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Justificativa

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Considerando a importância dada à relação terapeuta-cliente na literatura contemporânea da terapia comportamental (Linehan, 1993; Kohlenberg e cols, 2004), é importante estudar o efeito que o cliente tem sobre o terapeuta. O estudo deste assunto pôde contribuir para a compreensão de mecanismos que afetam a relação terapêutica, e com isso, a viabilidade da mesma como instrumento de mudança.

Sendo a relação terapêutica uma relação íntima, onde ambos os participantes são vulneráveis e sendo o terapeuta antes de tudo uma pessoa que sente e interage, o terapeuta é vulnerável às reações aversivas do cliente durante sua atuação. Nós não conhecemos bem as implicações de tais vivências para o terapeuta.

7. Objetivos

Esta pesquisa se propôs a explorar os efeitos dos momentos interpessoais aversivos sobre a pessoa do terapeuta: como esses momentos influenciam o terapeuta na sua atuação, como esse profissional lida com esses momentos (coping) e quais são os efeitos percebidos por ele decorrentes de suas estratégias de coping. Um outro objetivo foi aumentar a consciência dos terapeutas sobre o impacto dos clientes em sua pessoa e de como ele está lidando com isso.

MÉTODO

Participantes

A pesquisa contou com quatro participantes-terapeutas, todos do sexo feminino, sendo duas da abordagem comportamental, identificadas nos resultados como T1 e T2 e duas da abordagem psicanalítica, identificadas nos resultados como T3 e T4. O tempo de atividade profissional não foi analisado. Pelo fato da profissão de psicoterapeuta ser predominantemente feminino, foi optado de trabalhar com terapeutas mulheres. As terapeutas foram recrutadas através de contato pessoal feito pela pesquisadora e foram sondadas dentro da disponibilidade que tinham para responder perguntas referentes à sua vivência subjetiva da relação terapêutica.

Materiais

Mestranda e orientador confeccionaram o roteiro de entrevista que foi aplicado nas três primeiras entrevistas (Anexo 1) e o roteiro de entrevista final (Anexo 4).

Confeccionou-se documentos de consentimento informado para as participantes e para os assistentes de pesquisa responsáveis pela transcrição das fitas cassetes (Anexo 2 e 3).

Utilizou-se gravador e fitas cassetes em todas as entrevistas com as terapeutas- participantes.

Procedimentos

Foram realizadas entrevistas individuais, sendo uma entrevista inicial e quatro entrevistas baseadas na análise de relatos escritos ou gravados das terapeutas concernindo uma sessão em que elas se perceberam punidas por um cliente. As entrevistas após o relato da sessão objetivaram obter feedback sobre a “leitura” que a pesquisadora fez do relato da sessão, checar e aprofundar as interpretações feitas pela pesquisadora com a própria participante. Esta opção metodológica é decorrente da visão contextualista, onde não se procura ter uma interpretação objetiva feita por um pesquisador neutro, mas onde participante e pesquisador constróem as interpretações juntos.

Análise de dados

Tratou-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória, dentro de uma abordagem contextualista, sob o método indutivo, baseada na abordagem da Grounded Theory ou Teoria Fundamentada nos Dados (Charmaz,2003). Essa abordagem foi desenvolvida na década de 60, por dois sociólogos americanos, Barney Glaser e Anselm Strauss. Os princípios da Grounded Theory tem por base o Interacionismo Simbólico, uma teoria radicalmente contextualista, presente em diversas ciências humanas, inspirada pelas idéias do filósofo americano George Herbert Mead.

Através da análise de dados obtidos sistematicamente a partir de situações concretas, a Grounded Theory pode gerar uma teoria ou modelo conceitual com o objetivo de explicar fenômenos sociais e psicológicos (Reiners, 1998). Alguns conceitos pertinentes a esta teoria são fundamentais para a compreensão do presente trabalho:

ƒ Sensibilidade teórica ou conceitos sensibilizadores: são idéias e noções provenientes da leitura prévia da literatura relacionado ao assunto e a carga de conhecimento da formação do pesquisador.

ƒ Amostragem teórica ou proposital refere-se à escolha de sujeitos em função da probabilidade que o material trazido por eles possa produzir a emergência de categorias relevantes para o desenvolvimento do estudo pretendido, possibilitando assim, respostas às questões da pesquisa.

A partir dos dados coletados se constrói categorias, o que foi feito na interpretação das transcrições. Buscou-se qualificar separadamente o material coletado de cada terapeuta, com o objetivo de se construir categorias a partir dos próprios dados, na tentativa de procurar padrões que se repetiam. A princípio nomeiam-se linha por linha os dados (conceitos específicos) de acordo com seu conteúdo, após isso, sintetizou-se os conceitos, visando organizar uma grande quantidade de dados. A codificação foi feita manualmente, anotando-se as interpretações específicas na margem direita da página.

Encontrou-se inicialmente conceitos analíticos bem específicos, tais como “cliente falta à sessão”, “cliente abandona a terapia” etc., que posteriormente foram categorizados em conceitos mais amplo como: “cliente se esquiva”. Após essa categorização, foi elaborada uma análise da freqüência de cada categoria, levando-se em consideração que a freqüência que algo é falado seria um dos indícios de sua importância.

