A vivência cultural, mormente o da patrimonialização e da musealização dos objectos e sítios, tem enfrentado actualmente novos desafios. Este alinhamento tem se verificado um pouco, pelos países mais desenvolvidos, com novas experiencias de uso do património, oportunidade e transmis-são de conhecimento nas regiões afectas. Trata-se de ampliar o universo das possibilidades propostas à prática cultural da generalidade dos cida-dãos. E essa prática cultural contém em si, não apenas a fruição dos bens patrimoniais, mas igualmente a utilização do património como incentivo à «criação» cultural. Isto supõe que do usufruto intencional do patrimó-nio há-de resultar num acréscimo de níveis de educação patrimonial, de educação ambiental, de educação técnica e científica, que potenciarão os índices de participação cívica e fomentarão a necessidade de intervenção, a imaginação, a criatividade.
A geografia de Estremoz, Borba e Vila Viçosa, também conhecida pelo – o Anticlinal de Estremoz1 –, localizada no distrito de Évora - Portugal, é uma das mais antigas e produtivas superfícies de extracção de mármores do nosso país.
A importância sócio-económica desta actividade é bem conhecida na re-gião. As memórias pessoais e sociais que tem gerado ao logo dos tempos serão hoje difíceis de reconstituir. Mas estamos ainda a tempo de resgatar as vivências das últimas gerações que trabalharam nas pedreiras – em-presários, técnicos e operários. Será igualmente possível reconstituir os saberes técnicos e científicos que a extracção dos mármores foi gerando ao longo de séculos de actividade.
1 Jorge M. F. Carvalho - Cartografia Temática do Anticlinal, Zona dos Mármores, 2008.
Através do projecto PHIM – Património e História da Industria dos Már-mores2, desenvolvido pelo Centro de Estudos do CECHAP, em cooperação cientifica com outros Centros Académicos, CIDEHUS da Universidade de Évora; o extinto Centro de Estudos de História Contemporânea, agora in-tegrado no CIES do ISCTE-IUL e o IHC – Instituto de História Contempo-rânea da Universidade Nova de Lisboa, foi possível desenvolver entre 2013 e 2015, a primeira fase do estudo dedicado, à recolha de testemu-nhos orais de antigos actores da indústria dos mármores, efectuar um le-vantamento sobre a arqueologia industrial do século XIX e XX, e ainda, um levantamento documental sobre actividade, legislativa, o licenciamento de pedreiras e empresas, técnicas e evolução tecnológica para o período cro-nológico atrás descrito.
O trabalho humano transformou o mármore em bens patrimoniais histó-ricos e artísticos, esses sim, visíveis não apenas na região, e em grande abundância, mas um pouco por todo o país e nos quatro cantos do mun-do3.
Este conjunto de bens patrimoniais (materiais e imateriais) é um recurso inestimável que temos à nossa disposição para o desenvolvimento econó-mico e social da região e para o desenvolvimento cultural de todos os que intencionalmente dele quiserem usufruir.
2 Alves Daniel (coord.); Ana Cardoso de Matos; Armando Quintas; Carlos Alexandre Sousa; Carlos Filipe e Ricardo Hipólito – Mármore, Património para o Alentejo: contributos para a sua História (1850-1986). 2015, Talentirazão, Lda., CECHAP, Vila Viçosa, 2015. Consultar ainda: http://phim.cechap.com/
3 Alfredo Tinoco (coord.); Carlos Filipe e Ricardo Hipólito – A Rota do Mármore do Anticlinal de Estremoz, CEHC – ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa, Lisboa, 2014. Ver ainda, sobre a riqueza patrimonial gerada pelo mármore da região veja-se Nuno Milheiro, «O mármore como Património Cultural», in Actas do V Congresso Internacional da Pedra Natural, Vila Viçosa, 2003.
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Trata-se de um novo desafio para os nossos dias: o de salvaguardar, es-tudar, cuidar do património para poder utilizá-lo como recurso turístico, tendo em vista o enriquecimento cultural e o desenvolvimento sustentá-vel da região.
A salvaguarda e a reabilitação do património são hoje obrigações consig-nadas na lei e requeridas pelas comunidades, contemplando as funções rememorativas, de herança e de matriz identitária inerentes aos bens pa-trimoniais.
