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Justificação proposicional no Infinitismo

3 PRIMEIRAS RESPOSTAS: FUNDACIONISMO E COERENTISMO

4.2 APRESENTAÇÃO E DEFESA DO INFINITISMO

4.2.4 Justificação proposicional no Infinitismo

No que discuto a seguir, começo a mostrar como o Infinitismo constitui uma teoria distinta das demais. Seguindo a composição dupla da crença há pouco descrita, inicio a abordagem da justificação infinitista a partir de sua faceta proposicional. Para descrevê-la, primeiro apresento algumas características assumidas por Klein na composição deste conceito. Isto exige esclarecer o que pode justificar uma crença, que relações podem ser estabelecidas entre os elementos que justificam e como isso se molda aos princípios que compõem o Infinitismo, formando uma estrutura que permite manifestar a propriedade proposicional da justificação.

Dois pontos já discutidos precisam ser rapidamente lembrados no início. Ao contestar o Princípio de não origem e conceder ao Pirronismo que a razão não encerra questões, Klein subscreveu uma continuidade indefinida na apresentação de razões. A isso se junta o fato de que ele também subscreve algo que mencionei em 3.2 ao discutir o Coerentismo, a saber, de que apenas razões são passíveis de justificar uma crença (KLEIN, 1999, p. 298). Disso resultam dois desdobramentos. Não ter de lidar com o dilema de Sellars, uma vez que estados mentais de caráter não-proposicional estão ausentes na estrutura da justificação. E também se nota a ausência de proposições dotadas de alguma propriedade diferenciada ou possuidoras de algum privilégio epistêmico frente as demais. Este pano de fundo já permite imaginar um encadeamento indefinido de proposições na justificação.

Mas antes é preciso abordar como Klein (2007a, p 11-12) entende que se constroem os elos entre essas proposições. A princípio, ele considera se uma crença apresentada enquanto razão para outra pode ser tomada também como causa dela. Ele chega a conceder a possibilidade de rastrear uma cadeia causal finita para um conteúdo proposicional de uma crença. Mas isto não deve ser confundido com a extensão da cadeia de razões. Em outras palavras, é possível regredir causalmente um conteúdo proposicional a algo de cunho não-proposicional. Mas isso não implica na constatação da inexistência de razões disponíveis para justificar. Na perspectiva de Klein (2007, p.12), se não houvessem razões disponíveis para justificar uma crença, enquanto conteúdo

proposicional, é possível que uma dessas três coisas aconteceria a ela: desaparecer, ter o seu conteúdo modificado ou sofrer uma alteração em seu grau de justificação.

Descartado o elo causal, fica por esclarecer que vínculo é estabelecido entre proposições para que uma justifique a outra. Abordando este ponto, Klein (2007a, p. 12) cita alguns casos em que uma proposição figura enquanto razão para outra: quando uma razão, de probabilidade suficientemente alta, torna a probabilidade condicional da crença justificada igualmente provável; um observador imparcial aponta r como razão para p; r é apresentada em conformidade com os mais profundos comprometimentos epistêmicos de S; uma pessoa intelectualmente virtuosa traria r como razão para p. Ele ainda apresenta outros exemplos, mas afirma que não pretende esgotar uma lista deles. Klein indica que todos estes elos são compatíveis com a teoria, ficando por decidir qual deles melhor consegue caracterizar quando uma proposição é razão para outra. A manifestação deste vínculo também significa a manifestação da disponibilidade de uma base evidencial para justificar a proposição. Isto que Klein (1999, p. 299) chama de disponibilidade objetiva representa um tópico importante na teoria. Sua melhor abordagem depende de outras noções que surgem à medida que a discussão avançar ao longo da seção.

Por hora, volto-me a PAA e PAC com outro objetivo, isto é, demonstrar como eles moldam a estrutura que representa a justificação proposicional. Com PAC, acaba-se exigindo que a cadeia de justificação, com as inferências que a constroem, não incorra em nenhum tipo de circularidade, própria de um raciocínio falacioso. Já com PAA, se há uma justificação para qualquer crença, p, então existe uma razão disponível, r¹, para ela. Da mesma forma, se r¹ é justificada, recai-se na existência de r² disponível como razão para ela. O mesmo se aplicaria a r², estruturando-se, assim, uma cadeia sem fim e não repetida de razões como aquilo que, proposicionalmente, justifica p. Ajuda na melhor compreensão disso relembrar o comentário de Bonjour (2000, 262-263) que discuti ao fim da seção 2, isto é, o regresso não é uma questão temporal, onde a preocupação é com a impossibilidade de apresentar infinitas razões uma após a outra num lastro finito de tempo. A questão se volta para o fato de que se há justificação para crer em p, então há uma inferência disponível para S apresentar, sustentando assim a racionalidade de sua crença. Tradicionalmente, refutou-se um caminho sem fim de inferências por ele se demonstrar desfavorável a uma conclusão. Mas, frente à discussão apresentada quanto aos princípios sustentadores dessa perspectiva, Klein defende o contrário, isto é, que as

inferências disponíveis, sem fim e não circulares ou falaciosas seriam a marca da justificação de p.

Apreender uma estrutura como esta numa perspectiva transmissora da propriedade de justificação constitui equívoco. A propriedade deve ser tomada, como sustenta Klein (2007a, p. 8), a exemplo dos arranjos comuns ao coerentismo holístico, ou seja, a justificação de p emerge a partir do momento em que ela faz parte de uma cadeia sem fim e não repetida de razões. Como já afirmado, não se trabalha com proposições possuidoras da propriedade de justificação em separado, independente de sua figuração em quaisquer cenários que as descrevam como ligadas a outras. Fala-se de uma propriedade que depende de uma determinada organização de elementos para que se torne possível sua existência. Sem os fatores mencionados trabalhando conjuntamente, a justificação proposicional não é passível de surgir.

Um passo além dos realizados até agora na descrição deste fator só é possível na abordagem do aspecto doxástico da justificação, complemento necessário à geração do tipo diferenciado de garantia epistêmica objetivada por Klein em sua teoria.