A definição dos principais protagonistas desta pesquisa ocorreu de maneira pragmaticamente definida. Desta forma, em primeiro lugar foram identificados muitos atores por toda a rede ao redor do certificado FSC (Ver tabela 01). Estes atores foram divididos em categorias para possibilitar um melhor entendimento dos diferentes tipos de interações que ocorrem neste processo.
Tabela 01 – Atores na certificação FSC
CATEGORIAS ORGANIZAÇÃO/TIPO DE ORG./SETOR/ELEMENTOS INERENTES INDIVÍDUO/POSIÇÕES INDIVIDUAIS HUMANOS AGENTES INSTITUCIONAIS
FSC IC; FSC GD; ASI; AG; AG/BR; FSC SE/BR; CD/BR.
Membros dos diferentes órgãos, funcionários; técnicos.
EMPRESAS CELULOSE; MADEIREIRAS;
SERRARIAS; PRODUTORAS;
DISTRIBUIDORAS; GRÁFICAS. P. ex. Klabin; Fibria; Suzano.
Membros das diferentes
empresas responsáveis pela
ONGs SOCIAIS; AMBIENTAIS. P. ex.
GTA; WWF; Greenpeace;
Amigos da Terra.
Membros das diferentes ONGs envolvidos com o FSC.
CERTIFICADORA APCER; BUREAU VERITAS; IMO; IMAFLORA (RA); SCS; SGS; CONTROL UNION.
Membros das diferentes
certificadoras responsáveis pela certificação/ monitoramento.
SINDICATOS/ ASSOCIAÇÃO PROFISSIONAIS
P. ex. Centro dos Trabalhadores da Amazônia.
Membros das diferentes
entidades envolvidos com o FSC.
NÃO HUMANOS
NATURAIS FLORESTAS; ECOSSISTEMAS; BIODIVERSIDADE.
P. ex. Formigas cortadeiras; mosaico de plantações.
LEGISLATIVOS PRINCÍPIOS E CRITÉRIOS (FSC E FSC/BR); LEGISLAÇÃO
ESPECÍFICA (MUNICÍPIO,
ESTADO, FEDERAÇÃO);
OUTRAS CERTIFICAÇÕES.
P. ex. Código Federal; Princípio n. 2; indicadores do GRI; normas da ISO.
DOCUMENTAIS PLANO DE MANEJO;
RELATÓRIO DE
CERTIFICAÇÃO/AUDITORIA/M ONITORAMENTO; RELATÓRIO DE SUSTENTABILIDADE.
P. ex. o relatório de Auditoria Anual de manejo florestal da Klabin SC, o plano de manejo da Klabin PR.
Fonte: Elaborado pelo autor
Todas estas interfaces entre os diferentes atores foram computadas utilizando-se a Análise de Redes Sociais (Scott, 2005; Hanneman, 2000; Molina, 2001; Minella, 2005; 2007; 2011) por intermédio das ferramentas digitais UciNet 6 (Borgatti et al., 2002) e Netdraw (Borgatti, 2002) que permite verificar o grau de centralidade, intermediação de determinados atores em detrimento de outros, bem como facilitar a visualização das redes sociais, para assim melhor entender a composição dos participantes no sistema e da estrutura efetiva de poder no processo de definição de normas e de implementação da certificação florestal promovida pelo FSC (cf. apêndice A, ver organograma 01).
Podemos observar que os dois atores centrais, ou seja, aqueles em que ocorre o maior número de intermediações com outros atores, são a empresa e a certificadora responsável. Como um estudo social da relação específica entre a empresa que almeja o standard FSC e uma certificadora credenciada pelo FSC para fornecer este certificado é algo que não temos notícia nos ESCT, optamos por estudar de maneira mais específica como ocorre esta relação social entre as empresas e as certificadoras do standard FSC em seus aspectos sociais e políticos.
Organograma 01 – Interfaces múltiplas
Fonte: Elaborado pelo autor
Tendo em vista que a etapa da implementação dos standards por intermédio das empresas é chave para a concretização do que a certificação se propõe; visto que a certificadora e a empresa são centrais ao processo de certificação; além de argumentarmos que o processo de emergência de autoridades privadas por intermédio do standard FSC serviu para modelar os discursos acerca do importante setor econômico florestal com novos fluxos de produtos sustentáveis baseados em práticas de manejo florestal responsável, decidiu-se tratar da relevância desta arena de negociações específicas que envolve o relacionamento entre a certificadora e a empresa alvo da certificação.
A certificadora Imaflora é a única organização sem fins lucrativos que certifica em nome do FSC no Brasil (todas as outras certificadoras são empresas e não ONGs), além de ter realizado a primeira certificação de plantações no Brasil. A Klabin foi a primeira empresa do setor de celulose no Brasil a realizar a certificação
FSC para suas plantações em todas as suas unidades de manejo florestal, além de ter sido convidada a participar do processo de estabelecimento do standard FSC no Brasil. Este relacionamento estabelecido entre a certificadora e a empresa é relevante para o campo sociológico, visto que através da evolução das ações requeridas pela certificadora à empresa em suas auditorias, neste caso específico, retrata de maneira significativa o movimento de reflexividade forçado pela introdução de mecanismos privados de manejo florestal responsável.
A certificadora SGS é a maior e principal empresa credenciada pelo FSC para realizar a certificação florestal de seus standards. A Veracel é uma das maiores empresas do ramo de papel, celulose e seus derivados em todo o mundo. A certificação florestal das práticas empresariais da Veracel tem sido amplamente questionada por diversos setores sociais, desta forma o relacionamento entre esta certificadora e a empresa é importante, do ponto de vista acadêmico, para entender como os conflitos emergem e são tratados pelas partes envolvidas nestes mecanismos privados. Por isso a escolha nesta tese.
Desta forma, nossa análise será focada na trajetória de construção do processo de certificação florestal dos standards FSC in-the-making mais as práticas da certificadora (Imaflora) junto à unidade de manejo florestal (Klabin Paraná) em suas auditorias de monitoramento e de recertificação e dos conflitos na interface entre o emissor do certificado (SGS) e a unidade de manejo florestal (Veracel). Para, assim, entender como ocorrem as negociações, acomodações de interesses e como emergem os conflitos nestas inovadoras práticas privadas que transformam a realidade social de maneira mais específica. Optamos por um estudo de caso que venha observar na análise da trajetória da construção do standard FSC as diferentes interfaces que compõem a construção social dos standards, suas arenas de negociação, acomodações de interesses e conflitos que emergem nas diferentes etapas da certificação florestal.