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4. JUSTIÇA SOCIAL E AMBIENTAL

4.2. Justiça Ambiental

O conceito de justiça ambiental tem sua origem em meio aos movimentos sociais, que lutavam pelos direitos civis das comunidades afrodescendentes, especialmente, a partir da década de 1960, nos Estados Unidos. Pessoas de baixo poder aquisitivo e grupos discriminados sofriam maior exposição a problemas ambientais, quando, por exemplo, depósitos de resíduos químicos e radioativos e de indústrias altamente poluentes estavam muito próximos das áreas habitadas por essas populações mais vulneráveis (ACSELRAD; HERCULANO; PÁDUA, 2004).

Por justiça ambiental, “entende-se o conjunto de princípios que asseguram que nenhum grupo de pessoas, sejam grupos étnicos, raciais ou de classe, suporte uma parcela desproporcional de degradação do espaço coletivo” (ACSELRAD; HERCULANO; PÁDUA, 2004, p. 9). Complementarmente, por injustiça ambiental, entende-se:

a condição de existência coletiva própria às sociedades desiguais onde operam mecanismos sociopolíticos que destinam a maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento a grupos sociais de trabalhadores,

populações de baixa renda, segmentos raciais discriminados, parcelas marginalizadas e mais vulneráveis da cidadania (ACSELRAD; HERCULANO; PÁDUA, 2004, p. 9 - 10).

No Brasil, a noção de justiça ambiental está se alargando para abarcar mais temas do que apenas a contaminação química e a característica racial da discriminação. Contempla também a posse do território e das riquezas naturais pelas classes mais ricas (mais beneficiadas pelo uso do meio ambiente) e na concentração da poluição no entorno das residências e no ambiente de trabalho da população de baixa renda (ACSELRAD; HERCULANO; PÁDUA, 2004).

O relatório da agência de proteção ambiental dos Estados Unidos, publicado em 1992, “Equidade ambiental: reduzindo riscos para todas as comunidades”, traz uma discussão sobre equidade ambiental, mostrando sua divisão em três grandes categorias (BULLARD, 2004):

Equidade de procedimentos: refere-se à questão da justiça, à noção de que regras governamentais, regulamentações, critérios de avaliação e cumprimento das leis são aplicados uniformemente em todas as regiões e de modo não discriminatório.

Equidade geográfica: refere-se à localização e configuração espacial das comunidades e sua proximidade com fontes de riscos ambientais, instalações perigosas e usos do solo localmente indesejados, tais como: aterros sanitários, incineradores, estações de tratamento de esgotos, fundições de chumbo, refinarias, entre outras.

Equidade social: serve como critério para avaliar o papel de fatores sociológicos nas decisões ambientais, a exemplo da raça, etnicidade, classe, cultura, estilos de vida, poder político, entre outros.

Assim, com base na reflexão sobre a equidade ambiental, a estrutura da justiça ambiental busca desenvolver ferramentas, estratégias e políticas públicas para eliminar condições e decisões injustas, com o objetivo de evitar que: proteções desiguais possam resultar em decisões injustas e não democráticas; excluídos, pobres e comunidades de cor, sofram uma vulnerabilidade no assentamento de instalações nocivas; e prevaleça o trabalho de pessoas pobres em empregos mais perigosos. Dessa maneira, procura desvelar os pressupostos subjacentes que podem contribuir para produzir exposições diferenciadas e proteção desigual, além

de trazer à superfície as questões éticas e políticas sobre quem possui o quê, quando, como e quanto (BULLARD, 2004).

“A desigualdade ambiental pode manifestar-se tanto sob a forma de proteção ambiental desigual como de acesso desigual aos recursos ambientais” (ASCERALD; MELLO; BEZERRA, 2009, p. 73). Nesse sentido, se faz necessário perceber como ela vem se manifestado na sociedade e nos territórios.

As políticas ambientais podem, a depender das forças que atuam na fase de sua implementação ou na omissão de sua concepção – a exemplo das forças de mercado - desencadear a geração de riscos ambientais desproporcionais aos grupos com menor acesso aos recursos financeiros e políticos disponíveis na sociedade. Tal realidade é resultado de processos econômicos, sociais e políticos que distribuem de formas desiguais à proteção ambiental, mais do que de questões ligadas a uma determinação geográfica ou casualidade histórica. Assim, é possível perceber uma relação entre os processos não democráticos, que se pautam na elaboração e aplicação de políticas sob a forma de normas discriminatórias, prioridades não discutidas e vieses tecnocráticos, e a produção de consequências desproporcionais sobre os diferentes grupos sociais (ASCERALD; MELLO; BEZERRA, 2009).

O acesso desigual pode ser percebido tanto na esfera da produção como na esfera do consumo. Na produção “manifesta-se no processo de contínua destruição de formas não capitalistas de apropriação da natureza, tais como o extrativismo, a pesca artesanal, a pequena produção agrícola ou o uso de recursos comuns” (op cit., p. 74). Esses grupos são atingidos pelos impactos ambientais dos projetos das áreas de expansão do capitalismo e seu modo de produzir mercadorias (ASCERALD; MELLO; BEZERRA, 2009).

