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A JUSTIÇA RESTAURATIVA, UMA POSSIBILIDADE ATRAVÉS DA ADOÇÃO DOS PRECEITOS RELIGIOSOS NA VIDA HUMANA: a laicidade do

2 JUSTIÇA RESTAURATIVA: UMA PROPOSTA A SER PENSADA

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Apesar de não mais compor a estrutura do Estado, a religião ainda ocupa um lugar importante na vida da maior parte do povo brasileiro, que na sua condição humana estrutural demanda a presença de uma crença por ser ela um valor (STRECK, 2004) que antecede à própria Constituição, principalmente no que diz respeito a trazer o equilíbrio nas relações, sendo, em algumas circunstâncias, a condição para que se torne possível experenciar, na prática, a Justiça Restaurativa.

Na construção da história humana, sempre pudemos vislumbrar uma hibridação (LENÁ, 1999) e essa multiplicidade torna necessário que o exercício da crença religiosa seja cultivado, para tanto deve o Estado exercer o seu papel de respeitar e garantir a liberdade e escolha diante da diversidade religiosa (CECCHETTI e OLIVEIRA, 2015), respeitando a Constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A Constituição Federal, no seu art. 5º, inciso VI, preceitua que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias, corroborando o que consta do art. 18, da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A efetividade da Justiça Restaurativa se manifesta quando torna possível o resgate dos seres humanos, principalmente em suas relações com o outro (ELLIOTT, 2018), que somente se pode dar com o respeito a valores que possuem uma representatividade de sua cultura, no caso o direito ou liberdade de crença religiosa, baseada nas vivências que carrega consigo através das gerações.

Os seres humanos já encontram uma ordem estabelecida, seja do cosmo, da sociedade, do Estado, do direito ou da religião, mas essas ordens devem coexistir e serem humanamente observadas para que possam levar os seres humanos a viverem com dignidade, buscando a composição para que haja a superação de mazelas, danos e outras desventuras próprias da condição humana. Corroborando tais aspectos ALMEIDA (2015, p.55), preleciona que:

Guarda a ordem, e a ordem te guardará”, ou como se diz em latim: Serva ordinem, et ordo servabit te. Parece difícil de acreditar, mas é assim mesmo.

Pessoas polarizadas, obsessionadas, ou, no outro extremo, anárquicas, avessas a qualquer assomo de disciplina são pessoas fadadas ao fracasso, se não global, com certeza parcial; pelo menos, ficam aquém da medida do que poderiam render em benefício deles próprios e, com repercussão mais grave, da sua missão como chefes ou membros de uma família, como células vivas da sociedade pelo seu trabalho profissional, pelo espírito exemplar no cumprimento dos seus deveres particulares cívicos.

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Levando-se em consideração a proposta para uma Justiça Restaurativa, o Estado laico garante ao cidadão que este possa escolher viver a partir de sua fé, de suas crenças e possa ter princípios que lhe possibilitem pertencer a uma comunidade, sem a imposição do Estado, ao mesmo tempo em que desperta o sentido de fraternidade (DWORKIN, 2014).

O ordenamento jurídico possui uma estrutura, a partir da Constituição Federal, que, além de proteger o direito e liberdade de crença religiosa, o elevou a um direito humano, pois, o Brasil é signatário da Declaração Universal de Direitos Humanos, trazendo desta os seus valores, dentre outros, o direito humano a ter e poder escolher uma crença religiosa a seguir, conforme se vê do seu art. 18:

Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião;

este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.

Tal realidade pressupõe o direito não somente de escolher no que crer, mas como crer, no sentido de cultuar, e de que maneira poder se expressar. No entanto, mesmo existindo a regulamentação legal explícita, nem sempre ela é respeitada, levando o Judiciário, na condição de representante do Estado a ter que se manifestar a respeito, vindo a ter que garantir tal liberdade.