ƒ Memos ou memorandos: auxiliam na construção da teoria, fazem parte de uma estratégia para a retenção de informações relevantes e utilizá-los quando necessário. De acordo com Santos e Nóbrega (2002), as informações contidas nos memos possibilitam

maior reflexão sobre o fenômeno investigado e favorecem insights que irão contribuir para a compreensão do material colhido.

No que diz respeito ao presente estudo os memos foram utilizados com dois objetivos: identificar as relações entre os fenômenos investigados, e para o desenvolvimento dos conceitos.

Assim considera-se que a pesquisa não consistiu em desvelar fatos já pré-existentes concernindo o efeito da punição sobre a terapeuta, mas que foi um processo criativo em que tanto a pesquisadora quanto participante elaboram novas compreensões sobre a vivência pesquisada, não cabendo assim, expectativa de saturação da análise.

RESULTADOS

As categorias que emergiram dos relatos das participantes foram: (1) Eventos aversivos; (2) Sentimentos negativos da terapeuta; (3) Reações da terapeuta após o episódio aversivo; (4) Reações do cliente às reações da terapeuta; (5) Auto-manejo (coping) pela terapeuta; (6) Efeitos do auto-manejo (coping); (7) Variáveis que afetam a tolerância à punição; (8) Dificuldades pessoais da terapeuta; (9) Transformação de sentimentos; (10) Aproveitamento do episódio para o caso específico; (11) Aproveitamento pela terapeuta como profissional; (12) Efeitos da pesquisa sobre a pessoa da terapeuta.

Abaixo, as subcategorias mais importantes de cada categoria serão apresentadas. Algumas delas são ilustradas com trechos escolhidos das falas das participantes.

1. Eventos Aversivos

Os comportamentos dos clientes relatados pela maioria das terapeutas como sendo aversivos para elas, foram:

ƒ Falta de engajamento na terapia/Resistência à terapia pelo cliente (T1, T2, T3 e T4)

T1: “...Quando o vínculo se rompe eu acho mais difícil de trabalhar. Que aí o cliente começa com uma resistência enorme a tudo que você fala, a um ceticismo muito grande.

Aí ele começa a boicotar o processo se fechando.”

T2: “...Uma vez eu falei isso para um paciente: ‘Olha! Eu estou tentando te alcançar, tentando discutir as coisas com você p/ nós refletirmos sobre isso, mas você tá fechado para mim. Você não tá deixando eu ao menos falar as coisas, porque você não está querendo ouvir’. Porque nessa sessão ele estava conversando comigo olhando p/ parede.”

T3: “Eu acho que o mais aversivo (risos) e o mais difícil de fato não era nem o não falar, ela falava sempre, mas é a questão de não querer resolver. Tudo isso que ela foi trazendo, ela foi trazendo muito coisa, mas muita coisa não querendo mexer com isso.”

T4: “Essa paciente, ela tem assim suscitado muitas vezes, por ela ser resistente com ela mesma, é lógico que refletiria a resistência em relação a minha colocação ou a minha pessoa. Então todas às vezes que eu penso em está escolhendo um caso para está falando em situações aversivas, eu penso nela.”

ƒ Rejeição/Desaprovação da atuação da terapeuta (T1, T2, T3 e T4)

T1: “Semana retrasada eu atendi um cliente com depressão muito forte e que ele estava punindo os meus comportamentos de tentar entender o que estava acontecendo com ele. Sempre que eu fazia perguntas para conhecer mais o que estava acontecendo com ele, ele me punia, do tipo: ‘Ai! Estou cansado dessas perguntas. Todo mundo me pergunta isso’.”

T2: “...quando é aquele cliente chato, igual a cliente chata que eu estava te falando, que discorda de uma coisa que eu estou falando, daí depende da função também. Vamos supor que eu estou vendo que o cliente tá discordando só para me irritar, porque tem cliente que faz isso. É como se fosse assim: “Não”! Não é assim! Sabe? Como se ele fosse o dono da verdade.”

T3: “...O certo é desaprovada, sentir desaprovada pelo cliente... Ser desaprovada naquilo que eu tentei interferir ou pontuar e que ele não apoiou, não acolheu, não aceitou.”

ƒ Sarcasmo/Arrogância (T1, T2 e T4)

T1: “Porque uma coisa que eu nunca suportei muito foi esse negócio de sarcasmo, de arrogância. Eu achava melhor a pessoa ser franca comigo, igual a mãe dela (cliente

borderline), que falava as coisas na bucha, o que pensava, do que esse jeito assim.”

T2: “Até que um dia, e essa cliente é meio prepotente, ela gosta de estar por cima das pessoas, mas eu nunca tinha parado para pensar nessa questão da cadeira. Porque para mim muitos clientes fazem isso e eu vejo que é porque eles não sabem realmente onde eles têm que sentar. Daí um dia ela chegou para mim e falou assim: ‘Hoje eu não vou sentar na sua cadeira. Eu vou sentar na minha’.”

Dentre as outra subcategorias mencionadas pelas terapeutas encontram-se: ƒ Desconsiderar/Desvalorizar a terapeuta (T1, T2 e T4)

ƒ Agressividade verbal/ Escândalo na sessão (T1 e T2) ƒ Faltar a sessão (T1 e T3)

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