sociedades técnico-científicas contemporâneas
3 Refletindo como o discurso é constitutivo da construção sociopolítica da tecnologia
3.2 Justificando o diálogo entre a CST e a TD
Iniciaremos essa seção refletindo sobre a orientação ontológica, aquela que determina como o pesquisador observa a “realidade” para depois partirmos à orientação epistemológica (LEÃO; MELLO; VIEIRA, 2011). As duas teorias em pauta podem ser denominadas como construtivistas, pois rejeitam a noção realista de que a linguagem é um meio neutro de refletir ou descrever a realidade. A realidade é problematizada, não é tida como dada e objetiva, ela é construída pelos sujeitos que a constituem e interpretam, através da linguagem. Na CST, o desenvolvimento tecnológico é problematizado e as tecnologias são construídas a partir dos debates entre os grupos sociais relevantes dentro de um quadro tecnológico. Na TD os sujeitos políticos exercem sua subjetividade política articulando ou desarticulando discursos hegemônicos.
Então, as duas teorias compartilham a perspectiva filosófica do realismo crítico, uma posição que pressupõe a dúvida em relação ao que se conhece e admite a possibilidade de a realidade não ser como aparenta, em virtude da percepção do sujeito interferir no conhecimento. Assim, compartilham uma forma de antirrealismo onde a realidade é construída pelo sujeito através das interações sociais e da linguagem. O mundo social é contextual, contingente, precário e indeterminado para as duas áreas de conhecimento.
Foi a chamada “virada sociológica” que promoveu a saída do foco do mundo social tido como natural para o mundo social das convenções e instituições interferindo na forma como o conhecimento científico é compreendido e investigado. Esse é o foco do Programa Forte da Sociologia do Conhecimento Científico (SCC) que embasa a epistemologia da construção social da tecnologia.
Segundo Latour e Woolgar (1979) a influência do Programa Forte da SCC faz inutilizar não só a objetividade, mas também a universalidade, a independência e a neutralidade da ciência e enfatiza uma abordagem mais relativística para o conhecimento científico e para a tecnologia.
Para Collins (1981), o conhecimento científico, como qualquer outro corpo de conhecimento, é baseado em convenções, e não é algo que pode ser determinado por propriedades do mundo exterior, ele deve ser compreendido como uma convenção social. Já a influência epistemológica advinda da chamada “virada linguística” nas ciências sociais faz emergir novas abordagens de pesquisa como a hermenêutica, a teoria crítica e o estruturalismo, que são influências epistemológicas marcantes na TD de Laclau e Mouffe (HOWARTH, 2000).
Demo (1995) aponta que a hermenêutica, como metodologia, refere-se à arte de interpretar textos. Constata-se que a realidade social, e, principalmente, a comunicação humana, possui múltiplas dimensões, nuances e variações que é fundamental atentar não só
para “o dito”, mas igualmente para o “não dito” (MELLO; SÁ, 2006). Esse olhar também é compartilhado pelas duas teorias, na medida em que as duas questionam a realidade e o que se pode perceber sobre ela.
Diante do exposto, pode-se afirmar que a linguagem é a epistemologia das duas teorias. Por um lado, a TD reconhece na virada linguística o aspecto de que a linguagem é ação política, e que, para se compreender a realidade social devem-se compreender as normas que regem os atos de fala e os jogos de linguagem. Por outro lado, a CST, reconhece na virada sociológica e na sociologia da ciência, uma crítica à compreensão da realidade como sendo algo “dado” e exterior ao sujeito que a experiencia. Raciocínio de autores da filosofia da linguagem e da sociologia da ciência como: Thomas Kuhn, Ludwig Wittgenstein, Peter Winch, John Searle, John Austin, estão presentes na base do conhecimento das duas teorias o que aproxima os dois campos de conhecimento.
Nessas teorias os conhecimentos são gerados a partir dos contextos de explicação e justificação dos problemas de investigação em análise. Diante disso, um dos maiores objetivos da pesquisa social discursiva é descobrir as regras historicamente específicas e convenções que estruturam a produção do sentido em um contexto social particular (HOWARTH, 2000). Trata-se de um tipo de investigação substantiva porque rompe com a representação simbólica da sociedade como um corpo orgânico e com os métodos formais de investigação (HOWARTH; NORVAL; STAVRAKAKIS, 2000).