O novo desafio que se apresenta agora ao património é transformá-lo em recurso turístico. As operações de conservação, sabemo-lo todos, são ta-refas especializadas e geralmente onerosas. Também por esse motivo a recuperação patrimonial implica que se lhe atribuam novas funções que, na generalidade dos casos, podem conciliar a vertente cultural com o tu-rismo. Isto é: o novo desafio de combinar de maneira diferente e inovadora a cultura e a economia, transformando os patrimónios e as memórias que lhe estão associadas em experiências turísticas no sentido real da palavra, ou seja, com novas funções que impliquem a sua reelaboração produtiva.
O valor do objecto patrimonial não está normalmente associado às quali-dades físicas do objecto, mas antes a um valor acrescentado pelos homens que depende de um conjunto de referências históricas, sociais, económi-cas, culturais, psicológicas... e que varia com as pessoas e os grupos que lhe atribuíram tal ou tal outro valor. Isto significa que o património não é um fim em si mesmo. É um meio. É um recurso que nós temos utilizado ao longo do tempo.
Usamos o património em diferentes contextos de tempo e de espaço:
como recurso de rememoração, função primordial do objecto patrimonial, enquanto nos assegura as noções de continuidade e de mudança, passado e presente; usamo-lo como recurso didáctico; como recurso científico; e também como recurso turístico. O património tem, antes de mais, um valor instrumental.
A nossa herança cultural é, pois, um amplo repositório de recursos po-tenciais que podemos utilizar agora e no futuro para o desenvolvimento cultural e social das nossas comunidades.
Aos bens patrimoniais têm sido associados outros valores que nos são igualmente familiares: o valor estético, o valor social, o valor informativo, o valor económico.
Nos últimos tempos nasceram novas realidades que nos permitem inte-grar harmoniosamente dimensões económicas e culturais, reintegrando o património na sua função produtiva e tendo como referência o desenvol-vimento sustentável que nos garanta o futuro.
A conjugação de valores históricos, artísticos, técnicos, culturais, simbó-licos e económicos torna-se, assim, num suporte privilegiado das novas funcionalidades do património – a actividade turística com forte conota-ção cultural.
Com efeito, o turismo é hoje uma actividade transversal que proporciona variadas oportunidades de desenvolvimento económico, coesão social e de enriquecimento cultural das comunidades locais e daquelas que as vi-sitam.
A aliança da cultura e do turismo apresenta muitos desafios, mas oferece igualmente muitas oportunidades. A diversidade dos patrimónios presen-tes no território constitui uma das vantagens essenciais da oferta cultural local. Por tal razão, devemos mobilizar todos os recursos existentes no terreno: os bens de interesse cultural, museus, centros culturais, equipa-mentos, saberes, saberes-fazer...
Mas a quantidade não garante por si só o êxito dos empreendimentos tu-rístico-culturais. As políticas turísticas têm de ser decididas em função das características e das necessidades da realidade sócio-territorial, sabendo respeitar o património sem descurar a sua nova função produtiva tendo sempre como referência a sustentabilidade, que é uma necessidade e uma garantia do futuro do território e das gentes que o habitam.
Sendo assim, não se trata aqui de vender o património, mas antes de valo-rizar os recursos que temos ao nosso dispor, tendo em vista o desenvolvi-mento integral da comunidade local e dos visitantes.
Uma tal valorização produtiva do património é geradora de emprego e tem de estar ligada à inovação tecnológica e à criação de riqueza.
É, então, necessário aliar a inovação cultural à criatividade turística, estrutu-rando, assim, um novo factor de desenvolvimento.
A nova actividade turístico-cultural fará sentir os seus efeitos económicos de várias maneiras:
• mobilizando variadas actividades em torno da visita a
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tos, museus, sítios, oficinas artesanais, unidades produtivas... (trata-se aqui da emergência de uma nova fileira do turismo cultural – as rotas ou itinerários patrimoniais);
• desenvolvendo competências num amplo conjunto de actividades económicas;
• reforçando as capacidades de criação e inovação das empresas.
Por outro lado, o património assim entendido é igualmente um poderoso factor de desenvolvimento social:
• cria valores sociais comuns, na medida em que difunde referências para o conjunto dos membros da comunidade e reforça o sentimento de pertença à colectividade;
• cria uma imagem de marca que identifica o território em relação a outros;
• garante os laços de ligação ao passado;
• incentiva a capacidade de criar o futuro;
• reforça os mecanismos de coesão social – integração, reintegração.
