Também na esfera tributária, como não poderia deixar de ser, revela-se a escolha de um modelo de justiça distributiva, equânime e solidária, consentâneo com os objetivos e fundamentos da República Federativa do Brasil.
282 Para FRANCESCO MOSCHETTI, são elementos constitutivos do dever de solidariedade constitucional, positivado no art. 2º da Constituição Italiana: a) o sacrifício de um interesse individual;
b) a ausência -ou acidentalidade - de uma contraprestação direta; c) finalidade compatível com o interesse coletivo (MOSCHETTI, Francesco. El principio de capacidad contributiva. Trad. Juan M.
Calero Gallego y Rafael Navas Vazques. Madrid: Instituto de Estudios Fiscales, 1980, p. 117).
283O dever..., op. cit., p. 31.
Falamos em justiça fiscal para nos referirmos a um sistema normativo equilibrado, que proteja o cidadão contribuinte contra abusos e arbitrariedades cometidas não só pelo Fisco, mas também pelos demais contribuintes. Nas palavras de TIPKE e YAMASHITA, “A justiça fiscal é o valor supremo do Estado de Direito dependente de impostos e, ao mesmo tempo, o valor supremo da comunidade dos contribuintes.” 284
A positivação da justiça fiscal na Constituição de 1988 opera-se, sobretudo, pela inclusão no Texto Supremo das limitações constitucionais ao poder de tributar, como aquelas que estabelecem os princípios constitucionais tributários e as imunidades tributárias, estudados no capítulo anterior como garantias do contribuinte contra abusos estatais.
A outra face da justiça fiscal envolve a necessidade inarredável de adimplemento tributário por aqueles que possuam capacidade para tanto. A capacidade contributiva, em verdade, é o princípio ordenador do sistema tributário, e como tal, fundamenta o dever dos mais ricos colaborarem para o progresso das camadas menos favorecidas da sociedade.
Ao dissertar sobre a capacidade contributiva, positivada no art. 53 da Constituição Italiana285, MOSCHETTI explica que seu conteúdo material decorre da norma constante do art. 2º da mesma Lex Mater286, cuja redação entendemos importante transcrever:
A República reconhece e garante os direitos invioláveis do homem, quer como ser individual, quer nas formações sociais onde se desenvolve a sua personalidade, e requer o cumprimento dos deveres inderrogáveis de solidariedade política, econômica e social.287
O raciocínio, a nosso entender, aplica-se também ao ordenamento jurídico brasileiro, tendo em vista a opção do Constituinte originário de incluir a construção de
284 Justiça fiscal..., op. cit., p. 18.
285 “Art. 53. Tutti sono tenuti a concorrere alle spese pubbliche in ragione della loro capacità contributiva.
Il sistema tributario è informato a criteri di progressività.”
286 El principio..., op. cit., p. 109.
287 No original: “Art. 2º. La Repubblica riconosce e garantisce i diritti inviolabili dell'uomo, sia come singolo sia nelle formazioni sociali ove si svolge la sua personalità, e richiede l'adempimento dei doveri inderogabili di solidarietà politica, economica e sociale.”
uma sociedade livre, justa e solidária como um dos princípios fundamentais republicanos.
O dever de pagar tributos, assim como todo e qualquer dever fundamental constitucional, deve ser encarado como “...expressão imediata ou directa de valores e interesses comunitários diferentes e contrapostos aos valores e interesses individuais consubstanciados na figura dos direitos fundamentais.”288 Isso não impede, por mais paradoxal que pareça, que integre a grande matéria dos direitos fundamentais, haja vista que, representando eles a atuação dos titulares dos direitos fundamentais com vistas à consecução do bem comum, apresentam-se, de certa forma, como “...um conceito correlativo, contraste, delimitador do conceito de direitos fundamentais.”289
A positivação dos deveres fundamentais, demais disso, confere maior segurança e estabilidade à vida das pessoas, na medida em que as protege contra eventuais alegações estatais de uma possível “...cláusula geral de deverosidade social”290. É dizer, como o próprio ordenamento jurídico prevê de que forma as pessoas devem exercer sua solidariedade, não é dado aos governantes exigir algo além daquilo que prevê a lei.
O que não se admite de forma alguma é a existência de um direito fundamental de não pagar impostos, “...como o radicalismo das reivindicações de algumas organizações de contribuintes ou a postura teórica de alguns jusfiscalistas mais inebriados pelo liberalismo econômico... parecem dar a entender.”291 Assim, mesmo nos casos em que os serviços indispensáveis ao bom funcionamento de um Estado Social não sejam prestados a contento, não remanesce ao detentor de capacidade contributiva a oportunidade de não pagar seus tributos como manda a lei, cabendo-lhe, isso sim, exigir a correta atuação estatal pelas vias estabelecidas no ordenamento.
Como os serviços públicos não podem deixar de ser prestados, a tendência é que nos casos de inadimplência daqueles que deveriam pagar seus impostos o Estado venha a estreitar ainda mais os laços sobre os demais contribuintes –
288 NABAIS, José Casalta. O dever..., op. cit., p. 37-38.
289 Ibidem, p. 38.
290 NABAIS, Casalta. O dever..., op. cit., p. 38.
291 Ibidem, p. 186.
adimplentes -, causando violações às limitações constitucionais ao poder de tributar e, consequentemente, desequilíbrio no sistema.
Assim, para que exista justiça fiscal, na faceta em que se insere o dever fundamental de pagar tributos, faz-se indispensável que a Administração Pública seja dotada de instrumentos eficientes de fiscalização e arrecadação, nos casos em que o dever não seja cumprido espontaneamente. Não à toa, SALDANHA SANCHES ensina que “...as garantias dos contribuintes devem coexistir com poderes administrativos que tornem possível um efectivo controlo fiscal, condição de justiça na aplicação das leis fiscais.”292
O cumprimento forçado da obrigação fiscal demanda da Administração Fazendária atuação efetiva em dois momentos distintos, quais sejam, o do acertamento da relação jurídica e o da cobrança do tributo já inscrito em dívida ativa.
Pode ocorrer, no entanto, de o dever fundamental de pagar tributos não ser cumprido mesmo depois de devidamente certificado pela Administração, quando então serão necessários mecanismos legais eficazes de cobrança do passivo tributário já acertado. Ganha relevância, aqui, o tema dos meios alternativos de cobrança de tributos.
Cobrar tributos com eficiência e respeito aos direitos do contribuinte é um desafio que se põe ao legislador e sobre o qual pretendemos nos debruçar.
292Justiça Fiscal. Lisboa: Fundação Francisco Manoel dos Santos, 2010, p. 46-47.
4 OS MÉTODOS CONVENCIONAIS DE COBRANÇA DA DÍVIDA ATIVA