Como consequência disso, o relativismo, tanto metodológico quanto ontológico, são fontes de crítica das duas teorias, entretanto, é justamente aí onde reside a possibilidade de transformação da realidade que as mesmas propõem, pois, é a partir do momento que se relativiza o olhar diante dos fenômenos, que se desconstrói as verdades que os cercam gerando um olhar mais complexo e abrangente das realidades em estudo. As duas teorias
direcionam o desenvolvimento orgânico de um programa de pesquisa na medida em que tentam compreender e explicar novos casos empíricos.
Outro ponto importante a ser ressaltado é que nas duas teorias os fenômenos são tratados a partir de uma perspectiva multiparadigmática o que permite aos pesquisadores perceberem seus estudos como sendo multifacetados. Sendo assim, os mesmos desenvolvem trabalhos utilizando a triangulação de métodos e técnicas de pesquisa oriundos de diversas abordagens (LEÃO; MELLO; VIEIRA, 2011). A riqueza da abordagem qualitativa nas pesquisas é essa pluralidade o que faz com que seus pesquisadores sejam mais críticos em relação aos métodos que eles desenvolvem para apreender e explicar seu fenômeno, bem como para replicar seus estudos, como nos faz lembrar Paiva, Leão e Mello (2011, p.2):
Na medida em que a pesquisa qualitativa desenvolve uma reflexão crítica e um saber acumulado, é preciso que seus pesquisadores deixem de abordar critérios implícitos para avaliar e guiar pesquisas, ou seja, que não mais deixem tais critérios subentendidos e passíveis de não serem percebidos ou compreendidos, para adotarem critérios e processos de investigação mais explícitos, que possibilitem a compreensão e a replicação do estudo.
Os teóricos do discurso buscam articular seus conceitos em cada contexto concreto de pesquisa de forma particularizada. A condição para essa concepção de pesquisa é que os conceitos e lógicas do modelo teórico devem ser suficientemente abertos para serem adaptados, deformados e transformados no seu processo de aplicação. Essa concepção exclui teorias essencialistas e reducionistas da sociedade, que tendem a predeterminar o resultado da pesquisa e assim a possibilidade de um olhar inovador para o fenômeno (HOWARTH; NORVAL; STAVRAKAKIS, 2000).
Tanto a CST como a TD rejeitam abordagens racionalistas para as análises sociais e políticas que presumem que os atores sociais têm interesses e preferências a priori ou que focam no funcionamento racional ou irracional dos sistemas sociais. No lugar, então, de falarmos em ator social no sentido clássico da sociologia, onde esse possui um lugar dentro
de uma estrutura onde desenvolve um papel esperado e detém um status social, falamos em sujeito, um tipo de ator social que não tem um conteúdo positivo estabelecido previamente, que é formado a partir de uma pluralidade de discursos e de uma forma de estrutura social descentrada e precária que não determina a ação social. Esse sujeito resgata a condição política ao homem.
Em outras palavras, a TD se preocupa sempre em apresentar a contingência histórica e a impossibilidade estrutural dos sistemas sociais recusando-se em posicionar concepções essencialistas da agência social. Em vez disso, agentes e sistemas são construções sociais que experimentam constantemente mudança histórica e social como resultado de práticas políticas (HOWARTH; NORVAL; STAVRAKAKIS, 2000). Na CST as tecnologias são [des]construídas a partir da [re]interpretação que os grupos sociais relevantes, fornecem às tecnologias.
Segundo os supracitados autores, os objetos de investigação pertinentes à TD podem ser: explosão de identidades nacionais, a emergência e lógica dos novos movimentos sociais, o aparecimento e dissolução da fundação de mitos políticos e imaginários coletivos, produção de novas ideologias e a estruturação de sociedades por meio de uma pluralidade de imaginários sociais. Já Bijker; Hughes e Pinch (1987) mencionam três diferentes abordagens para as investigações sobre desenvolvimento tecnológico sob a perspectiva dos estudos sociotécnicos da CST: a que destaca o conceito de sistema; a que insiste em seu caráter socialmente construído; e a que privilegia o conceito de rede.
Diante do exposto pudemos observar que a tecnologia ainda não foi objeto de estudo dos teóricos do discurso (e.g. Laclau e Mouffe). Para os autores da CST, a tecnologia não é apenas objeto de estudo (empírico) é também parte do conhecimento gerado, é teoria. A TD, ao investigar a forma na qual as práticas sociais articulam e contestam os discursos que constituem a realidade social (HOWARTH; NORVAL; STAVRAKAKIS, 2000) politiza o
social se caracterizando como uma teoria social e política. Articulando, então, os conceitos das duas teorias, na próxima seção desse ensaio, esperamos atingir o objetivo proposto inicialmente nesse capítulo.