Esta nova fileira de turismo cultural – as rotas ou itinerários – é uma das ex-periências mais interessantes desenvolvidas nas últimas décadas usando a valorização do património local ou regional para o seu desenvolvimento.
Por isto, foi criada e encontra-se hoje a Rota do Mármore do Anticlinal de Estremoz4, em funcionamento que reúne cinco concelhos integrados na geografia do Anticlinal dos Mármores, (Alandroal, Borba, Estremoz, Sousel e Vila Viçosa).
A ideia não é nova e tem sido um êxito um pouco por todo o mundo, usan-do vários bens patrimoniais em territórios muito diferentes. Mas tem siusan-do pouco utilizada entre nós e nem sempre do modo mais adequado.
Em França, na década de cinquenta do século passado, foram criados o Circuito Turismo do Aço e o Circuito Turismo da Lã, promovidos pela
Co-4 www.rotadomarmoreae.com
missão de Turismo Económico. Essas rotas temáticas de turismo indus-trial levaram muitos estrangeiros a visitarem esses sectores importantes da economia francesa. Identificados por «circuitos económicos», estavam preparados com a informação da história dos lugares e da sua indústria, divulgados através de edições de brochuras com o título A França e as suas produções e realizações5.
Ao longo do nosso estudo foi possível ter conhecimento da existência de outros projectos culturais em fase de instalação ou em actividade plena em Portugal. Todas elas, além das vantagens para o desenvolvimento lo-cal, permitem ao visitante o contacto directo com a natureza e os vários patrimónios propiciando, assim, um acréscimo de educação patrimonial e ambiental e, em muitos casos, um aumento da cultura científica.
A Rota do Mármore do Anticlinal de Estremoz (Alandroal, Borba, Estremoz, Sousel, Vila Viçosa), faz parte integrante da Associação de Estudos de Cultura, História, Artes e Patrimónios, que tem vindo a desenvolver a sua actividade a partir da sua sede em Vila Viçosa, desde 2012. Numa fase ex-perimental, dirigida para um público especifico, alunos do ensino superior.
Os autores do projecto da rota, registaram o seu estudo que fora publica-do em 2014 em livro pelo Centro de Estupublica-dos de História Contemporânea do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, [Fig. 7, 8], como Propriedade Intelectual, com o registo n.º 3855/2011, na Inspecção-Geral das Activi-dades Culturais.
Foi igualmente registado a marca da RMAE no Instituto Nacional da Pro-priedade Industrial, registo n.º 177/2012. Desde 2014 a Rota do Mármore AE, dispõem do Registo Nacional dos Agentes de Animação Turística, do Turismo de Portugal, com o registo n.º 145/20146.
Contando inicialmente com três núcleos dinamizadores com os seus per-cursos definidos: o Centro Ciência Viva, em Estremoz7, local onde a ciência e a tecnologia «rompem as paredes dos laboratórios» e que inclui uma exposição sobre a geologia da região do mármore; o CEVALOR, em Borba, Centro Tecnológico e de Valorização das Rochas Ornamentais e Industriais8 apostado na inovação técnica e na dinamização económica do sector das rochas; o Museu do Mármore “Raquel de Castro”, é propriedade da
Câma-5 Boletim mensal dos Lanifícios - Retalhos: «Circuito turístico do Aço, Circuito Turístico da Lã». Ano v, n.º 53 e 54, Maio, Junho de 1954.
6 Registo Nacional dos Agentes de Animação Turística, consultar: http://www.turismodeportugal.pt/Portugu%C3%AAs/
AreasAtividade/dvo/rnt/Pages/RNAAT.aspx 7 http://www.ccvestremoz.uevora.pt
8 O Cevalor - Centro Tecnológico para Aproveitamento e Valorização das Rochas Ornamentais e Industriais – (1990-2016) foi extinto por Processo Judicial – Insolvência em 2016.
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ra Municipal de Vila Viçosa9, instalado actualmente na antiga pedreira do Olival da Gradinha, único no país com o seu espólio tecnológico, que é um ponto de partida e complemento necessário às visitas no terreno.
A estes se acrescenta o valiosíssimo património arquitectónico e urbano monumental da região, o diversificado património paisagístico, a riqueza gastronómica, a genuinidade do artesanato, nomeadamente aquele ligado directamente à extracção dos mármores. Somem-se ainda as boas aces-sibilidades e uma oferta hoteleira de qualidade, em expansão nos últimos anos.