A introdução, em tais áreas, de monoculturas e pastagens, projetos viários, barragens, atividades mineradoras, etc., provocam grandes efeitos de desestabilização das atividades nas terras tradicionalmente ocupadas. Trata-se, portanto, dos casos em que, em certas combinações de atividades, o meio ambiente transmite impactos indesejáveis (as ditas externalidades) que podem fazer com que o desenvolvimento de uma atividade comprometa a possibilidade de outras atividades se manterem. Nesses casos, espaços produtivos privados transmitem os efeitos nocivos de suas práticas para o meio ambiente comum. De um modo geral, tais tipos de empresas que recorrem a práticas ambientalmente danosas são integrados aos grandes circuitos de mercado, usufruindo de relações privilegiadas com o Poder Público, contando muitas vezes com todo um repertório de estímulo para a sua instalação e manutenção no território, ao contrário das populações tradicionais pouco inseridas em relações mercantis, das quais a destruição de sua base de recursos costuma ficar

invisível para as autoridades estatais. Deve-se considerar como agravante, na perspectiva de justiça social, que as primeiras costumam gerar pouquíssimos empregos em relação ao seu consumo de recursos naturais e/ou degradação do meio ambiente comum, enquanto as práticas socioeconômicas não capitalistas ameaçadas são, de um modo geral, responsáveis pela subsistência direta de contingentes expressivos de pessoas (ASCERALD, MELLO, BEZERRA, 2009, p. 74-75).

No que diz respeito à esfera do consumo, “o acesso desigual ao meio ambiente vai expressar-se na extrema concentração de bens em poucas mãos” (op cit., p. 75). De forma que, se percebe, em escala mundial, de um lado um segmento social pequeno com altos padrões de consumo – com uma apropriação ultra intensiva e pouco previdente de recursos naturais – e, de outro, um grande contingente populacional que “permanece abaixo dos patamares de consumo necessários para a sua simples sobrevivência física” (ibidem). Essa realidade é refletida na escala das cidades, na qualidade ambiental e no acesso a serviços de formas desiguais para os diferentes grupos e níveis de renda.

Destarte, a constatação da desigualdade ambiental conduz ao reconhecimento de que, de fato, o que está em questão “não é simplesmente a sustentabilidade dos recursos e do meio ambiente, ou as escolhas técnicas deslocadas da dinâmica da sociedade, mas sim as formas sociais de apropriação, uso e mau uso desses recursos e desse ambiente (op cit., p. 76)”.

É nesse sentido que os mecanismos de produção de desigualdade ambiental se assemelham muito aos mecanismos de produção da desigualdade social. Ao contrário do discurso da escassez, que pressupõe uma distribuição homogênea das partes do meio ambiente, o discurso dos movimentos por justiça ambiental evidencia o caráter fortemente desigual da apropriação das partes do meio ambiente e dos recursos naturais […] A desigualdade social e de poder está na raiz da degradação ambiental […] Donde, a proteção do meio ambiente depende do combate à desigualdade ambiental. Não se pode enfrentar a crise ambiental sem promover a justiça social (op. cit., p. 76-77).

Assim, o esquema analítico da justiça ambiental, com vistas a mapear e evidenciar as desigualdades, tem como características gerais (BULLARD, 2004),:

 Adotar um modelo para a saúde pública de promoção/prevenção como estratégia preferencial.

 Transferir o ônus da prova para os poluidores que causam os danos, que discriminam e que não dão proteção igual para as pessoas de cor, de baixo rendimento e outras “classes” menos protegidas.

 Admitir a prova da discriminação a partir de dados estatísticos e impactos diferenciados ou de testes de “efeito”, em lugar de requerer a existência de intenção.

 Requer avaliar os impactos desproporcionais por meio de ações e recursos definidos, avaliados num esquema de ranking, mas não limitados à avaliação quantitativa de riscos.

O paradigma da justiça ambiental adota uma abordagem inter e transdisciplinar que acentua as estratégias de revisão dos padrões de consumo, o que inclui um repensar sobre os estilos e modos de vida, a não geração e minimização de resíduos, a conservação do patrimônio ambiental, assegurando o desenvolvimento socioambiental pautado pela ética, igualdade, democracia e liberdade e a implementação de projetos voltados para as realidades socioculturais, institucionais e do ambiente físico-natural local, descentralizados e de abrangência comunitária. Debruça-se no desafio de formular políticas públicas e regulamentações em saúde e vigilância ambiental, desenvolver estratégias de redução de riscos múltiplos, cumulativos e sinérgicos, garantindo a saúde pública e a conservação ambiental, promovendo a participação social nas decisões e o empoderamento das comunidades, construindo infraestrutura e prestando serviços públicos que possibilitem alcançar a justiça ambiental e a qualidade de vida das comunidades. Nesse processo, valoriza a cooperação e coordenação intersetorial, a superação da disciplinaridade, o desenvolvimento de estratégias inovadoras de parcerias e colaboração entre os diversos segmentos da sociedade (BULLARD, 2004).

Nessas estratégias de ação, ressaltadas e valorizadas pelos pensadores da justiça ambiental, se extrai a base analítica para caracterizar os aspectos e ações capazes de indicar a promoção de justiça ambiental por meio das atividades de saneamento básico. São esses diferentes elementos e estratégias e sua possível manifestação em exemplos concretos da realidade que permitem um olhar inicial sobre as atividades de saneamento básico, sua relevância na rede de produção da (in) justiça e como o processo de planejamento em saneamento básico tem colaborado na definição da justiça ou da injustiça.

Desse modo, se faz necessário refletir, como seria um planejamento em saneamento básico, que apresentasse estratégias de enfrentamento das desigualdades ambientais via atividades cotidianas de saneamento básico sobre os territórios, possibilitando, assim, a indução da promoção de justiça ambiental. É nesse entendimento que se referencia a matriz analítica do presente trabalho.