Portanto, o papel exercido pela religião, no que diz respeito a auxiliar a Justiça Restaurativa, tem condição de religar um ser humano a outro (CURY, 2004), tornando possível relevar situações de desagrado, pelo reconhecer-se humano, na humanização que há no outro, como reconhece MÃE (2015, p. 15):

A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e parece como um atributo indiferenciado do planeta. Parece como uma coisa qualquer.

Portanto, reconhecer-se humano na humanização presente no outro é admitir erros, não excluindo, mas procurando ajudar, principalmente as minorias e contribuir para que esses seres humanos sejam melhores. Por outro lado, aqueles que se julgam como cumpridores da lei e de seus deveres podem também agregar valor ao que já possuem como postura, podendo voltar seu olhar e apurar sua escuta (DUNKER e THEBAS, 2019),

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para que, através dos exemplos e vivências presentes no outro, possam superar os erros que carregam em sua personalidade.

A proposta da Justiça Restaurativa é a não segregação e estigmatização de pessoas por instituições punitivas que não vêm ao encontro com o fortalecimento de relações entre seres humanos, envolvidos em fatos onde haja dano ou lesão a direito, mas, ao contrário, fortalecer a rede de relações do sujeito, para que possa mudar a partir de sua conscientização de pertencimento, de cidadania e, assim, prever e evitar práticas criminosas e de má-fé.

No ordenamento jurídico, não sem razão, ao se constatar uma lesão ao direito, o olhar primevo é voltado ao ofensor, o mesmo se dando posteriormente, mas com a tentativa eficaz de puni-lo, retribuir a ele o mal praticado. Nesse contexto, o papel da vítima, familiares e demais membros da sociedade se restringe ao relato e testemunho sobre os fatos, nada além disso. Ao receber a punição, o indivíduo não a enxerga como meio de reflexão e proposta de mudança, mas entende o que o motivou a agir contrariamente à ordem legal. O que, para si, basta para justificar sua conduta, independentemente da consequência que irá suportar. Essa realidade alimenta e incentiva práticas dessa natureza, tanto que muitos as praticam de forma reiterada.

Segundo ELLIOT (2018, p.35):

Temos sido desafiados através desses relacionamentos a aprofundar nosso entendimento sobre o que chamamos de “Justiça Restaurativa” e a considerar um contexto mais holístico para o conflito. Isso significa que há uma tendência de ver a promessa de mudança como algo que emerge das raízes de nossa sociedade, em vez de ser institucionalmente conduzida.

No entanto, considerar um contexto mais holístico para o conflito é, ao mesmo tempo, visualizar vieses de possibilidades para que seja concretizado dessa forma, o que pressupõe a adoção de princípios constitucionais, dos direitos humanos e, ainda, vendo-os como uma decorrência dos princípios religiosos, que através de seus fundamentos podem levar à mudança da sociedade (SAROV, 2004), da comunidade, de maneira a compor sua estrutura, assim como atualmente a violência compõe o dia a dia das pessoas em suas condutas.

Mudar o entorno de forma estrutural faz com que haja a disseminação desses valores, pressupondo não se admitir que haja condutas contrárias a eles, não pela força ou imposição estatal, mas por uma condição existencial que compõe a sua estrutura, não se

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concebendo outra forma de convivência, como, por exemplo, acontece na Dinamarca (RUSSELL, 2016).

Portanto, para se conceber a Justiça Restaurativa, mudanças de paradigmas são necessários, necessitando serem pensados, revistos e adequados de forma constante, através da abertura ao diálogo, pois, somente este é capaz de possibilitar uma análise crítica circunstancial, onde se insere família, formação religiosa, punição e justiça, que são os espaços sociais onde nossas crenças e convicções são adquiridas e podem influir nas decisões quando há fatos conflituosos e consequências sociais.

3 SUBSÍDIOS PARA A ADOÇÃO DOS PRINCÍPIOS RELIGIOSOS EM UMA