se faz tão presente e importante nos nossos dias, a juridicidade, como uma leitura da legalidade em conformidade com o ordenamento jurídico como um todo, ganha cada vez mais força. E não poderia ser diferente na seara do Direito Administrativo.
O abandono da legalidade estrita e um projetar da atenção do administrador público ao Direito de forma global são necessários para que se alcance não somente a eficácia na atuação administrativa, mas também a eficiência no que toca ao atual Estado Constitucional Democrático de Direito.
A importância da juridicidade no que toca à mitigação da legalidade estrita pode ser exemplificada em um caso simples, decidido administrativamente no
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GRAU, Eros Roberto. Ensaio e discurso sobre a interpretação/aplicação do direito. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2006. p. 49.
âmbito do Comando da Aeronáutica (COMAER), ambiente marcado pelos valores de hierarquia e disciplina que acabam por reforçar o apego exacerbado à legalidade formal.
A princípio, o militar só pode e só deve fazer aquilo que está previsto, notadamente nos regulamentos internos da Instituição, legitimados em face do poder regulamentar da Administração Pública.
Em razão das peculiaridades da profissão militar e das frequentes transferências e movimentações de pessoal pelo território brasileiro, existe, dentro do possível, apoio aos militares movimentados e seus familiares por meio de Vilas Residenciais Militares, onde os mesmos passam a residir temporariamente, a título de permissão de uso de bens imóveis da União – os chamados Próprios Nacionais Residenciais.
No âmbito regulamentar do Comando da Aeronáutica existe a previsão de que um militar, ao ser transferido para outra localidade do território nacional, deve desocupar o imóvel no local de origem em um determinado prazo. Não há a previsão legal para a ocupação em situação extraordinária, ou seja, não prevista em regulamento específico.
Ocorre que, em determinada Organização do COMAER, um militar foi transferido para outra Organização (em outro estado da Federação) para realização de um curso de um ano de duração, ao fim do qual seria movimentado para outra localidade, não necessariamente a originária.
Por questões familiares (emprego da esposa na localidade original e uma filha em processo de graduação em uma instituição de ensino superior), o referido militar solicitou à autoridade administrativa competente uma autorização para ocupação precária (do mesmo imóvel que já vinha ocupando regularmente), pelo período de um ano, haja vista a permanência da família na localidade originária.
A autoridade administrativa, com amparo na legalidade estrita, ou melhor, na ausência de amparo legal para o caso concreto em pauta, teve o ímpeto inicial de indeferir o pedido. Entretanto, sendo assessorado com base no princípio da economicidade e razoabilidade, acabou por decidir favoravelmente ao solicitante.
Alguns aspectos foram sopesados, em especial a ausência de interessados em ocupar o imóvel, ao menos durante aquele período de um ano, e a despesa do COMAER com a manutenção de um imóvel fechado (incluindo a taxa mensal de condomínio, que seria paga pelo permissionário e que caberia à Instituição
no caso de imóvel vago, e a deterioração natural de um imóvel sem uso, mesmo que temporário).
À vista de tais fatores, restaria antieconômica e desarrazoada uma postura legalista (diante da ausência de previsão regulamentar específica) da Administração que indeferisse o pleito do militar.
A juridicidade foi a viga mestra da decisão administrativa que, suplantando o tradicionalismo da legalidade cerrada ou estrita, acabou por contribuir para uma decisão legítima e consentânea com o ordenamento jurídico como um todo. Não é incomum encontrarmos decisões judiciais subsidiadas pelo princípio da juridicidade e que, por vezes, vão de encontro a decisões administrativas tomadas com foco estrito na legalidade estrita. Entendemos que o crescimento da aplicação da juridicidade administrativa na esfera do processo administrativo significa economia de energia e de tempo, tanto ao Estado, quanto ao administrado atingido por uma decisão formalmente legal, mas que não atenda aos princípios basilares do nosso Estado Constitucional Democrático de Direito.
No que diz respeito à boa-fé objetiva, já estudada no bojo deste trabalho, por se tratar de valor principiológico432 e pertencer ao mundo do Direito, conforme a contemporânea visão de Robert Alexy, sua estreita relação com a juridicidade é inequívoca.
A atuação da Administração em conformidade com a lealdade e em respeito à confiança legítima do administrado é uma das formas de concretização da juridicidade. Outras formas estariam relacionadas com outros importantes e cruciais princípios, tais como o da razoabilidade, da moralidade, da proporcionalidade, dentre outros.
Diante de tamanha importância, cabe, a partir de agora, demonstrarmos as principais formas de atuação do vetor boa-fé objetiva no processo de mitigação ou transformação da legalidade estrita e como tal processo pode conduzir ao aumento da eficiência administrativa.
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Entendemos que a boa-fé objetiva se traduz em um verdadeiro postulado normativo aplicativo, o que será visto mais adiante neste capítulo.
5.5 A BOA-FÉ OBJETIVA E SUA ATUAÇÃO FRENTE ÀS LACUNAS DA LEI