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2.2 JUSTIÇA RESTAURATIVA

2.2.1 Justiça Restaurativa e Justiça Retributiva

Para maior clareza da temática proposta fez-se necessário diferencias as diversas formas de Justiça. Uma delas é a Justiça Retributiva (ou comutativa), que segue a máxima “punitur quia peccatum”, impondo a pena “proporcional” ao mal praticado, que se adapta à característica do capitalismo, à lógica do mercado. Neste modo o infrator será punido na proporção do que fez, a vítima sente que ao se fazer justiça acaba por se beneficiar, e a comunidade entende que intimidar é a melhor forma de controlar a conduta do infrator (SCURO, N., 2005).

Já a Justiça DIstributiva (ou justiça pelo mérito) não é atribuída a todos igualmente, mas segundo a situação jurídica e social da conduta do infrator, a quem são destinados serviços para recuperá-lo e reintegrá-lo à sociedade (SCURO. N. 2005).

E, por fim, a Justiça Restaurativa (ou justiça do reconhecimento), a qual será tratada mais especificamente por esta pesquisa, visa a correspondência entre a

sentença judicial e o sentimento de justiça dos atores afetados pela infração.O infrator assume o compromisso de ver que aquilo que fez teve consequências e causou prejuízo, e que ele é responsável e capaz de refletir sobre o feito. E a vítima tem a oportunidade de elaborar psiquicamente o acontecimento ao passo que o infrator repare o dano que causou, e a comunidade contribui para que as partes cumpram com o compromisso (SCURO, N., 2005).

Ampliando a compreensão sobre a concepção de Justiça Restaurativa e de Justiça Retributiva, apresenta-se a seguinte tabela:

Tabela 1: Concepção de Justiça Retributiva e Justiça Restaurativa.

(continua)

Justiça Retributiva Justiça Restaurativa

Infração: noção abstrata, violação da lei, ato contra o Estado.

Infração: ato contra pessoas, grupos e comunidades.

Controle: Justiça penal Controle: Justiça, atores, comunidade. Infração: ato e responsabilidade

exclusivamente individuais.

Infração: ato e responsabilidade com dimensões individuais e sociais.

Pena eficaz: a ameaça de castigo altera condutas e coíbe a criminalidade.

Castigo somente não muda condutas além de prejudicar a harmonia social e a qualidade dos relacionamentos.

Vítima: elemento periférico no processo legal.

Vítima: vital para o encaminhamento do processo judicial e a solução de conflitos.

Tabela 1: Concepção de Justiça Retributiva e Justiça Restaurativa.

(continuação)

Fonte: Scuro Neto, 2005, p. 201.

Conforme Scuro Neto (2005) para que um sistema seja qualificado como restaurativo é necessário que os autores diretamente ligados, envolvidos na situação sejam convidados a participar. Os valores da justiça restaurativa preconizam primeiramente a “inclusão” das pessoas envolvidas, por meio de convite, aceitando os pontos de vista diversos, no intuito de promover o “encontro” (reunião, narrativa, expressão da emoção, compreensão, acordo); a “reparação” (desculpas, mudança de comportamento, restituição, generosidade), e finalmente um processo de “reintegração” (respeito, apoio material, moral e espiritual) (p. 198).

O conceito de Justiça restaurativa é um conceito ainda inconcluso, por ser uma corrente relativamente recente. Conforme a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), dentre as definições mais recorrentes e consensualmente aceitas estão a de Marshall, 1997, que aponta a Justiça restaurativa como "um processo através do qual as partes envolvidas num crime decidem em conjunto como lidar com os efeitos deste e com as suas consequências futuras." E a do Projeto de Infrator: definido em termos de suas

deficiências.

Infrator: definido por sua capacidade de reparar danos.

Preocupação principal: estabelecer culpa por eventos passados (Você fez ou não fez?)

Preocupação principal: resolver o conflito enfatizando deveres e obrigações futuras. (Que precisa ser feito agora?)

Ênfase: relações formais, adversativas, adjudicatórias e dispositivas.

Ênfase: diálogo e negociação.

Impor sofrimento para punir e coibir. Restituir para compensar as partes e reconciliar.

Comunidade: marginalizada representada pelo Estado.

Comunidade: viabiliza o processo restaurativo.

Declaração da ONU relativa aos Princípios Fundamentais da Utilização de Programas de Justiça Restaurativa em Matéria Criminal, que diz que a Justiça restaurativa "é um processo no qual a vítima, o infrator e/ou outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime participam ativamente e em conjunto na resolução das questões resultantes daquele, com a ajuda de um terceiro imparcial” (APAV, 2012).

A partir da resolução 2002/12 da ONU – Princípios Básicos Para Utilização de Programas de Justiça Restaurativa em Matéria Criminal, e do conselho Econômico e Social foram estabelecidos os seguintes critérios e princípios para a utilização da Justiça Restaurativa.

Tabela 2: Critérios e princípios da Justiça restaurativa de acordo com CEAG, 2012, p. 6.

(continua)

Maleabilidade. Podem ser usados em qualquer sistema de justiça criminal;

Reserva legal. Só podem ser usados quando houver prova da autoria suficiente

para denunciar o ofensor;

Consonância. A vítima e o ofensor devem normalmente concordar com os fatos;

Confidencialidade. A participação do ofensor não deve ser usada como prova de

admissão de culpa em processo judicial ulterior;

Voluntariedade da participação. Exige o consentimento livre e voluntário da

vítima e do ofensor em participar;

Retratabilidade da participação. O consentimento dado à participação pode ser

revogado, por qualquer das partes, a qualquer momento, durante o processo;

Voluntariedade e proporcionalidade dos acordos. Os acordos só poderão ser

pactuados voluntariamente e devem conter somente obrigações razoáveis e proporcionais;

Tabela 2: Critérios e princípios da Justiça restaurativa de acordo com CEAG, 2012, p. 6.

(continuação)

Fonte: elaboração da autora,2012

BRANCHER (2006) aponta que a Justiça Restaurativa ocupa-se das consequências da infração, ao contrário da Justiça Tradicional que se ocupa da “violação da norma de conduta em si”. A Justiça Restaurativa valoriza o diálogo e a autonomia dos sujeitos ao criar espaços protegidos para que surja a auto-expressão de cada um dos envolvidos, transgressor, vítima, família, e comunidade, no sentido de buscar alternativas de responsabilização, o que gera, motiva a construção de estratégias que visam restaurar o relacionamento e a confiabilidade social. Preconiza o reconhecimento, trazendo para o campo da afetividade os relacionamentos atingidos pela infração, possibilitando através da resolução do conflito a responsabilização do adolescente em seus futuros modos de interagir colocados em uma perspectiva social (BRANCHER, 2006, p. 14).